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LIMA BARRETO

 





Título: Lima Barreto

Dimensões: 9x9Cm

Técnica: Xilogravura

Data: Janeiro 2022

Filho da professora Amália Augusta Barreto e do tipógrafo da Imprensa Nacional João Henriques de Lima Barreto, Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu na cidade do Rio de Janeiro. Nasceu numa sexta-feira 13. Mês de maio de 1881. A propósito, o mesmo ano da publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, 7 anos antes da Lei Aurea. O bairro: Laranjeiras. A casa, na rua Ipiranga nº 18, não existe mais.

Aprendeu a ler em casa com a mãe, que mantinha um pequeno colégio para meninas, o Santa Rosa, no mesmo bairro das Laranjeiras. O menino Lima, assim como Machado de Assis, ficou orfão cedo. Com a morte da mãe, aos 7 anos, entrou numa escola pública, na rua do Rezende, passando pelo Liceu Popular Niteroiense - um dos mais conceituados estabelecimentos de ensino da época, dirigido pelo educador inglês, Mr. William Cunditt. Os seus estudos eram, então, bancados pelo Visconde de Ouro Preto, padrinho de batismo do escritor. Depois de prestar os exames de preparatórios no então Ginásio Nacional, nome que a República tentou colar no velho Colégio Pedro II, para se desfazer dos vultos do período Imperial, Lima Barreto ingressou na Escola Politécnica. O futuro parecia promissor. Dali, sairia engenheiro civil, de minas, industrial, mecânico ou agrônomo. Entretanto, estudou apenas até o terceiro ano. Não dava mais. Não havia maneira de fazê-lo aprovar numa disciplina de nome tão irônico quanto redundante, Mecânica Racional. Tinha sido reprovado diversas vezes - e isso, creiam-me, enche o saco de uma pessoa. 

Alguns outros fatores mais profundos faziam com que Lima Barreto não se concentrasse na Politécnica. O fato de ser o único aluno negro da turma, aliado ao baixo desempenho na Mecânica Racional, por dois anos seguidos, podem ter influenciado para o desânimo do rapaz. Mas, um episódio específico determinou um certo rumo que sua em sua vida iria tomar, a partir dali:  o pai enlouqueceu quando Lima Barreto tinha apenas 22 anos.

Assim, ele interrompeu os estudos, para encarregar-se da numerosa família, composta agora pelo pai e os irmãos mais novos. Para ganhar a vida, Lima Barreto trabalhou como professor particular e depois, com a abertura de vaga para amanuense na Diretoria do Expediente da Secretaria da Guerra, presta concurso e se classifica em segundo lugar, com uma diferença mínima de pontos para o primeiro colocado. Mesmo assim foi nomeado, começando a trabalhar no mesmo ano.

Nos primeiros anos como amanuense foi procedimentalmente humilde.  Não faltava, não chegada atrasado, e tratava a todos com deferência. As semelhanças biográficas do início de carreiras entre Machado e Lima, param por aqui. Sendo preterido mais de uma vez em promoções, foi ficando negligente e relapso. Nesse processo de transformação pessoal, virou um habitual nas rodas de café e de bares, frequentadas por Olavo Bilac e Emilio de Menezes. Foi provavelmente nestas rodas que descobriu os benefícios de uma boa Parati. 

O convívio dos cafés e botequins, que o romancista acabou frequentando dioturnamente, o tornaram conhecido, gerando contatos no meio jornalístico. Em 1905, Lima Barreto iniciou-se na vida literária com reportagens para o Correio da Manhã, preparando uma serie de textos sobre a derrubada do Morro do Castelo. Paralelamente, foi colaborando em jornais e revistas estudantis, como A Lanterna e A Quinzena Alegre, todos de curta duração. Mais tarde, em 1907, quando Mario Pederneiras fundou o Fon-Fon, chamou-o para a redação, mas ficou pouco tempo. Saiu para lançar com um grupo de amigos uma pequena revista, a Floreal, que apesar de quatro números apenas, mereceu do sempre meio mal-humorado José Verissimo, crítico exigente, uma surpreendentemente simpática acolhida. Inclusive, seu primeiro romance, Recordações do Escrivão Isaias Caminha, começou a ser publicado na Floreal, em 1907, mas só veio aparecer em livro dois anos mais tarde, editado em Portugal. Seu biógrafo definitivo, Francisco de Assis Barbosa, chegou a entrevistar Antônio Noronha Santos, Manoel Ribeiro de Almeida, Mario Tibúrcio Gomes Carneiro, companheiros de Lima Barreto na Floreal, revelando-nos detalhes fundamentais de sua biografia.

Quando em 1909, finalmente, o romance foi editado em Portugal, Lima Barreto marcou sua presença no ambiente intelectual, para o bem e para o mal. O livro bancado com os seus limitados recursos próprios, seria venerado e odiado de maneira desproporcional. Por um lado, foi venerado pelos pares e por uma certa parcela da intelectualidade, mas o problema é que o ódio vinha de cima, principalmente da parte de Edmundo Bittencourt, o todo poderoso dono do jornal Correio da Manhã, que não gostou nada nada do tom de sátira que assemelhava o autoritário e fictício Ricardo Loberant, dono do jornal “O Globo”, com sua pessoa.   

O problema estaria resolvido se apenas as portas do Correio se fechassem. Caso acontecesse, poderia arrumar  emprego, por exemplo,  no jornal do desafeto do ex-chefe, certo?  Entretanto, Bittencourt pode ter intercedido para que outras portas se fechassem. E no fundo havia um outro problema. Lima foi além. Não se contentou apenas a atacar o ex-chefe. No rol de personagens caricatos, havia profissionais influentes e cheios de amigos, com amigos em outros jornais. Por exemplo, o escritor João do Rio era descrito como o  “efeminado” Raul Gusmão, uma “mistura de porco e símio, adiantado";  Pacheco Rabelo do jornal fictício, era Gil Vidal, redator-chefe do Correio da manhã; o advogado e futuro jurista Vicente Piragibe, filho de médico da academia imperial e neto de general do exército, era o Leoprace, de ascendência boa mas que não passava de um pobretão sem talento; o paranaense, da família de diplomatas e sacerdotes, Joâo Itiberê da Cunha era o personagem Floc, crítico literário que julgava originais nao pela qualidade, mas pelo sobrenome e ascendência do autor. Ou seja, mesmo que Ricardo Loberant, nem tivesse passado pelas páginas de Isaias Caminha, todos os outros ilustres desafetos influentes estavam ali retratados de forma caricata. Todos tratados como pessoas superficiais, toscas, antiéticas e interesseiras, desejosas de apenas obter benefícios próprios, aproveitando-se dos colegas.  E para piorar, eram facilmente identificáveis numa leitura rápida, à época.

O livro não trouxe nem sucesso, nem o mínimo suficiente para o sustento. Mas dois anos mais tarde publicou o romance Triste Fim de Policarpo Quaresma, nas páginas do Jornal do Commércio, mais uma vez, pagando do próprio bolso pelo espaço da publicação. A obra sairia publicada em livro apenas em 1915. O atraso pode ter sido causado por vários fatores, desde a falta de recursos econômicos, até as próprias bebedeiras que se tornavam cada vez mais constantes. Durante a gestão e revisão da obra, tornaram-se mais agudas as crises de alcoolismo e depressão do escritor.  Esmagado pela tragédia doméstica da infância, pelo peso dos cuidados com o pai enlouquecido, vivendo ao lado de seu quarto, oprimido pela angústia da responsabilidade no suporte financeiro da família, juntava-se a isso o peso do preconceito racial. A birita, a princípio, certamente foi um suporte na convivência alegre da boêmia, e ao mesmo tempo uma fuga dos problemas que o esperavam em casa. Entretanto, as alucinações decorrentes do excesso de álcool, que o levaram ao hospício, certamente não estavam nos planos.  

