ROBERT APARECE NOVAMENTE
Bem, Robert, aqui está você novamente, falando comigo no Café de Flore, em Paris. Faz tempo que não te vejo. Tenho várias versões daquele soneto que escrevi depois da tua morte, mas nunca consegui acertar. Eu te amo, Robert, ainda te amo cara. Você era um homem interessante e o primeiro amigo com quem realmente briguei. Estou ligeiramente chapado com meio rebite que eu achei no bolso deste velho terno, deve ter uns vinte anos, e que tomei agora com um copo de suco de laranja. Isso não poderia funcionar depois de todos esses anos, mas aqui estamos nós, conversando de novo. Ainda bem que você não me conta como é aí onde você está, porque não tenho interesse na vida após a morte. Você está um pouco irritado como sempre, como se acabasse de ter saído de algo imensamente chato. Aqui estamos nós, falando sobre o péssimo acordo que negociamos entre nós. O que você está dizendo? Por que está sorrindo? Cara, ainda estou trabalhando muito, ralando demais, Robert. Parece que não consigo terminar nada e estou bem enrolado. O entusiasmo está diminuindo, ou o ânimo, e não consigo te contar nada engraçado sobre o meu problema, mas você sabe o que eu quero dizer. De todos os meus amigos, você é o que sabe o que eu quero dizer. Bem, até mais, Robert, e vá se foder você também. Essa tua condição de desencarnado te dá muitos privilégios, mas pelo menos você poderia ter pedido desculpas, antes de desaparecer novamente sabe-se lá por quanto tempo.
Leonard Cohen. Book of Longing. 2006

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