Whatever Works


Dizer que este é o filme mais auto-biográfico de Woody Allen, pode ser um exagero. Desde a década de 1960, o homem já dirigiu e escreveu mais de 40 filmes. Impossível que em cada um deles não tivesse deixado sua marca. Este último é meio decepcionante, mas o problema é que quando penso no “infeliz que deu certo” - como definiu-o brilhantemente Millor Fernandes - tenho sempre em mente Annie Hall, Manhattan e Zelig.


O enredo é bastante simples. Boris Yellnikoff, representado pelo excelente comediante Larry David, é um homem solitário e misantropo que por pura casualidade começa um romance com uma jovem do sul chamada Melodie – interepretada por Evan Rachael Wood. Boris é, segundo ele próprio, um gênio incompreendido que quase ganhou o Nobel em Física. Em sua arrogância, Boris compra-se pelo que vale e vende-se pelo que pensa que vale. O problema é que vive no prejuizo. Além disso, Boris é hipocondríaco e sofre que crises de pânico no meio da noite. Numa dessas crises tentou se suicidar se atirando de uma janela, por isso claudica. A partir do encontro de Boris e Melodie, a vida do cientista não se trasnforma nem para melhor nem para pior, mas há uma reação em cadeia, quase física ao redor dele. Melodie, que chega a se casar com Boris, encontra um outro homem. A mãe, Marieatta, conservadora e evangélica, que chega para resgatar a filha, acaba virando uma fotógrafa famosa e vivendo com dois amantes. O pai, tão evangélico como a mãe descobre que é gay, arruma um chapa e vai abrir um brechó no Chelsea. Quase previsível. Tudo morno.

Mas, lógico há cenas engraçadas. Uma pessoa mal-humarada tem sempre algo de caricato: Boris dando aulas de xadrez para crianças é algo impagável; tentando explicar coisas para uma Melodie, burrinha como uma porta; a sogra em franco bombardeio contra o casamento – mesmo depois de ter se “liberado geral” para os amigos de Boris.
No entanto, as tiradas de Allen, ditas por Larry David, tornam-se artificiais pois nem Larry David é ator, nem o que Allen escreve lhe cai bem – eu tenho uma teori de que os papéis se encaixam nos atores e não os atores escolhem os papeis. Para quem não sabe, Larry David criou uma das melhores série americanas dos últimos tempos – não, não falo de Sienfield, série da qual nem gostei tanto, falo de Curb your Enthusiasm. Na série representava um personagem chamado Larry David, um homem que se mete numa série de situações embaraçosas criadas por ele próprio. Ou seja, interpreta ele mesmo em frases curtissimas. O que um dia ja me fascinou pela verborragia de Woody Allen, parece agora que não passa de piadas requentadas e com jeito de que já vi em algum lugar, além de ser interpretada por um ator especialistas em sketches. Alias, diga-se de passagem o papel tinha sido desenhado para Zero Mostel.

É exagero dizer que é um filme auto-biográfico por dois motivos. Primeiro, a diferença de idade entre Boris e Melodie não é explorada em nenhum momento, apenas no fim da relação quando ela o troca por um valete de sotaque britânico ou australiano. Segundo, por que, com a chegada de Marietta a estória deixa de enfocar Boris, para falar dos amigos, da ex-sogra...enfim, de tudo, menos de Boris, ou de Allen, como queiram...
Em whatever works, quase nada deu certo nem o esquema de mockumentary.  Por isso ainda fico com Annie Hall, Manhattan, Hanna e suas irmãs e Zelig.