Independente da bebida, a saúde de Lima Barreto sempre foi frágil. Aos vinte e poucos anos tinha fraqueza generalizada em decorrência de um reumatismo de infância que iria acompanha-lo toda a vida.  Aos 29 anos contraíra pela segunda vez maleita, ou impaludismo, doença contraída por mosquitos, e que ataca os glóbulos vermelhos do sangue gerando febres terçãs fortíssimas. O abuso do álcool, certamente agravara esse quadro clínico de fraqueza. Como também agravaria a sua depressão e a crise de neurastenia, que o levou a ingressar pela primeira vez no Hospital Nacional de Alienados em 1914, local que tinha sido definido por ele como "frio, severo, solene, com pouco movimento nas massas arquiteturais"

E veja bem, estamos no ano de 1914. Escravos tinham liberdade há menos de 26 anos. Mesmo para um escritor com relativa fama, a história pessoal parecia replicar o que as teorias raciais da época prognosticavam. A grosso modo, os defensores da intervenção clinica com reclusão nem sequer se esforçavam em frisar que não se escapava da origem racial, nem dos seus estigmas. As diversas teorias da degeneração social, afirmavam que indivíduos miscigenados carregavam o "vício" das duas raças que os formavam. Daí para se estabelecer uma relação direta entre raça, doença mental e alcoolismo, e que negros e mestiços estavam mais predispostos a ela, era plenamente consensual na teoria médica da época. Nesse sentido, considerar que indivíduos com essas características eram entendidos como intelectualmente inferiores, era uma conclusão nefasta que os eugenistas nem se esforçavam para justificá-la.

Nesse calvário de porres e não-ditos, o pingente Lima Barreto, aos trinta e um anos, já acumulava uma respeitável lista de problemas clínicos.  Com os sintomas da dependência alcoólica, passa a ter problemas cardíacos. Aos trinta e três anos, depressão e neurastenia. Aos trinta e cinco, anemia pronunciada. Aos trinta e sete, quebra a clavícula.  E nessa época tem o primeiro ataque da epilepsia -  que diga-se de passagem era tratada com choque e porrada. Considerado “inválido” para o serviço público, é aposentado, em dezembro de 1918. Em 1919, é internado pela segunda vez no Hospital Nacional de Alienados. A essa altura tinha cinco livros publicados:  Recordações do Escrivão Isaias Caminha, O Triste fim de Policarpo Quaresma, As aventuras do Dr. Bogoloff (publicado como folhetim), Numa e a Ninfa e Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá. Sem dinheiro, sem conseguir lutar contra o vício, e fisicamente aparentando ter vinte anos mais, sua saúde se deteriorava rapidamente. Tido como louco e irascível por alguns, afastou-se de muitos, e muitos se afastaram dele.

Chovia no bairro de Todos os Santos, no dia de todos os santos. Aos 41 anos, consumido pelo parati e pela miséria, com o pai louco no quarto ao lado, ele morreu supostamente de ataque cardíaco, no dia 1 de novembro de 1922, abraçado a uma revista. O velório na sala era interrompido pelo barulho da chuva e, de quando em quando, pelos gritos do pai, que, no quarto ao lado, morreria horas depois. Em volta do caixão de terceira, os irmãos e a gente modesta do subúrbio, que Lima conhecia dos botequins e das ruas enlameadas e tristes.

Ao contrário de Machado de Assis, teve um enterro muito simples acompanhado por gente humilde como ele, os amigos do subúrbio, mulambentos, cheirando a cachaça e com os pés descalços. Quis ser enterrado em Botafogo - que ele detestava e criticara a vida toda. Pouco mais de dez pessoas assistiram a seu sepultamento, entre eles, o piauiense Félix Pacheco, a essa altura já imortal da ABL, o diplomata Olegário e José Mariano - sendo que este pagou as despesas do enterro.

Morreu sem nenhuma repercussão nos jornais. Não deixou viúva. E ao contrário do que falam as más línguas sobre Machado de Assis, Lima Barreto nunca teve filhos. 

 


Dicas de otimismo em tempos de Pandemia



Tem bem uns cinco anos que estou vivendo aqui, na California, e nesse tempo  aprendo e percebo coisas curiosas sobre o otimismo. Esse lugar aqui tem Santa Barbara, Surfistas, tecnologia, freeways rápidas, Santa Mônica, mulheres peitudas, Hollywood, praias lindas, carros intocáveis, artistas pra caramba, mão de obra barata, poucos casos de Corona, enfim... um lugar que tem tudo para dar certo.  Parece que aqui nunca ninguém se separou, nunca faliu, nunca foi racista, nunca perdeu um ente, nunca foi imigrante, nunca viu um amor acabar, nunca pegou num livro na vida, parece que não tem pobre, nem triste, nem cholo, nem doente, nem velho, nem pessimista.  Tenho a vaga impressão de que aqui não existem pessimistas. Ou se existem, dissimulam sua tristeza com um sorriso embrulhado naquele papel fininho do entusiástico e confiante  "good morning". Preciso deixar claro que sou um pessimista no meio de toda essa gente, e preciso deixar mais claro ainda que isso não me incomoda nem um pouco.

Antes de mais nada, no caso de opinião contraria à minha, é importante que você tenha em mente que a despeito do otimismo reinante, que por mais que você queira  se assumir com um ar de forçada felicidade e jovialidade - farsas, alías, facilmente detectáveis - todos , na minha opinião, são intimamente pessimistas. Inclusive voce, seu/sua idiota, com um sorriso no rosto. Sustento meu argumento com a prática dos retóricos em revogar meu próprio argumento: vivemos, sim, num mundo de pessimistas, por que só é otimista quem acredita no otimismo. E eu tenho um faro danado para identificar idiotas crentes, basta dar três olhadas rápidas no fundo de seus olhos.

Acaso, tenho certeza, que como eu, já provaste, mesmo que por instantes, naquele dia em que acordas com o pé esquerdo, suspender toda essa tola cordialidade que rege tuas relações cotidianas com os demais. Ao invés dela, optas por um modo grave e honesto de mau humor no viver. Nem bom dia dás! Eu mesmo, já o fiz várias vezes, e uma vez, por exemplo, quando  levei Lucíola, minha vira-lata, para desonerar seus intestinos nas redondezas da casa, pela manhã, uma vizinha desejou-me 'bom-dia' com aquela pretensa expressão jovial que imediatamente discerni ser a máscara por trás daquela vida suburbana, amarela, vanilla,  meio merda que ela leva, temporária de seus verdadeiros e angustiantes anelos. Ao invés de retribuir-lhe o mesmo 'bom dia' fiz questão de olhar fixamente nos olhos, como se comunicasse a ela que estava a par de seu segredo. Desde então, essa senhora nunca mais tratou-me com os mesmos ares cordiais, mas ao contrário, tem feito o possível para me evitar  e se me encontra num mesmo ambiente, sempre desvia o olhar.

Esse meu experimento sociológico é vocacional. Funciona. Me faz bem. É terapêutico. Fez-me perceber que todos tendem ao mesmo comportamento de medo e defesa, assim que percebo essa última e delirante forma de esperança, fecho a cara e corto logo o mal pela raiz, pois é comum ao gênero humano o não suportar a realidade. Mas nós, os pessimistas, enfrentamos sérios problemas, também.

Certo dia, encontrei-me utilizando meus métodos com um senhor que me parecia bastante distinto, o qual ao perguntar-me 'qual era o meu problema', deu-me o vislumbre de finalmente ter encontrado alguém cuja visão de mundo compartilhasse da mesma amplitude que a minha, e ao redarguir-lhe com a proposta de que 'dissesse o seu problemas antes', esse distinto senhor quis dar-me um soco bem o meio da cara, tamanho era seu desespero interior. Inapto, pelo provável glaucoma, pela limitação da idade, pelo insucesso do seu jab, e desconhecendo minha admiração por Beethoven e Muhamad Ali, frustrado, apenas desferiu-me palavras de baixo calão: Fuck you! O you, no caso, era direcionado a mim.

Em outras ocasiões, ocorreram situações similares. Uma garotinha, aparentemente feliz com seu pirulito de dez cores, enorme, maior que sua cara, brincando com suas boneca nova, num parque, correu aos prantos na direção de sua mãe, tecnicamente considerada uma milf, quando eu lhe disse que açúcar causa diabetes, e que consequentemente a glicose inchará suas pernas e  limitará  sua visão corroborando para outras comorbidades. Por essas e por outras , passei a ser persona non grata aqui na minha quebrada. Vizinhos atravessarem a rua, quando assoma minha figura dobrando a esquina.

O modo como os otimistas estão por toda a parte, sem encontrar uma única exceção entre eles , é algo deveras assombroso, e sendo eu talvez uma das poucas pessoas no mundo a saber com exatidão de tal fato, eu jamais consigo resistir à tentação em desvelar-lhes o segredo de que não há a mínima certeza em nenhum futuro.

E além do mais, ser pessimista é bem melhor, por que a gente sempre fica feliz: quando acerta e até quando erra.

