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MARIO CESARINY

 

 


Título Mario Cesariny
Dimensões: 9x9cm
Data: Setembro de 2021

Técnica: Xilogravura

O pintor e poeta Mário Cesariny de Vasconcelos era um lisboeta nato, Nasceu em Vila Edith, em Benfica, a 9 de agosto de 1923. Filho caçula, tinha três irmãs mais velhas. O pai, um empresário e ourives, tinha uma joalheria na Rua da Palma, na baixa lisboeta.

O pai, aliás, era um homem de personalidade dominadora, de uma brutalidade tão exacerbada que chegava a bater na mãe.  Como todo o bom patriarca escroto, via no filho homem o herdeiro e continuador de seu legado. Não pensou duas vezes em mandar o jovem frequentar o Liceu Gil Vicente, para complementar os estudos secundários. Ao fim de um ano, com o intuito de dar continuidade ao negócio da família, o mudou-o para um curso de cinzelagem na Escola de Artes Decorativas Antônio Arroio. É nesta escola, a propósito, que conhece o também pintor Artur do Cruzeiro Seixas - com quem se relacionaria por longos anos.  Sabe-se também que estudou piano, e que apesar do grande talento, foi proibido pelo pai de continuar seus estudos de música. Aos 19 anos pintava e desenhava quando entrou no primeiro ano de Arquitetura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, e posteriormente na Escola António Arroio, onde conhece alguns dos futuros companheiros de arte.

Nesse período, o jovem frequenta os cafés de Lisboa, trava contato com a arte e a boemia, e descobre o grupo dos neo-realistas, pelos quais verdadeiramente não se interessa.   

Em 1947 Cesariny ganha uma bolsa de estudos e viaja para Paris, onde frequenta a Académie de la Grande Chaumiére. Nesse momento ele tem um encontro inusitado com o dadaísta Benjamin Péret e André Breton. Breton já com 51 anos, e recém chegado dos anos do exílio de Vichy, dos Estados Unidos. Nestes anos pós-guerra, Breton se imbuíra do firme propósito de animar os surrealistas na França e ao redor do mundo, incentivando exposições e posteriormente participando da revista La Brèche. Esse é o tipo de um encontro que realmente revolucionaria a vida de qualquer um. De regresso a Lisboa, Cesariny, sem dúvida, já é um outro homem. Como poeta, encarou o surrealismo, mergulhando de cabeça na quebra da forma e do automatismo psíquico das formas e das letras.  

Neste mesmo ano, passa a integrar o Grupo Surrealista de Lisboa, do qual faziam parte Alexandre O´Neill, Marcelino Vespeira, António Pedro, Cândido Costa Pinto, João Moniz Pereira. Como todo o bom grupo surrealista, as divergências não tardaram a acontecer, e dois anos depois Cesariny já faz parte de uma dissidência chamada “Os Surrealistas”, com Pedro Oom, Cruzeiro Seixas, António Maria Lisboa, entre outros. E redigem um manifesto coletivo” A Afixação Proibida”. Antônio Pedro, tinha ficado do lado de lá, com o projeto de reeditar a revista Variante. A partir daí os da Afixação Proibida promovem a primeira exposição surrealista de Portugal, que faria parte mais tarde dos anais, que o próprio escreveria sobre a História do Surrealismo português.

No tocante a vida pessoal, no fim da década de 1940, seu pai, arruma outra mulher, abandona a família e se muda para o Brasil. Isto faz com que Mário se aproxime mais de sua mãe e da sua irmã Henriette.

A década de 1950 é quando propriamente Cesariny se dedica à pintura e à poesia, e passa a colaborar com a Revista Pirâmide. Nesse período também, assume seu homossexualismo mais abertamente, o que o leva a ter sérios problemas com a Polícia Judiciária, e a ser vigiado de perto pela constante “suspeita de vagabundagem”. São anos duros politicamente. O regime salazarista não dava trégua a dissidentes, fossem eles comunistas, ou homossexuais. Dez anos antes, o poeta Antônio Botto, já com 45 anos, tivera de deixar o país às pressas, sem dinheiro, rumo ao Brasil, pois tinha sido demitido de sua função pública. Sem dúvida, um duro golpe no dândi, que inclusive precisou da ajuda de amigos, como Amália Rodrigues, que organizara um show de arrecadação de fundos para sua “fuga”.

Como pintor, nestes mesmos anos 1950, Cesariny incorporou imagens do inconsciente com justaposição de objetos desenhados em viscosidades quase orgânica. Seus trabalhos fazem uma espécie de inventário do mundo alastrando tintas, vernizes e colas à esmo, fundindo pigmentos, expressões de fundo neutro com a incisão de grafismo primitivos, abstratos e figurativos. Sua poesia, à propósito, funde-se nessa ambiguidade e reveste essa pintura dando sentido de liberdade.

Em toda a palavra que escreve, em todo o traço que pinta há um forte sentido de experimentação. Vemos isso no seu percurso pictórico: nas pinturas, nas colagens, nas “soprografias”, nas técnicas de sopro de tinta e, nas “sismografias”. Mesmo nos Exquisite corpse, técnica que promoveu e que consiste na produção de uma obra em cadeia criativa, realizada por 3 ou 4 artistas, em tempo real, há esse sentido de interatividade e iconoclastia.

Da mesma forma que é difícil o esforço de determinar-lhe uma categoria - art brut, arte incomum, arte surreal - é difícil exclui-lo da Modernidade. Ele rompeu completamente com o figurativo, e começou a praticar o que ele chamou de despintura, o que se desdobrou em seus poemas como uma forma de desregramento, demembramento da linguagem.

Nos anos 1960, depois das primeiras exposições, Cesariny recebe uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian  para escrever um livro sobre Maria Helena Vieira da Silva e ruma para a Inglaterra, onde esteve por volta de sete anos, com vindas esporádicas a Portugal. Além de pintura, ganhava algo com as traduções de Rimbaud, Artaud, Michaux e outros autores malditos, para o português de Portugal. Outra parte do dinheiro para as viagens já vinha de bolsas e da venda de seus quadros e da intermediação por venda de quadros de outros artistas, como ocorreu com um de Maria Helena Vieira da Silva, dado a ele por Manuel Cargaleiro.

Teve uma vida cheia de amizades, desafetos e prêmios. Ganhou o Prémio Vida Literária, da Associação Portuguesa de Escritores, e o Grande Prémio EDP de Artes Plásticas. Ainda nos anos 1980,sua obra poética de é reeditada pelo editor Manuel Monteiro, dono da tradicional editora Assírio&Alvim, podendo ser redescoberta por uma nova geração de leitores.

E doou parte de suas obras de arte para a Fundação Cupertino de Miranda, em Vila Nova de Famalicão, e em testamento, deixou um milhão de Euros para a Casa Pia. Certa vez, perguntado sobre se pensava na morte? Respondeu: “Não muito. Penso na doença”. Acredita na imortalidade? “Não sei. Quando eu chegar, lá telefono [risos].”

 

Mário Cesariny faleceu a 26 de novembro de 2006 aos 83 anos de idade, com um câncer na próstata que já o vinha consumindo há alguns anos. O artista que deixou 19 livros publicados e inúmeras pinturas, foi sepultado no Talhão dos Artistas do Cemitério dos Prazeres.