Kazuo Ishiguro: Cisma de coisas arrumadas.


Música e literatura se encontram indissoluvelmente juntas em Nocturnes, uma coleção de cinco grandes contos de Kazuo Ishiguro. A música na literatura se faz presente em clássicos como em Las Ménades e em El Perseguidor de Cortázar, onde pode-se ouvir claramente Stravinsky e Charlie Parker; ou em muitas estórias de Machado de Assis, que sem certo desdém trata o maxixe e a polca como uma mesmice que nos atropela, mostrando-nos diante do espelho uma imagem senão incômoda, ao menos aflitiva. Se para este é manobra interna de desvio, para outros como Haruki Murakami, Cortázar, Borges e o próprio Ishiguro, a música faz parte do próprio enredo de suas estórias.
Em After Dark, por exemplo, uma das últimas novelas ‘cult’ do ‘cult’ Haruki Murakami, a música perpassa toda a estória, não apenas como um acessório, mas como um condicionante de Mari, uma jovem que ao perder o último trem de Tóquio, tem de passar a noite no bairro boêmio. Sem grande pretensões, Mari pensa em passar a noite num restaurane chamado Denny’s tomando café e lendo seu livro. Ao redor da meia-noite, um músico chamado Takahashi, a quem Mari vira apenas uma vez, quando Takahashi tentara cantar sua irmã Eri, modelo profissional. Esta, enquanto a irmã vaga pelas noite de Tóquio, encontra-se dormindo em seu apartamento. Dentro do sono, estranhos sonhos. Takahashi vai ensaiar com seu grupo, mas promete voltar ao restaurante. Em sua ausência muitas coisas inusitadas acontecem. Kaoru, uma amiga de Takahashi e gerente de um hotel de viração, aparece subitamente pedindo a Mari – quem fala mandarim – que vá com ela até o hotel para traduzir o diálogo com uma prostituta chinesa, vítima de violência de gênero.

Os ambientes e situações que Mari percorre são acompanhados pelo leitor como quem assite um filme, ou como quem está imediatamente atrás de uma câmera onipresente. Além disso, para cada ambiente há uma trilha sonora que quase antecipa o estado anímico da cena que será narrada.

A mesma intervenção melodiosa aparece em diversas circunstâncias nos contos de Ishiguro que, ao contrário do anódino desfecho da citada novela de Murakami, procura na anormalidade e na falta de solução atos definidos. Ishiguro consegue galvanizar em cinco contos, com uma linguagem até um tanto tímida, sem grandes inovações experimentais, temas que exigem do leitor atenção: a promessa da juventude que se perde; o mistério assombroso e decepcionante da alteridade; e os finais ambíguos e sem catarse alguma. Desde o primeiro até o último conto há sempre um sutil jogo de repetições com uma espécie de triângulo, mesmo no último conto onde há apenas dois personagens, um jovem violoncelista e Eloise McCormack, uma misteriosa tutora, mas a sombra do antigo tutor Petrovic, e de Peter, noivo de Eloise, pairam sobre suas cabeças.

Tudo é muito arrumadinho nos contos de Ishiguro. Nota-se que Ishiguro, ou a persona que Ishiguro usa para narrar estas cinco estórias é um tanto conservadora. Bem se percebe que os personagens são sempre pessoas cultas, envolvidas no universo musical, clássico ou popular. Sem alusão a temas conflitivos, o narrador ou até mesmo os protagonistas desprendem a todo o momento uma aborrecida sensação de sinceridade.

Música do dia: 'Five Spot After Dark'  - Curtis Fuller's Quintet - From the album 'Blues-Ette' recorded in 1959. Curtis Fuller, trombone; Benny Golson, tenor sax; Tommy Flanagan, piano; Jimmy Garrison, bass.

Caro Francis

“Caro Francis” é um documentário sobre o jornalista Franz Paulo Trannin Heilborn, mais conhecido como Paulo Francis. Se você pensa em encontrar, nesse documentário, respostas para a explicação sobre o sucesso de Paulo Francis, esqueça. O documentário feito por Nelson Hoineff, o mesmo do famoso Documento Especial na antiga TV Manchete, tenta desvelar ainda mais o lado polêmico de Francis, tanto quanto tenta reforçar a veia transgressora do jornalista que um dia escreveu isso.