Música do dia . Ludwig van Beethoven '  Grosse Fuge, Op. 133

A solidão de Stockmann




...apagar o passado recente que nos interpela com seu rol de vigarices e preconceitos, é apagar uma série de eventos e fatos inequívocos que tramaram contra a Democracia desde o dia 2 de dezembro de 2015... por isso eu me pergunto:  por que tanta inquietação contra o Presidente Jair Messias Bolsonaro? Por que só agora? Estranho, não... 

...apagar este passado é insistir, como disse Freud, em que todo o esquecimento é intencional... é apagar a intolerância contra a amplidão dos Direitos Humanos... é apagar o conceito Ditadura, da nossa Ditadura, pelas mesmas razões... é apagar convenientemente o conceito de corrupção das chamadas rachadinhas... é não permitir que um Ministro da Justiça nos contamine com seu insistente falso moralismo... e, por falar em moralismo, é conveniente não esquecer de nosso lixo imoral e da impunidade pelo derramamento de óleo na costa, pela diplomacia entreguista, pelos incêndios na terra dos Amazonidas, pelos 35 milhões de analfabetos funcionais, pelas infecções e mortes decorrentes das epidemias de Chikungunya e dengue, pela morte de Marielle Franco, pelas mortes de líderes camponeses e indígenas, pela retórica vazia de Mandetta e Teich, lobistas do mercado da morte na Saúde Pública, pelos 15% de desemprego,  pelas mortes acumuladas decorrentes de assaltos e balas perdidas, pelos massacres em rebeliões de cadeias, pela criminalização do aborto, pelo desmonte sistemático do SUS e a privatização da saúde, pelos 15 milhões de analfabetos, pela soma de todos os bens produzidos não passar de pífio PIB de 1.9%, pelas milícias policiais e digitais, coordenadas pelo gabinete do ódio, que desestabilizam até as forças armadas, pelo messianismo político, pelo dólar a R$ 5,00, pela reforma da previdência, por vermes como Guedes, Damares, Sales e Weintraub, pela crise sanitária, por 48 milhões de cidadão sem esgoto e água tratada, pelo golpismo escrachado no impeachment de Dilma - que alguns chamaram pedagógico -, e last but no least, pela dispensa criminal de isolamento na pandemia de SARS-CoV-2...

...etc. etc. etc...

.. a lista de tudo que já se sabia há tempos, não tem fim...

Elogio da morte





A Morte do Rubem Fonseca, me fez lembrar de Lima Barreto. Não sei bem por que, não me perguntem, tampouco estou com paciência para análises das associações livres de minhas idéias e devaneios. Freud diz que, na prática da análise, na associação livre de idéias do paciente é impossível não dizer a verdade, inclusive quando nos equivocamos ou tentamos mentir deliberadamente. Isso é coisa que gente muita versada no austríaco, descolada e inteligente, chama de recalque do reprimido. 


Em outras palavras, algumas verdades podem ser ditas, assim meio sem querer, principalmente numa semana em que partem para o outro lado do espelho Garcia Roza, Rubem Fonseca, Moraes Moreira, e que Aldir Blanc anda balançando numa corda bamba. A propósito, para um cara raso como eu, o recalque psiquico, essa coisa de expulsar da consciência o que parece intoleravel,  pode bem estar é no valete, no meio das cartas, no jogo de búzios, no risco da pemba, no giro da pomba, no som do atabaque… vai por mim, tá la.


Nota: Se eu pudesse ser um ASPONE[ Assessor de Porra nenhuma] de Deus, eu sugeriria ao Senhor que levasse logo esse tal de Olavo de Carvalho. Vai Oxalá… dá uma força ai… o cara é fumante, só fala merda, e é um cara do mal… vai por mim... o senhor sabe disso…


Mas voltando ao tema, não me parece crível, que nos Compêndios de Literatura Brasileira, coloquem na mesma cumbuca do chamado pré-modernismo Euclides da Cunha que cometeu aquele intragável capítulo A Terra no grandíssimo Os Sertões; Monteiro Lobato, uma espécie de matuto ilustrado com vocação para o lucro e sempre mais político, sempre mais empresário, que escritor;  Augusto dos Anjos, que só por Eu, já o tiraria desse grupo nefasto;  e por fim a tríade Graça Aranha, Raul de Leôni e Simões Lopes Neto  -  que sinceramente nunca li e nunca os lerei por algo que me parece preconceituoso em mim: eu achava que Canaã, seria um livro chato, antes de começar a folheá-lo. Depois tive a certeza de que meu preconceito passou a ser um conceito. Canaã é realmente um treco chato pra cacete! 


Portanto, me fazer tentar crer que Graça Aranha e Simões Lopes Neto possam estar ao lado de Lima Barreto… sinceramente… No cú pardal! Mas nem fodento!


A distância entre o intelectual e a realidade, na escrita do Lima Barreto, assim como na de Rubem Fonseca, está muito acima destes camaradas. Ela é dada por uma espécie de descrença metódica alimentada pelos indicadores da rua. A desconfiança da ação de um cara que transita pelas ruas, como um estranho, trespassado de dúvidas, constatando mazelas, sendo discriminado pelo mercado editorial, no caso de Lima e pela Academia, no caso de Rubem, mostram bem a que vieram os dois no panorama da literatura brasileira: são inclassificáveis pontos fora da curva. 


Dentre as muitas crônicas de Lima Barreto, uma das, talvez não a mais impactante mas muito gráfica, que li há uns 27 anos, seja a Elogio da Morte. Essa crônica é de setembro ou outubro de 1918 (não lembro), portanto 10 anos após a morte de Machado de Assis – e talvez por isso o fechamento dela tal como se dá. Neste mesmo ano, um Lima Barreto de 37 anos, alcoólatra, já com algumas internações, começa uma série de correspondências com o contemporâneo “novo rico”  Monteiro Lobato, que acabara de comprar a Revista do Brasil e que com tremendo faro empresarial se interessava pelo Vida e Morte de M.J.Gonzaga de Sá. Lobato prometera que publicaria mais coisas de Lima. Mentiu safadamente. Lima, iludido, se entusiasmara com a ideia e passou a escrever-lhe com frequência. Fazendo inclusive resenhas de escritores iniciantes, promovendo a editora do H. G Wells de Taubaté. Com o tempo, após a primeira publicação, e uma premiação pela Academia Brasileira de Letras, na qual Lima foi barrado anos antes, Lobato passou a ignorar as cartas deste, que morreria 3 anos depois, alcoólatra, abandonado, esquecido, desvalorizado e claro, amargado pelas putarias da vida e do universo literário.



Elogio da morte



Não sei quem foi que disse que a Vida é feita pela Morte. É a destruição contínua e perene que faz a vida.

A esse respeito, porém, eu quero crer que a Morte mereça maiores encômios.

É ela que faz todas as consolações das nossas desgraças; é dela que nós esperamos a nossa redenção; é ela a quem todos os infelizes pedem socorro e esquecimento.

Gosto da Morte porque ela é o aniquilamento de todos nós; gosto da Morte porque ela nos sagra. Em vida, todos nós só somos conhecidos pela calúnia e maledicência, mas, depois que Ela nos leva, nós somos conhecidos (a repetição é a melhor figura de retórica), pelas nossas boas qualidades.

É inútil estar vivendo, para ser dependente dos outros; é inútil estar vivendo para sofrer os vexames que não merecemos.

A vida não pode ser uma dor, uma humilhação de contínuos e burocratas idiotas; a vida deve ser uma vitória. Quando, porém, não se pode conseguir isso, a Morte é que deve vir em nosso socorro.

A covardia mental e moral do Brasil não permite movimentos. de independência; ela só quer acompanhadores de procissão, que só visam lucros ou salários nós pareceres. Não há, entre nós, campo para as grandes batalhas de espírito e inteligência. Tudo aqui é feito com o dinheiro e os títulos. A agitação de uma idéia não repercute na massa e quando esta sabe que se trata de contrariar uma pessoa poderosa, trata o agitador de louco.

Estou cansado de dizer que os malucos foram os reformadores do mundo.

Le Bon dizia isto a propósito de Maomé, nas suas Civilisation des arabes, com toda a razão; e não há chanceler falsificado e secretária catita que o possa contestar..

São eles os heróis; são eles os reformadores; são eles os iludidos; são eles que trazem as grandes idéias, para melhoria das condições da existência da nossa triste Humanidade.

Nunca foram os homens de bom senso, os honestos burgueses ali da esquina ou das secretárias chics que fizeram as grandes reformas no mundo.

Todas elas têm sido feitas por homens, e, às vezes mesmo mulheres, tidos por doidos.

A divisa deles consiste em não ser panurgianos e seguir a opinião de todos, por isso mesmo podem ver mais longe do que os outros.

