Caminhos e Fronteiras




Caminhos e fronteiras é um livro de 1957 e nele Sérgio Buarque de Holanda inova ao propor uma nova análise sobre a ocupação do Brasil, distinta daquela apresentada no livro Raizes do Brasil, publicado 21 anos antes. No trabalho de 1936, Sergio Buarque argumentava que a forma de ocupação do Brasil respeitava a uma lógica de imobilidade, de estática, sem maiores desígnios de penetração no território brasileiro. A conformidade de tal prática teve consequências. O enraizamento da mentalidade ibérica, pouco curiosa e ávida a reproduzir relações sociais baseadas nas tradições de origem, sedimentado no litoral brasileiro, serviu em algumas regiões, como a do Nordeste açucareiro, para adaptar uma rotina nobiliárquica transportada das terras portuguesas para a colônia.

Enquanto em Raizes, há um forte componente de domínio e estabilidade no sentido do homem impor ao meio sua vontade, no Caminhos e fronteiras, Sergio Buarque realiza uma história do cotidiano das expedições bandeirantes na região das Monções. Sua câmara clara registra uma sociedade onde a imagem do bandeirante, movediço, instável e caprichoso, é moldada pelo meio e infuenciada pelos costumes indígenas – de por exemplo adaptar hábitos alimentícios com o consumo de raízes, frutas, animais, e até mesmo caminhas pelas sendas descalço. A certa condescendência de Sergio Buarque com o bandeirante chega a ponto de criar um paradigma, de certa forma modernista, que seria o da exposição de uma aculturação não do indígena, mas sim do português que moldaria seus hábitos a partir do contato cotidiano com o ambiente inóspito. Tal contato, naturalmente, fez com que o português renunciasse ao estilo de vida anterior, litorâneo, e por meio de se impor as condições essenciais de sobrevivência lançaria-se à floresta com o intuito de caçar índios, adquirir riqueza rápida e de certa forma romper as fronteiras impostas pela cultura lusitana, sem se dar conta das perdas dos valores proprios.

O aculturamento as avessas do português pelo indio, evitado a todo o custo ser encarado por Sergio Buarque como negligente ou violento por parte dos primeiros, é um dos temas recorrentes no livro ao comprovar a importância do indígena na formação cultural brasileira. As evidências para seu argmento estariam no uso dos vocábulos para denominar nomes de lugares e coisas, além das técnicas agrícolas primitivas – mais eficientes para a prática das expedições constantes.

O livro deixa muitas lacunas, mais perguntas que respostas, como Sergio Buarque, sendo grande estilista, primava por fazer. Se lido com os olhos da curiosidade literária reserva horas de extremo entretenimento ao leitor. Se lido com olhos de um cientista social, deixa um certo sabor salgado de sangue na alma.

Detalhe do 'Mape-monde : planisphere ou carte generale du monde'. Sec. XVIII
Charles Inselin, geografo e gravador parisiense.
Musica do dia: Confrontio. Lalo Schifrin. Album magnum Force


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