A imagem do Francis já velho no Manhattan Connection era uma caricatura gasta do personagem que ele próprio criou para si. Já em meados dos anos 90, Francis passava a imagem de um homem inteligente, arrogante e botocudamente grosseiro. Mas se você pensa que foi sempre assim, esta redondamente certo. O documentário mostra bem, em termos próprios como desde as suas polêmicas críticas teatrais e insultos a Paulo Autran e Tônia Carreiro, até a sua saida do Pasquim, Francis já alimentava essa imagem pública de polemista nem sempre elegante mas incrivelmente engraçado. E um dos seus grandes méritos foi exatamente o de se tornar um fenômeno de comunicação, tanto na palavras escrita como na palavra falada e televisionada, transplantando de um meio para o outro suas características críticas e méritos intelectuais, sempre com uma boa dose bufa.

Se no ambiente público era esse tipo discutível, no ambiente privado, entre amigos, não havia ressalvas. Todos tinham sempre um causo interessantissimo e nunca repetido para contar sobre Francis. Jaguar, se não me engano, certa vez disse que detestava discutir com Francis pois ele sempre escolhia como cenário um taxi sem destino fixo, o que o levava - a Jaguar - sempre a se desconcentrar do bate-boca e desesperar-se com o taxímentro. Lucas Mendes, no documentário, dizendo que certa vez Francis termina um texto, levanta o papel da máquina de escrever com virulência e se vangloria: “nenhum advérbio de modo!” Ou o ataque ao amigo Fausto Wolff, dizendo que um dia escreveria um livro sobre todas as suas ignorâncias. Ou seja, uma figura impagável e divertidíssima. Ou seja, melhorando essa frase, uma figura impagável, por ser cara; incomprável por só trazer problemas; e invendável pois a partir dos anos 90 seu tipo de jornalismo pitoresco, impressionista e irresponsável – criado prêt-à-porter para a televisão - passou a ser um problema para as redações e uma impossibilidade para os canais de TV aberta. Prova disso é que hoje em dia, figuras como Reynaldo Azevedo e Diogo Mainardi transcencem ao espaço das colunas escritas apenas para o universo dos blogues onde encontram o feedback apenas de prosélitos.

O sinal desses tempos que vivemos hoje, é bem mostrado no final do documentários, com a saída de Francis da Folha de São Paulo, sua ida para o Manhattan Connection e sua polêmica com o antigo presidente da Petrobrás Joel Rennó, quando numa edição do programa Manhattan connection, Francis afirmou que os diretores da empresa tinham dinheiro na Suíça, formando “a maior quadrilha que já existiu no Brasil”. Uma absoluta inverdade comparado com os padrões de tamanho, organização e eficiência dos esquemas de corrupção atuais. Mas merecidamente ou não, nesse caso específico, foi processado por tratar uma das empresar mais fortes do Estado brasileiro, bem como a seus gestores, como quem sempre se habituou a tratar a esqueda. E não se deu bem.
O documentário conta ainda com uma irrelevante surreal carta lida pela viúva, sobre a morte de sua gata de estimação, e uma “bombástica” acusação de negligência médica no caso de seu infarte, tratado como bursite ou algo que o valha por insignificante que fosse. Felizmente a viúva trata logo de desmentir o terrível e melancólico fechamento-Conrad Murray-Michael Jackson que Diogo Mainardi calhordamente tenta, com a beneplácito de edição do diretor, imprimir no final. Isso tudo ao som de Wagner.

Música do dia. A Pipa do Vovô não sobe mais. Marchinha de Carnaval.

Ferocidade como entretenimento


A cada vez que assisto um desses filmes coreanos me sinto um tanto constrangido. Perdi muito tempo assistindo a filmes americanos. Essa é a verdade. The Chaser, primeiro longa-metragem Na Hong-jin, é mais um dos grandes filmes da lavra coreana.