Se nós tivéssemos sempre a opinião da maioria, estaríamos ainda no Cro-Magnon e não teríamos saído das cavernas.

O que é preciso, portanto, é que cada qual respeite a opinião .de qualquer, para que desse choque surja o esclarecimento do nosso destino, para própria felicidade da espécie humana.

Entretanto, no Brasil, não se quer isto. Procura-se abafar as opiniões, para só deixar em campo os desejos dos poderosos e prepotentes.

Os órgãos de publicidade por onde se podiam elas revelar, são fechados e não aceitam nada que os possa lesar.

Dessa forma, quem, como eu nasceu pobre e não quer ceder uma linha da sua independência de espírito e inteligência, só tem que fazer elogios à Morte.

Ela é a grande libertadora que não recusa os seus benefícios a quem lhe pede. Ela nos resgata e nos leva à luz de Deus.

Sendo assim, eu a sagro, antes que ela me sagre na minha pobreza, na minha infelicidade, na minha desgraça e na minha honestidade.

Ao vencedor, as batatas!





Os Efeitos Maléficos de Hollywood

Quando adolescente, eu queria ser um desses jovens fora-da-lei. Queria andar por aí com um camarada meio sórdido como o Edward G. Robinson, ou um que que suasse muito, e que fosse conhecedor de todas as malandragens das ruas como o James Cagney. Eu era uma espécie de Antoine Doinel, que gostava de faltar as aulas e andar pela cidade com meus amigos. As vezes pegávamos o trem no subúrbio e íamos até quase a Central do Brasil. Por isso eu inventava meus amigos. Dava-lhes apelidos. Claro que eu guardava o papel do Bogart para mim. Eu era magricela, e apesar de magricela eu era metido a machão e sentimental, como o Bogart. Eu só não tinha aquele mel que ele usava com a Lauren Bacal, mas eu sabia que isso era só um detalhe. Eu pensava que era apenas questão de treino, pois quando eu ficasse mais velho a coisa viria naturalmente. Eu tinha até  um amigo negão, o que não é nada demais. No subúrbio do Rio de Janeiro todo mundo tem pelo menos dois amigos negões. Ele ficava aguentando minhas bebedeiras  até de madrugada. Eu pedia sempre para ele, toca aquela. E em vez de um “As time goes by”, o que sempre saia do violão do Sam era um Chico Buarque. Os porres geralmente eram por conta de alguma atriz que não queria se encaixar no papel que eu criara especialmente para ela. 


Geralmente, eu não era chegado em mulheres do tipo da Ingrid Bergman ou Barbara Stanwick. Muito finas, muito sofisticadas, eu até chegava a cogitar que elas tinham sido feitas mesmo para o Cary Grant – mas obviamente, na época, eu não ficava por aí dizendo essas coisas. Eu nem saberia o que dizer para uma mulher assim. Gostava das barraqueiras, das ciumentas, das possessivas, das mulheres que pudessem ter algum vínculo metafísico com o subúrbio. Tipo... a Elizabeth Taylor em Who’s afraid of Virginia Wolf?, ou o que por tabela seria a  Gene Tierney em Leave Her to Heaven.  Com elas eu treinava meu Humphrey Bogart. Eu as chamava de angel e precious  com um Gauloise no canto da boca – nessa época eu já era professor e entre uma aula e outra, eu fumava quase um maço de Malboro por dia. Elas não entendiam nada e me achavam um cara meio maluco.  


Depois eu acabei mudando de bairro e me juntei com uma turma mais prosaica. Éramos eu, Owen Wilson e o Adrian Brondi. Os tipos gostavam de fazer poesia e fumar uns negócios. Eu não. Eu só lia, passava o dia inteiro lendo, assistindo filmes,  e as vezes escrevendo ficção. A turma em que eles andavam era meio chata. Um bando de garotos e garotas metidos a intelectuais que ficava lendo Ricoeur, Queneau e Holderin, achando o máximo comunicar coisas que ninguém entendia.  Eu estava ali junto com eles, mas no fundo eu os via como num trailer de filme do Billy Wilder.
Numa determinada fase da minha vida, passei por um dilema terrível: houve uma mulher de quem gostei muito, a Anita Ekberg. Era mais velha. Um colosso: aprendi muitas coisas com ela. Mas com o tempo, não apenas a diferença de idade, os peitos também foram pesando. Além do mais,  essa coisa de mulher ficar perguntando umas 180 vezes por semana  se você a ama, começa a aborrecer. No fundo, eu achei que ela ia ser mais feliz sozinha, procurando sua vida, preferia ela como amiga a amante. Enfim, mesmo que as vezes baixasse um espírito de Doris Day nela, eu já estava em outra. Era um amor de pessoa, mas de uma mulher chata é melhor se separar.
Minha primeira grande paixão, paixão de verdade, aconteceu nessa fase da minha vida. E foi traumática. Não era bem uma namorada, pois eu tinha uma namoradinha. Ela era minha amante. Passamos por todas as fases da paixão:  encontros clandestinos pelas tarde, telefonemas afobados, cartas assinadas com um “Eu”.  Quando estávamos juntos eu imitava atores famosos, Karloff, Gary Cooper e o James Stewart. Ela imitava atrizes de filme B fazendo strip-tease.  E cheguei a bater com a cabeça quando vi que tudo estava acabado, mas eu sabia que não havia o que fazer. Eu não era nada, mas na época de jovem imaturo eu ainda acreditei que pudesse bater o Blue Eyes e tomar de assalto o coração daquela indomável Ava Garner. Pura ilusão pois ele devia cantar no ouvidinho dela. O que me magoou de verdade foi a frase que ela soltou nos jornais após uma das muitas brigas com Sinatra: “Éramos fantásticos na cama, mas as brigas começavam a caminho do bidê.” Isso ela disse quando nos separamos!  Depois foi para o New York Times dizer que isso era coisa do Sinatra. Doeu.
O que eu quero dizer é que não é nada bom querer ser o Bogart. O Frank Sinatra quis ardentemente  e se deu mal. Assim como eu a perdi para ele, ele a perdeu para um troureiro espanhol, desses que usam umas calças colantes e ficam rebolando no meio da arena. Esse negócio de querer ser quem não se pode não dá certo. Nunca dá.
Música do dia. Concierto de Aranjuez, Lado A, Faixa 1. Miles Davis. Scketches of Spain. 


A Beleza em sua mais cruel face

Fim de noite. Estou eu em casa à frente da televisão. Uma esponja amarela amiga de uma estúpida estrela do mar e cor de rosa.... Uma arganaz orelhuda criada por Disney... Não consigo me concentrar na leitura do Georges Perec... pois aparecem uns guppys que falam em linguagem articulada... sedutora... uma menina histérica e cabeçuda que ensina as crianças a serem latinas... E vem o os reclames comerciais. O menino, o meu, começa a cantar a música inteirinha para a caçula. Quase me emocionei com a cena, foi quando no fim vi que era um comercial do...





Agora, negue se a Beleza não tem uma face cruel. Aahhh... meu bom e velho Marx... "o caminho do inferno está pavimentado de boas intenções"

O Outro

Quatro meses depois da viagem de Alexis Tocqueville, um outro aristocrata europeu visitou Vanuatu. A 14 de setembro de 1833 um pequeno barco começou uma viagem rio Missouri acima, com o objetivo de coletar amostras de flores e plantas. No barco estavam o pintor suiço Karl Bodmer e o príncipe Maximilian Alexander Philipp zu Wied-Neuwied, além de outros naturalistas alemães. Enquanto e expedição concentrava-se na Fauna, na Flora e nos elemento botânicos, Maximiliano ia além. Anotava em seu pequeno diário os hábitos dos nativos. Antes da expedição em questão já visitara Blackfoot em Fort McKenzie, e anotara que enquanto no Forte, qualquer caravana forasteira que se aproximasse era recebida a tiros de canhões, primeiro, antes de ser identificada, os Blackfoot exibiam faixas coloridas, cavalos pastavam, cachorros circulavam livremente e até mesmo crianças corriam e alegre confusão de boas-vindas. Sintomático...

Curioso  notar que antes de pousar em Vanuatu, Maximiliano, que lutara nas guerras napoleônicas, visitou o Brasil e escreveu o Viagem ao Brasil, um dos livros de viagem mais importantes do século XIX. Os críticos diziam que a qualidade dos desenhos de Frederico Sellow, não se comparavam à do jovem Karl Bodmer, que acompanhou  Maximiliano na viagem a Vanuatu. Afinal, Bodmer, numa era onde não havia ainda a fotografia, retratou os Blackfoot, Crow, Osage e os Sioux em riqueza de detalhes. Os desenhos podem ser vistos no original no Joslyn Art Museum in Omaha, intituição que inclui praticamente toda a coleção de Maximiliano-Bodmer. Pesquisadores dessa instituição traduziram, anotaram e publicaram recentemente os três volumes de seus cadernos de viagem.

Dez anos depois, eu me pergunto, pra quê?

Tocqueville partira, Maximiliano chegara. Ambos permaneceram no pensamento americano com diferentes graus de penetração. Um fala de uma instituição que ainda existe, a Democracia. Outro, fala de uma cultura praticamente extinta. Sintomático? Eu diria somático.

Primeiro por que a associação do universo americano com a natureza e o primitivismo, não passa de balela depois do século XX, pois ao mesmo tempo em que desprezam a identidade com o mundo antigo da história e da cultura, fortalecem valores que nem de longe superam a razão da História.

Dez anos. Dez anos poderia ser objeto de uma pequena efeméride. Dez anos depois de chegar a um país, poderia ser uma ótima ocasião para me reaproximar ainda mais da cultura que me cerca e que de certa forma não posso deixar de admirar com estranhamento, e tirar de uma vez por todas algumas pechas que recaem sobre ela. Poderia. Mas chego a conclusão que a reaproximação não é nada fácil.

Em dez anos, uma das experiências mais traumáticas para mim, aqui, aconteceu na semana passada. Não fui preso (isso nunca aconteceu), não ingressei num E.R. (isso já aconteceu), não fui agredido verbalmente no Metro por ser estrangeiro (isso já aconteceu duas vezes),  não tive visto negado pelas autoridades imigratórias – aliás é sempre confortável ser ignorado por essa intituição – (já tentaram mais de 4 vezes), mantenho minha ficha limpa no IRS e no credit bureau,  não tive a casa queimada tendo que barganhar com seguradoras, não nada de humilhante nesse sentido. E na verdade, o que no princípio parece humilhante pela surpresa do absurdo, depois de dez anos deixa de ser, seja pela desimportância do ocorrido perdido no tempo, seja pela maturidade que supera a irrelevância das pequenas coisas.

No decorrer de dez anos, confesso que sempre tive um certo medo de encontrar aqueles personagens neuróticos e violentos do Cormac McCarthy. E olhe que eu me sentia relativamente a salvo, pois vivo dentro da Beltway. Mas na semana passada, finalmente o encontrei-me numa bizarra situação.

O lugar onde tive a traumática experiência de encontrar um desses seres, foi exatamente no Jardim de Infância onde meu filho de apenas cinco anos estudará: Rosemary Hills Primary School. O “open house” para pais interessados em conhecer as instalações, ocorreu na semana passada. Antes de mais nada, devo dizer que  fiquei impressionado com o guia dado por uma professora e pelo Principal da escola Mister Viggiano. Instalações, espaço, dedicação dos professores, a quantidade de atividades extra-curriculares (aulas de música, idiomas, informática...), a enorme biblioteca, a sala de computadores com um computador para cada criança, um ginásio para atividades esportivas com uma quadra de futebol de salão e duas quadras de basquete, um anfiteatro para pequenas peças...enfim. As salas de aula espaçosas era dotadas de cadeirinhas a meia altura, mesinhas em miniatura, tudo ad hoc para suprir as necessidades da molecada. Comecei a sorrir meio basbaque. Um sorriso sem intenção. Sem causa. Aquelas cadeirinhas, mesinhas, computadores.... confesso, coisas que eu nunca imaginei que existissem para um Kindergarten.

Somente um adendo, mudamos para esse bairro, por que queria que meu filho tivesse acesso a educação pública e de qualidade. E como aqui uma escola atende a alunos de apenas uma determinada região,  essa escola em particular,  atende a crianças de três grande àreas geográficas: a área onde vivemos muito próxima a escola, habitada por funcionários públicos em sua maioria, uma área mais ao norte, onde a concentração de população latina cresce a cada ano, e uma área mais a oeste chamada Chevy Chase, onde se concentra uma classe média de alto poder aquisitivo.

No guia dado pela escola havia quatro casais de pais. Dois casais americanos e dois casais estrangeiros, nos quais, eu e minha digníssima consorte estávamos incluídos. O outro casal estrangeiro hablava espaniol e eu naturalmente parlava o portuguêis. Uma das professoras e o Principal da escola nos acompanhavam na visita guiada, respondendo as nossas dúvidas.

Um dos casais WASP estava vestido com a dignidade peculiar da classe média alta. A esposa, visivelmenente Do Lar, usava perfume bom apesar de vestir calça jeans, e trazia uma pranchetinha com papéis impressos, cheios de perguntas capiciosas para o diretor. O marido, de terno e gravata, fazia menos perguntas estúpidas que sua patroa. De qualquer modo, eu estava diante de um Davos Man de classe média típico, desses que enchem de regozijo o Hudson Institute, e que na certa torce para um time de baseball e de Footbal, que tem no mínimo um College, e que deve ter uma família típicamente unida, composta por sua patroa, dois filhos, e um cachorro, e que deve nos fins de semana, metê-los todos em sua SUV para fazer compras no Cotsco.

Naquelas circunstâncias era difícil um casal não perceber a sutil presença dos outros casais de pais. Difícil não escutar uma conversa furtiva dos consortes, em seus respectivos idiomas. Mas eis que pelas tantas, a mãe dos filhos do pai engravatado pergunta se poderia entrar no ônibus escolar com seu filho, pois tinha medo que o menino sofresse bullying. Pensei automaticamente, o filho desse casal deve ser um otário, mas compreendi a angústia dos pais, pois eu também tenho um filho, e pai é pai. O diretor diz que não é possivel.
O pai, logo em seguida, ainda insistindo no tema sobre o medo da violência, pergunta se o Kindergarten teria horas de recreio separadas – mas ele usa estranhamente a palavra segregate, para significar separate -  do First and Second Grade. O diretor diz que sim, que eles separam as horas de recreio, mas por motivos operacionais já que são oito turmas de Kindergarten e atender a todos ao mesmo tempo seria impossível.

Nesse momento, o Orientador Educacional passa por nós. Um negão simpaticíssimo, calmo, ponderado, um pouco odeso, de fala mansa, se apresenta. O pai engravatado solta um comentário do tipo.... você pode intimidar as crianças, você sabe disso? Eu... confesso... preferi acreditar que o cometário se referia à altura do docente. Mas o problema é que a tal questão sobre a hermenêutica da diferença entre separar e segregar,  não me saía da cabeça. Como um americano nativo, aparentemente de bom nível cultural não saberá diferenciá-las? Ainda mais quando a professora percebeu algo estranho no cometário e remendou a situação enfatizando que realmente o Orientador Educacional era muito grande e que era até engraçado vê-lo levar algum aluno pela mão para a secretaria, pelos corredores da escola.

Fim? Não. Tem mais. A mãe pergunta então se seu filho poderia ficar numa turma onde só houvesse crianças de Chevy Chase – ou seja, de sua mesma classe social, ou nível, ou status, ou casta, ou por aí vai. O diretor disse que aquilo ela absolutamente impossível. Eu achei a gota d’água. E então, o pai faz a pergunta crucial que me tiraria do sério e me revelaria claramente que o ideal culturalista e a própria idéia de humanidade, e a própria humanidade perdera o jogo para a barbárie e não se dera conta.

O personagem de Cormac McCarthy pergunta para o diretor sobre a hipótese de que se seu filho presenciasse o diálogo entre duas crianças estrangeiras, conversando num idioma strange, a professora poderia tirá-lo dessa turma e colocá-lo em outra. Pois é, eu tampouco acreditei no que meus ouvidos acabavam de ouvir. Acho que nem a sub-diretora, pois a resposta dela foi exemplar. Disse ela, sem entar em detalhes,  que a escola já tivera nos anos de 1960, uma história de segragação e que era missão de todos, professores e comunidade, evitar este estigma a todo o custo, para que essa história não se repetisse.

Eu respirei fundo e fiz uma pergunta para a sub-diretora, olhando para o indivíduo -  que creio eu me ignorava. Perguntei, com a  falsa pretensão de quebrar o clima pesado deixado pela pergunta do infeliz,  qual era a meta para uma criança ao terminar o Jardim de Infância. Ela respondeu que a criança deve já ser apta a formar e ler palavras e pequenas frases simples. Ainda olhando para o indivíduo, exagerando uma falsa frustração, assumi um ar calhorda, disse dramatizando meu tom confessional que eu estava fazendo tudo errado  - eu chegava a balançar a cabeça negativamente, como se nunca tivesse ouvido falar no Piaget- com educação de meu filho. "Mas... mas... é que eu lhe ensino todos os dias a escrever 3 palavras, e ele até já forma algumas frases."