Neste  país a polícia é mal paga, corrupta e violenta. Não, não, as semelhanças são apenas uma ilusão, pois estou falando da Coréia do Sul. Num ambiente onde campeia a violência e a corrupção, Joong-ho, o protagonista, tira partido. Para seus ex-companheiros de farda ele é um homem de moral duvidosa. Ex-detetive que virou cafetão por problemas financeiros, começa a se irritar com o despareceimento de suas “funcionárias”. Ao tentar rastrear o paradeiro das moças, descobre que todas as meninas tinham sido contratadas sequencialmente por um único cliente, e que tinham sido assassinadas. Ele então forja um plano para pegar o assassino.  Joong-ho consegue capturar o assassino e entregá-lo à polícia. Mesmo confessando os crimes, como não há corpos, não há provas materiais contra o assassino, que dessa forma estará em liberdade em 24 horas. Por algum motivo que o roteiro deixa passar, Jung-ho acredita que uma de suas prostitutas ainda está viva. E aí sim começa a caçada, não do culpado mas dos corpos que devem ser encontrados em menos de 24 horas.

Essa corrida contra o tempo dá o tom do excelente filme, até o momento da inversão do plot. O prazo se esgota. A polícia, pressionada pelo governador, num momento de intensa pressão pelos métodos brutais empregados, precisa liberar Yeong-min. A procuradoria sugere que um suspeito que confessa sobre tortura pouco melhor a imagem da polícia. Para evitar o escândalo político, o governador decide pela liberação do suposto assassino. Enquanto isso, é pedida a prisão de Joong-ho como o bode expiatório de toda a crise. Apesar de algemando, o ex-policial escapa para procurar Mi-jin, uma de suas meninas que suspeita ainda estar viva.

A intuição de Joong-ho é correta. Mi-jin de fato ainda está viva, tentando se libertar das cordas que a amarram em meio aos corpos das outras 11 mulheres assassinadas, escondidas na casa do assassino. Gravemente ferida porém lúcida, Mi-jin escapa e pede auxílio numa loja das redondezas. Tenta telefonar. Enquanto isso o assassino, já liberado, prestes a chegar a casa, decide comprar cigarros exatamente na lojinha das redondezas... Joong-ho chega tarde demais.

O plot se inverte novamente. Joong-ho passa a tentar encontrar novamente o assassino. Desesperado com a morte do que tudo indica ser mais que sua ‘funcionária’, o ex-policial sente-se derrotado. Vai até a igreja local e percebe que a imagem do Cristo crucificado na fachada, era parecida às imagens que viu por trás do papel de parece do quarto onde Yeong-min esteve hospedado. Consultando o diácono, descobre que o assistente da obre da igreja estaa hosedado na casa de um de seus sectos. Joong-ho segue para lá. Quando chega decide não tocar a campainha, mas usar um molho de chaves que retirara do bolso de Yeong-min. Quando entra, depara-se com Yeong-min.

É bastante certeiro que numa sociedade onde campeia a crueza da violência física e sangrenta, a questão da corrupção e do funcionamento do dinheiro sujeita os comportamentos e os sentimentos à sua força mortiz. Neste fimle especificamente, descontados o sangue derramando e a brutalidade nos meios de liquidação dos personagens, o protagonista põe em cena toda a sociedade. Apesar de alguns pequenos furos de roteiro, o filme mostra com certa ferocidade um certo espetáculo de entretenimento onde a noção e o sentido do absurdo se tornam cada vez mais lugar-comum.

Blanche Ebelin-Koning faleceu na quinta-feira. Trabalhei com ela por três anos na Oliveira Lima Library e sempre a admirei, não apenas por sua personalidade forte, mas por sua ironia fina. Catalogadora de livros raros e tradutora, era capaz de ler 7 línguas, incluindo o latim. Nos últimos anos andava a trabalhar numa criteriosa tradução do holandês para o inglês de um  livro do historiador e poeta humanista Gaspar Barlaeus.