Eu exagerei sobre as pequenas frases, confesso. Mas eu disse aquilo para mostrar àquele pústula como se tratam de questões universais e dilemas do ser humano, em níveis e sutilezas que suspeito ele nunca conseguirá alcançar. Talvez, ele nem tenha entendido minha ironia – pois creio eu, me ignorava tanto quanto Tocqueville ignorou a devoção etnográfica a que se dedicou Maximiliano.

Madama Butterfly

A 17 de Fevereiro, no ano de 1904, no teatro La Scala de Milão, era encenada pela primeira vez a Madama Butterfly. Portanto, lá se vão 107 anos. Na época Puccini fora acusado de repetitivo, já que Cio-Cio-San guarda alguns traços com a Mimi de La Bohème. E pelo que tudo indica parece mesmo que era cópia, pois pelo que andei lendo – minha fonte principal para temas de opera é o velho e mal traduzido História das Grande Operas de Ernest Newman - Puccini, ao longo da vida, fez inúmeras modificações no enredo. Dizem até as más línguas, nas interenétis da vida, que a ópera original era ruim mesmo, mas como não vi o dilúvio, quem sou eu para duvidar dos sobreviventes?

Bom, assim como LaBohème, a nossa Madama é uma ópera popular. Mas nem por isso deixa de ser um ótimo entretenimento para terça-feira à noite, pois a obra combina todos os bons elementos que uma ópera deve ter. Exótica, romântica e trágica,  a estória, base do libreto, foi tirada do conto de John Luther Long e narra as desventuras de uma gueixa japonesa, Cio-Cio-San, que casa com o oficial da marinha americana B.F Pinkerton. Casamento estranhíssimo, ou seja, mais estranho que os normais. Neste, o americano faz um acordo esquisitíssimo onde ele se casa com a moça por 999 anos, com o direito a revogar o contrato a cada mês. Casamento, diga-se de passagem, nulo perante a lei americana. O mais absurdo é que ele tem direito a se casar com a menina de 15 anos ao comprar um imóvel perto do porto de Nagasaki, e a jovem vem como ‘brinde’ intermediado pelo agente imobiliário Goro. Desconhecendo boa parte  dos acordos escusos triangulados por Pinkerton, Goro e Sharpless – Cônsul americano na região – e para provar seu amor por Pinkerton, Cio-Cio-San rompe com a família, converte-se ao cristianismo, e passa a desprezar  a tradição japonesa. Pinkerton por sua vez, ainda no primeiro ato, mostra sua natureza calhorda, expulsando a família da consorte, que não aprova o casamento, admitindo para Sharpless que pretende voltar aos Estados Unidos e arranjar uma esposa americana.

Até o fim do primeiro ato,  percebe-se que Cio-Cio-San, sempre acompanhada pela fiel criada Suzuki, terminou o primeiro ato em maus lençóis literalmente. A gueixa, que virara cristã na esperança de agradar o marido, que simplesmente ignorava ou desprezava – a linha é tênue – sua crença no budismo, passa a ser desprezada pela família, e além de abandonada pelo marido, e tem um filho ao longo da ópera. Ou seja, sendo uma ex-gueixa que decide endireitar na vida, mãe-solteira e apóstata, fica difícil acreditar em que a relação pode dar certo, ainda mais pelo fato de que Pinkerton dá provas mais que suficientes, em suas conversas com o Cônsul americano, Sharpless, de sua mais completa cafagestagem.

No segundo ato, já se passara 3 anos desde a partida de Pinkerton. Neste ato é quando Puccini nos dá praticamente a perspectiva da fibra e do caráter da moça. Butterfly tem um filho de 3 anos, fruto da relação com Pinkerton. Ou seja, como já disse,  ex-geixa, apóstata, renegada pela família e posteriormente pelo marido, e ainda mãe-solteira, o futuro da moça parece não ser nada estável. Com crise de consciência, ou almejando talvez mais um bom negócio, Goro e Sharpless  visitam a moça. Goro, trazendo o principe Yamadori, com a esperança de que ela se case com ele e acabe com aquela angústia da espera por algo que pode nunca alcançar. E Sharpless a visita de posse de uma carta de Pinkerton. Tal a emoção da moça ao escutar a leitura da carta, interrompendo-o a todo o momento, que Sharpless não consegue terminar a carta com todos os trágicos detalhes do eventual retorno do amigo marujo a Nagasaki. Remoído pelo remorso, Sharpless interrompe a leitura, sofrendo antecipadamente pelo destino de Cio-Cio-San. Nesse momento a ópera dá uma virada, em termos de enredo e música.  Nesse contexto é que  uma das  mais belas árias de toda a ópera é executada, Un bel dì vedremo, quando ela, canta sua esperança no retorno de Pinkerton.  Aliás entre o segundo e o terceiro ato há também o dueto Sccuoti quella fronda di ciliegio, cantado por Cio-Cio-San e sua empregada e amiga Suzuki, enaquanto decoram a casa com flores de cerejeiras – muito bonito -; sem esquecer do coro de sussurros Coro a bocca chiusa, que vela a noite em claro de Cio-Cio-San ao escutar os canhões do navio de Pinkerton ao entrar na baía de Nagasaki.

Já no terceiro ato, Pinkerton aparece com a sua mulher americana, e leva o seu filho sob custódia para os Estados Unidos enquanto Cio-Cio-San se  desespera. Ana Maria Martínez, empresta sua voz vibrante e dramática a Cio-Cio-San, enquanto o brasileiro Thiago Arancam interpreta Pinkerton. A regência é de Plácido Domingos, e uma outra novidade da Vanuatu National Opera é a inclusão de um outro brasileiro, Ron Daniels, que estréia como diretor da Companhia. Daniel tem uma longa história de montagens no Brasil e na Inglaterra. No Brasil foi um dos fundadores, junto a Jose Celso Martinez Correa, do Teatro Oficina em São Paulo, e porteriormente trabalhou por anos em Londres na Royal Shakespeare Company.

Enfim, noite de terça-feira, nada de melhor pra fazer, duas opções: ligar a televisão no ABC, ou, Madama Butterfly.

O Lugar dos Zé Manés no Mundo do Trabalho

Um dos grandes dilemas do homem que trabalha, que se esforça numa jornada de 8, 9, 10 horas por dia e volta para a casa esperando no fim do mês por um salário que muitas vezes, simplesmente, não dá, não é mais o cerne da questão no mundo do trabalho. Não, não é. O que nos torna reféns do devir, hoje, é o medo de perder o emprego num mundo do trabalho sem ética.
Para Richard Sennett, professor de sociologia da Universidade de Nova Iork e da London School of Economics e autor também do ensaio Carne e Pedra, O Declínio do Homem Público e The Hidden Injuries of Class, estamos imersos numa nova face do capitalismo que afeta o caráter de indivíduos em seus mais sutis detalhes na vida pessoal. E um dos pontos de partida, para que Sennett sustente seu argumento, reside exatamente a falta de condições para que o homem contemporâneo construa uma narrativa linear de sua vida profissional e pessoal, sustentada na experiência - como a daqueles dos anos que o Fordismo vigorava.

A “CORROSÃO DO CARÁTER – conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo,” lido em português, afanado por meu caráter corroído, da casa de minha prima, é trabalho muito bom, dividido em oito didáticos breves capítulos, onde se define a nova idéia de tempo capitalista, e se mostra as dificuldades de se compreender as novas relações de trabalho num mundo onde as referências e a ambição individual – ou a muitas vezes confundida, luta pela sobrevivência - é cada vez mais anti-ética. Além disso, o livro trata dos aspectos mais psicológicos dessa diluição do caráter. Os sentimentos despertos nos indivíduo como o fracasso, o desnorteamento, e a decorrente depressão.

O livro, apesar de ser anterior à bolha imobiliária que afetou Estados Unidos e União Européia de maneira violenta, é muito atual com até um certo ar de saudosismo. O autor começa a exemplificar seu argumento logo nas primeiras páginas com a estória de Enrico, um imigrante que fundou uma família e a sustentou com os esforço – sem querer ser piegas – de seu trabalho e seu suor. Enrico era o típico exemplo de trabalhador fordista. Tinha um emprego rotineiro e repetitivo, baseado no uso disciplinado do tempo. Através de seu salário, sustentava sua família e mesmo sem grandes perspectivas de ascensão profissional – devido à sua condição de imigrante e baixa escolarização – sentia-se à vontade em seu trabalho baixamente qualificado mas relativamente estável, pois contava com uma rede de proteção sindical bastante eficiente. Através desse trabalho Enrico podia contruir uma narrativa composta de estórias cumulativas de vitórias e até mesmo derrotas em sua vida. Já com seu filho, Rico, e com sua nora, a estória é outra. Ambos são profissionais qualificados num ambiente de crise econômica, o que os obriga muitas vezes a term empregos em cidades distintas, obrigando-os a viajar de avião pendularmente. Ou seja, Rico se esforça para não demonstrar nenhum laço ou vestígio com o universo do trabalhado braçal ao qual o pai pertencia. No novo Sonho americano Rico quer fugir da rotina. O grande problema é que esta rotina baseada no tempo linear foi substituída por novas formas de domínio e controle, mas Rico não se dá conta disso. Rico, com um trabalho muito mais intelectualizado que o pai, e educado para ser um trabalhador muito mais competitivo, tem uma rotina de incertezas e mudanças constantes.

Sennett compara, não por acaso, esse dois modelos de trabalhadores. O trabalhador fordista, burocratizado e rotinizado, que planeja sua própria vida familiar e suas metas se baseando em um tempo linear, cumulativo e disciplinado, e que constrói sua própria história e expectativas a partir de uma perspectiva de longo prazo. E o trabalhador flexibilizado do capitalismo das últimas décadas, que muda de endereço freqüentemente, que não estabelece laços duráveis de afinidade com os vizinhos, muda de emprego e de casa constantemente, ou seja, vive uma vida de incertezas e descartável, mas acima de tudo de laços frágeis. O trabalhador flexível não possui laços duráveis nem com sua própria família. Segundo Sennett, a dificuldade de se estabelecer laços duráveis está corrompendo o caráter e como isso acontece é demonstrado ao longo do ensaio.
Neste sentido, Sennett considera que a sociedade se depara com a ponta de um dilema. O problema do antigo trabalho rotineiro com o da reestruturação do tempo implicam em instituições mais flexíveis, criando novas formas de poder e controle. Essas novas formas de flexibilização geram um movimento estrutural de reinvenção institucional, de ruptura do presente com o passado de forma a minar a burocracia aumentando o grau de especialização, num mercado que ocupa apenas temporariamente um nicho de consumidores.

Com isso as formas de controle do RH mudam também. O trabalho em casa, o chamado teleworking, toma o lugar do trabalho no escritório; “o controle face-aface” cede ao controle eletrônico de troca de emails e mensagens diretas. Isso, espelhado num trabalho em equipe, parece dar mais libertade ao trabalhador, ludibriado pela falsa idéia de que a concentração de poder sem centralização dá ao trabalho em equipes, maior controle sob o trabalho que se desenvolve. Grande balela! Sennett afirma que isso é conversa pra boi dormir, pois na verdade quem decide o que fazer e quando, ainda é o capitalista, restando aos trabalhadores apenas o refugo das decisões de como realizar as suas atividades ASAP, ou seja, “rapidinho mermão senão você roda.”

A aparente liberdade dada ao trabalhador através do trabalho em equipe, sem o patrão por perto para vigiá-lo, na verdade colocou o trabalhador ainda mais sob o jugo do capitalista, já que a atomização cada vez maior das suas tarefas fez com que este não se precisasse mais de tanto treinamento. Como conseqüência, deixou de possuir o domínio sobre seu emprego, por isso ele sempre está mudando de área, e como já não possui vínculos fortes com suas tarefas na empresa, muda de função e até mesmo de emprego de manaira mais fácil e rápida.

Toda essa flexibilização aparentemente positiva tem uma outra face que afeta o indivíduo, conceito que sociológicamente poderia ser descrito como o “Zé Mané”. O Zé Mané é esse cidadão que se mata de trabalhar no mundo flexibilizado e que não se dá conta de uma coisa muito grave.... a corrosão de seu prórpio caráter.

Segundo Sennett, o caráter é mais ou menos algo que lembra vagamente, na ética aristotélica, “o valor ético que atribuímos aos nossos próprios desejos e às nossas relações com os outros, ou se preferirmos ... são os traços pessoais a que damos valor em nós mesmos, e pelos quais buscamos que os outros nos valorizem.” Buscar essa coesão de significado é algo que era possível no mundo de Enrico, mas não no de Rico, seu filho. Por que?

Bom, primeiro por que o trabalho flexível leva a um processo de degradação dos antigos profissionais de ofício (o velho trabalho do técnico, do especialista em alguma àrea...), à degradação das metas de longo prazo, à tolerância, e por fim a flexibilização do caráter também. A nova ordem do mundo da produção concentra-se na capacidade imediata, não leva em conta que acumulação da experiência. Daí a preferência do capitalismo pelos mais jovens, como Rico, por serem mais adaptáveis às formas flexíveis de trabalho.
A questão é… até então, na crista da onda, Rico se sentia afetado por isso?
Claaaro que não. Rico não passa de um Zé Mané.

Um Zé Mané de classe média não conseguia ver os riscos desse mundo com o qual corroborou, pois mesmo com seu caráter, cheio de grafite, já mais oxidado que uma canalização de ferro fundido, só via que no jogo capitalista atual todos acreditam ser potenciais vencedores, e sabem que os vencedores fazem parte de um minúsculo grupo, e que portanto não se mexer é condenar-se ao fracasso. Mas tem gente que fracassa e Rico ainda não era um destes.

Ele acrditava que o trabalho em equipe gera um novo tipo de caráter, onde o homem motivado é o homem irônico, que ganha prosélitos nas esferas superiores, e em decorrência de viver em um tempo flexível, sem padrão de autoridade por perto e com responsabilidade voláteis, não consegue se reconectar com a ética e o respeito ao próximo.Mas tampouco isso é algo que o afete tão profundamente. O Zé Mané de Rico estava na crista da onda. O problema é como construir essa nova história de vida sem valores muito sólidos, e em um capitalismo em que as pessoas estão nesse mesmo barco à deriva. A resposta para esse estado de natureza, esse salve-se quem puder, esta na maneira como as pessoas enfrentam o fracasso.

Para Rico, a resposta veio com o sentimento de esvaziamento, frente ao medo de perder o emprego. Até aí tudo bem, pois esse era um medo do seu pai também, e de qualquer outro homem e mulher com ou sem juízo – como eu ou você, meu caro leitor. Mas, em Rico foi mais profundo pois numa dessas fases de desemprego sentiu mais dificuldade em se recolocar no mercado percebendo que perdeu o contato com a moral social e cultural. Caiu na real pois seu pai frequentava um clube de imigrantes onde ele tinha amigos com os quais ele conversava sobre os mesmo temas. Rico, forçado a constantes viagens e a muitas horas de trabalho, não tem vida social. Portanto, percebe que não tem com quem dividir seu drama.

Fracassar é ruim. Lógico. E como diria Alvaro de Campos, “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.” Mas o fracasso é algo que atinge as pessoas e para superá-lo é necessário compartilhar a experiência do fracasso com um grupo ou uma comunidade para que este adquira um senso de coerência coletiva e não passe apenas como uma injustiça sofrida por um indivíduo. Isso o pai de Rico tinha esse senso. Rico, não, mas como é um Zé Mané, ainda estava jovem, na crista da onda, com os filhos relativamente pequenos, só se deu conta do buraco em que estava mais tarde.

O grande mérito de Sennett foi o de aproximar a teoria sociológica do leitor comum. Ele consegue demonstrar como esta corrosão acontece gradativamente utilizando exemplos reais, de operários, prestadores de serviço, e desempregados da IBM, ao optar pela narrativa e não puramente o uso de estatísticas e tabelas. Sennett consegue dar vida as hipóteses de planilha mostrando que as novas relações do novo capitalismo flexível corromperam e corrompem o caráter do ser humano. Mais ainda, ao demonstrar esses exemplos reais de atomização das relações humanas e trabalhistas, Sennett mostra que o homem do novo milênio sofre com a própria construção de sua narrativa de vida e narrativa histórica pois o cabra fica impossibilitado, sem padrão e nem responsabilidade.