Barlaeus se propôs a narrar os feitos do conde Maurício de Nassau na obra Rerum per octennium in Brasilia (História dos feitos recentemente praticados durante oito anos no Brasil).  As ilustrações do livro são um espetáculo à parte que poucos no mundo tiveram o privilégio de presenciar, até por que deve haver no máximo 5 copias coloridas no mundo - eu conheço 3, incluindo a da Fundação Biblioteca Nacional. Trata-se de 340 páginas e 56 ilustrações, entre elas o retrato de Nassau por Theodor Matham (1605-1660), mapas de George Marcgraf (1610-1644) e gravuras de Frans Post (1612-1680) retratando a paisagem pernambucana, o cotidiano dos escravos, dos engenhos, dos portos e do comércio.

A edição em português, foi organizada em 1940 por Cláudio Brandão e concordo quando Blanche a criticava. É absolutamente ilegível e displicente. Em contrapartida, em sua tradução - sou testemunha -  ela preocupava-se em encontrar  forma perfeita para o que melhor definisse os nomes de frutas, tipos de armas descritas, os monstros narrados, os nomes dos rios, os nomes dos tubérculos definidos pelos índios, as etnias indígenas, as embarcações, os equipamentos e nós náuticos. Enfim, um trabalho absolutamente impressionante que por vezes me parecia interminável principalmente por sua  incansável busca da expressão que melhor traduzisse do holandês - seu idioma nativo - para o inglês - sua língua de uso -  com minúcia e destreza as expressões holandesas do século XVII.

Traduzir o texto de um erudito como Barlaeus não é tarefa das mais fáceis. Além de historiador e poeta, Barlaeus foi um teólogo defensor da causa arminianiana, doutrina pela qual os seres humanos são incapazes de fazer qualquer esforço para salvação e que nenhuma obra do esforço humano pode causar ou contribuir para a salvação.

Enfim, em meio a luta para terminar a tradução, na última quinta-feira, Blanche nos deixou. Diagnosticada com um problema numa das válvulas do coração, os médicos lhe deram um ano de vida caso não se operasse. Operou-se e não resistiu. Parece retórico, mas assim com Barleaus ela era uma Humanista plena. Deixou registrado que não queria enterro nem cerimoniais póstumos. Não sei o que fez com a sua pequena casa em Greenbelt. Não sei se acreditava na salvação da carne, na remissão dos pecados, na vida eterna e em todas essas inúmeras bobagens. Provavelmente não, pois doou em vida seu corpo para estudos científicos.

No último ano acompanhei a sua luta, pari passu a sua gradual fragilidade física - para terminar a tradução que tanto a atormentava - certa vez, nuum de nosso almoços confessou que sonhava com pernambuco colonial. Nos últimos anos, andava perdendo muito peso o que lhe acentuava a fragilidade, mas eu não desconfiava dos sempre silenciosos e traiçoeiros problemas cardíacos. Almoçávamos quase todas as semanas pois ela vinha a Library para terminar as inúmeras revisões. Viúva de um economista que trabalhara na ONU, ela nunca tivera filhos. Em fevereiro último estive com ela quase três dias no hospital, pois ela teve um sério problema gástrico... e desde março não tinha notícias dela. Engraçado... semana passada pensei em telefonar, mas a inútil correira do dia-a-dia E recebi a notícia ontem com um choque.
Acompanhei sua luta para terminar esta tradução, tentando conseguir finaciamento e cartas de recomendação com scholars que tinham idade para serem filhos dela, da Library of Congress, para pagar pelas imagens que a biblitoteca detentora da obra somente liberaria mediante pecúlio... e que a editora se recusava a publicar integralmente por tornar a edição do livro muito cara... Blanche literalmente lutou até o fim por este livro. O mais irônico de toda a luta... entregou ao editor a última revisão de sua tradução de Barlaeus duas semanas antes da operação e não chegou a vê-la publicada...

El viaje vertical

El viaje vertical é um livro de Enrique Vila-Matas que fala com boa dose de humor e uma certa dose de absurdo dos dilemas da terceira idade... vamos dizer assim...




Mayol é um homem dos que se pode dizer já ter conquistado muita coisa na vida. Empresário, catalão, nacionalista moderado, dono de uma agência de seguros, bem estabelecido, com filho criados, netos, esposa, alguns bons amigos do poker... enfim, um tipo que se poderia dizer de-bem-com-a-vida.