Hipóteses como a de um Rico em dois tempos, em duas entrevistas, uma anos atrás e uma recente, Sennett descobriu duas pessoas. Dois Ricos. O primeiro arrogante, sentado ao seu lado num vôo local pelos Estados Unidos. No outro, um Rico mais modesto, workaholic sem tempo para se dedicar à educação dos filhos, sem saber se os filhos estão na escola ou se estão o dia todo zanzando pelos shopping centers ao arbítrio dos perigos que rondam adolescentes num país onde tudo é muito fácil se conseguir, e mais fácil ainda se corroer. O trabalhador flexível não possui laços duráveis nem com sua própria família. Segundo Sennett, a dificuldade de se estabelecer laços duráveis, num universo onde o poder existe mas onde a autoridade é invisível, está corrompendo o caráter. Ou seja, um Rico menos Zé Mané... mas, devido ao seu isolamento, seu caráter completamente enferrujado, chega um pouco atrasado para pegar a tempo seu bonde na História.


A questão mais profunda para um Zé Mané como Rico é... "Que lugar ocupo eu, no Mundo do Trabalho?"



Música do dia. Roda Viva. Chico Buarque.
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Aterro


Ultimos meses, falta de tempo absoluta que impõe ao blog uma espécie de silêncio estagnado. Mas. Fim de Semana em NYC. Casa de amigos. Evidentemente, como o tempo é curto para se ver tudo que se quer, quase nos deixamos levar pela pressa da cidade com seus taxistas em suas ansiedades dos javalis. Mas o que nos salva é que algumas ruas mostram ainda uma paz de roça, onde alguns vizinhos se conhecem, os cachorros fazem seu cocô tranquilos, e quase se pode ouvir um velho ofegante do outro lado da calçada a tossir com seus pulmões cheios de lodo.

No MoMA, um dos meus interesses numa cidade de muitos abismos, ao entrar, não consigo disfarçar minha cara de beduíno pasmado olhando para cima. Por absoluta falta de tempo, ainda não visitara o museu desde sua reforma. A arquitetura é magnífica, moderna, imponente, quadriculada, ampla, luminosa, um espetáculo por si só a ser adulado. Detalhe importante. Esse amigo tem um providencial membership do museu, o que nos permite entrar sem pagar e entrar sem filas. Me senti mais feliz que jogador de futebol em camarote do Sambódromo.

Por motivos de força maior, fui obrigado a voltar 3 vezes na exibição de Tim Burton. Eu ainda avisei pro cidadão que ele ia sonhar com aquelas porcarias, mas ele quis por que quis assistir aquele espetáculo de monstros psicodélicos. Conclusão, com quase cinco anos, tremendo homem feito, diz que sonhou com o monstro da boca grande e fez xixi na cama.

Infelizmente, por motivos de meltdown relacionados mais uma vez ao Burton, não consegui assitir com a atenção que eu queria a exibição de Picasso. Picasso: Themes and Variations. Eram mais de cem trabalhos entre xilos, carvão, aquarela que já estiveram parcialmente numa exibição da Aliança Francesa do Rio - no século passado. No MoMA havia alguns visíveis estudos das suas fases azul e rosa. Um deles, como nesse aqui abaixo, vê-se o acrobata, um dos personagens do quadro da Família de Saltimbacos da coleção da National Gallery of Art, e que no quadro aparece sem uma perna. Outras litogravuras lembram muito outros quadros famosos de Picasso, como uma série de estudos, onde o traço lembra muito o clássico Guernica, presente no Reina Sofia. Enfim, o que esperar de uma tarde de sábado num dos museus mais frequentados do mundo. O universo só podia conspirar, num museu abarrotado de gente falando alto e ciscando mais que galinhas em trovoada.

Para concluir, o que mais me espantou na imensa instalação da inflacionada artista Marina Abramovic´ -  uma artista que está por meses sentada por horas do dia a fio em sua instalação sem se mover para nada - não foi o conceito de que entreouvi um casal, desses  inteligentespracaramba, mas sim o tamanho de seu nariz. Uma coisa impressionante que me faz a cada dia implicar mais e mais não com pessoas de narinas grandes, mas  com essa idéia de arte-instalação -  a arte dos pulhas.

Já com comichão nas pálpebras cansadas, demos uma parada na Pasticceria Bruno perto do Village, numa padaria bonita, dessas de gente bacana, que vende tudo quanto é doce colorido -  e que tem aquela gente que dá aquelas risadinha elegantes e faz pose enquanto o café esfria -  mas que no fim das contas, não vende pão na chapa.

Música do dia. Feeling Good - Nina Simone, again.

Snowmageddon

Num dia assim. Como diria Lênin, Que fazer? Logicamente, assistir Tristan und Isolde: umas quatro horas garantidas...e olha que eu só assiti até o fim do segundo ato, quando Melot, melhor amigo de Tristão, lhe desfere - presumo que por questões paralelas - umas espadadas mortais no bucho quando o vê abraçado a Isolda . [amanhã:  terceiro ato]


A traveler, by the faithful hond,
Half-buried in the snow was found.
H. G. Longfellow

Peace

Não pretendo contestar a opinião da Academia. Acredito na separação entre o Estado e a Igreja. Acredito na civilização e no Ocidente, pois sinceramente, prefiro viver no Ocidente e por que foi nele que aprendi as parcas e contraditórias noções Iluministas. Mas a filha do Will Smith – que pela cara, não entendia nada do que o discursante falava - dormia enquanto, a certa altura, a Princesa Magdalena apertou a mão do consorte, e assoou o nariz. Não sabiamos que estava chorando.




A patuléia, evidentemente, a malta aplaudiu quando foi dito, “we lose ourselves when we compromise the very ideals that we fight to defend,” mas eu vi com os olhos que a terra há de comer a hesitação do Secretário da Academia, que engolia em seco e mostrava com olhos relutantes a besteria que fizeram ao nomear o puérpere Nobel da Paz. Os pormenores lhe escaparam e ele se deu conta tarde demais pois a pessoa que recebeu o Nobel desse ano, ainda que tenha evocado a Liga das Nações, a Convenção de Genebra e a Cruz Vermelha, fez um discurso duro e usou a palavra Diplomacia apenas uma vez. Preferiu desviar das razões do Just War para enfatizar uma tal de  Just Peace. Por quê? Simples. O discurso da justificação moral da guerra não foi um discurso  para o mundo e sim o de um presidente  que, pressionado pela direita feroz,  já dá sinais de fraqueza perante seu povo. Ora, caso contrário, não justificaria a violência com a retórica do princípio da auto-defesa, que serve, nas atuais circunstâncias, aos que já estão armados. E bem armados no sentido lockeano.  Just War  para mim tem o odor similar do caldo requentado do Preemptive strike.




O Secretário e a Comissão julgadora da Academia não sabiam disso? Logicamente que sabiam. E é bem verdade que o Nobel da Paz, ou seja, a pessoa agraciada com o Prêmio Nobel da Paz,  chegou ao poder não com a promessa de acabar com a Guerra, é bem verdade.  Mas, com a vaga promessa de tornar o mundo mais justo perante o mundo sem regras criado por seu antecessor. Entretanto,  não o fez.....




Foi lúcido, entretanto, ele, inopinado, ter evocado Kant ao dizer que há duas verdades irreconciliáveis em sua ação política para a Guerra: A Necessidade da Guerra x A Guerra como Expressão da Decadência Humana. A diferenciação serviu para ilustrar a angústia e o peso de decisões difíceis. Sua decisão de enviar mais tropas para o Afeganistão. Uma decisão que no fim das contas não apaga as evidências contidas nos fatos.


Evidências: Passou um ano. A retórica bondosa e evangelista continua. Não há um acordo mínimo para a violência entre Israel e as autoridades palestinas. A América Latina continua sendo nada para governos Democratas – vide Honduras. O Afeganistão agoniza com a chegada, hoje, de mais 7 mil soldados da OTAN - 30 mil no total. Guantanamo não fechou, e se fechar só muda de CEP,  pois os suspeitos de terrorismo continuarão presos sem a protecção da lei e à margem dos tribunais. Ou seja, tudo do mesmo.





Por fim, entre enganos e arrependimentos, o discurso agradará certemente aos cientistas politicos, com a frase: “The non-violence practiced by men like Gandhi and King may not have been practical or possible in every circumstance, but the love that they preached – their faith in human progressmust always be the North Star that guides us on our journey. O discurso também agradou a plebe presente que aplaudia entusiasmada, fez tremer as princezinhas e dormir os bois e as crianças. Mas não havia nada de ingenuidade, pois mirando em Clausewitz, acertou em cheio no bom senso.  Fidel pode não estar totalmente enganado....pois afinal  não foi Cesar quem proclamou a Paz através da Vitória?