Tudo vai bem, até o dia em que a mulher, Júlia, o expulsa de casa poucos dias depois de celebrarem as Bodas de Ouro. Motivo: prosaico: a mulher não o aguenta mais. A notícia é dada assim do nada com a esposa na cozinha descascando as ervilhas para o almoço. Começa então um momento crucial da existência do protagonista Federico Mayol. Mayol descobre que a vida não é nada do que imaginava. Tenta se aconselhar com os filhos. Um dos filhos, o que admnistra a agência de seguros, anda em crise existencial no casamento, sem tempo ou paciência, e por razões óbvias não pode consolar o pai. A relação conflituosa com o outro filho, o artista da família, é um capítulo à parte.

Aturdido, Mayol vai ao único lugar onde um homem sem respostas deve sempre ir. Vai ao bar encontrar com os amigos que não necessariamente são os mais sensíveis, não necessariamente são os mais hábeis, não necessariamente, são os mais competentes mas assim como os analistas sempre podem nos mostrar novas, ainda que inúteis, perspectivas. Um dos amigos o aconselha a uma viagem. Uma viagem a um lugar desconhecido, inóspito, inusitado. Mayol vaga pelas ruas da velha Barcelona sem saber bem para onde ir ou o que fazer. Então, entre uma taça e outra de vinho Oporto, decide.

Mas antes de dar o passo decisivo, tenta se aconselhar com os filhos. Um dos filhos, o que admnistra a agência de seguros, anda em crise existencial no casamento e por razões óbvias não pode consolar o pai. A relação conflituosa com o outro filho, o artista da família, é um capítulo à parte e algo que nos leva a boas gargalhadas. O filho é pintor. Sente desprezo pela falta de cultura do pai, que com dinheiro e tempo poderia ter polido os espírito, lido mais. O pai, igulamente, sente desprezo pelas alma nefelibata e descentrada do filho. As cenas e os diálogos entre os dois são algo impagável. A certa altura o filho diz: “Mira, papá. Tú y yo somos igualitos. Sentido de humor, inteligencia, imaginación. Como dice un amigo mío, sólo nos diferenciamos en la cultura. Yo tengo, tú no mucha.” E mais adiante: “Pues que por mucho que te duela, yo tengo cierta genialidad. Y tu eres un simple merluzo.” Há ainda uma outra cena impagável em que Mayol aparece encharcado de chuva na casa do filho e ele lhe dá uma capa de chuva. Absorto por um quadro que não consegue conceber, assim que vê o pai com a tal capa diz-lhe que ele se parece a Kim Novak!

Risadas garantidas à parte, Mayol compra uma passagem para  Oporto. O avião sairia em três dias, tempo suficiente para arrumar as malas, despedir-se dos filhos e pensar na nova identidade que passaria a assumir, pois decidira que junto à decisão de se tornar um novo homem numa terra estranha, decidira mudar!


Dentre outras situações inusitadas, antes de embarca num avião com destino a Oporto, descobre que no mesmo vôo está a seleção nacional portuguesa de hoquei sobre patins que acaba de perder um jogo decisivo contra a seleção da Espanha. Todos de cabeça cheia e Mayol, tentando agora em vão fazer novos amigos.

Sem dúvida, o constante diálogo entre Mayol, um homem arrogante mas de vida simples, com os “intelectuais” que o cercam mostra que, mais que o próprio sentido da viagem, este é o ponto alto deste livro. Sua viagem de auto-descoberta, cheia de pequenas loucuras, absurdos, encontros impossíveis e desencontros factíveis, e até mesmo avisos do destino nada tem de espiritual e em nada se assemelha a uma descoberta de grandes revelações. Ao contrário, a cada novo encontro o protagonista sente-se mais inculto. Seu próprio sentido de humor o faz ver a cultura é uma sucessão de improvisos – vide o exemplo do próprio filho – que geram o êxito. Ou seja, me parece que para o protagonista de Vila-Matas não existem as regras, nem a disciplina, nem o método.

Western Crepuscular ou Tráiganme la cabeza de Alfredo García

"El Jefe" é milionário e “fazendeiro”. Mejicano e cheio de capangas mejicanos. Certo dia, descobre que sua filha Teresa está grávida. PQP, pra que?  Ora veja você, o cidadão em vez de ficar feliz por ser avô de primeiro neto, fica furioso. Primeiro, por que a criança vai nascer sem pai, segundo por que a menina era virgem – veja bem, estamos falando de caras mexicanos, ano de 1974, com outro diapasão que não o seu de século XXI. El Jefe, então, aplica uns safanões na menina para saber quem seria o pai da criança. Entre uma bordoada e outra a moça acaba revelando que o pai é o tal do Alfredo Garcia, justamente o homem que El Jefe tinha preparado para ser seu sucessor – ai você pensaria… ahh, tá explicado, Freud explica. Você leitor, é um tremendo babaca, não entende nada de roteiro de Peckinpah, nem do que é a porra da vida.

Para lavar a honra tanto da filha como de sua película apassivadora, contrata dois pistoleiros maus e internacionais, que na verdade encontram-se na outra margem do Rio Grande, e oferece 1 milhão de dólares para quem trouxer a cabeça do tal Alfredo Garcia.

Dois pistoleiros chegam a um bar do baixo meretrício mejicano en Ciudad de Méjico, onde encontram o pianista Bennie, e um ex militar americano que vendo a pinta dos pistoleiros se faz de desentendido. Eles, os bandoleiros transviados que eram o bambas lá da zona, oferecem um bom tutu pela informação do paradeiro de Alfredo Garcia, mas queriam como prova a cabeça de Garcia. O pianista já andava meio na bronca com Garcia pela folga com a cantora Elita, seu trelêlê oficial,  e fica de dar a resposta aos bandidos. Bennie vai atrás de Garcia e se certifica que ele estivera com Elita. Mas a cantora lhe diz que Garcia foi embora para sua cidade no interior do México, onde sofreu um acidente de carro e morreu. 

Mas é claro (!) que Bennie não acredita nessa estorinha fiada de Elita.  E no melhor estilo brasileiro compra um terçado e parte com Elita rumo à cidade onde Garcia foi enterrado, para conseguir a prova da morte de Garcia, ou seja, literalmente a cabeça de Alfredo Garcia. 

Mas como isso tudo é uma estória de western pop crepuscular pensada na cabeça de Peckinpah, o mais gótico dos diretores do gênero, os assassinos não confiam em Bennie e sem ele saber o seguem até a um vilarejo no interior do Méjico, onde então ocorrerá a emboscada e a pendenga pendejada semi-final. Afinal, pensa comigo. Por que eles vão pagar ao cara, se podem embolsar a grana e ainda matar o infeliz do Bennie, não é mesmo. Isso é Óbvio.

O filme foi um dos mais baratos do Peckinpah, e justiça seja feita, fez milagres. Fico pensado se o Peckinpah tivesse metade da grana e dos amigos do Tarantino...

Com orçamento enxugadíssimo e um roteiro barato, não deu outra, Bennie encontra a sepultura de Alfredo Garcia e ao tentar desenterrá-lo é atacado pelas costas. Quando desperta, está enterrado. Com muito esforço consegue se desenterrar, mas constada que sua amante, Elita, enterrada ao seu lado está morta.  Bennie ao ver a sepultura de Garcia aberta, constata que o corpo não tinha a cabeça, levada enquanto esteve desacordado e então passa a desconfiar que se os dois assassinos de aluguel o seguiram até aquele fim de mundo, e levaram a cabeça de Alfredo Garcia, por que a cabeça do morto vale muito mais na mão dos sicários que na dele. 

Enfim, depois tremenda troca de tiros, ele recupera a cabeça de Garcia e a coloca num saco com gelo e dirige com a cabeça no banco do lado. 

O monólogo de Bennie com a cabeça morta de Alfredo Garcia é uma cena surreal, mas fantástica. Talvez o ponto alto do filme seja esse diálogo/monólogo e convívio  de Bennie com a cabeça decepada. 

O filme tem várias reviravoltas. Os matadores Sappensly e Quill acabam fazendo uma emboscada, quando Bennie vai devolver a cabeça à família de Alfredo Garcia. Quill mata toda a familia de Garcia, mas é morto por Bennie. Sappensly, desolado como um matador olhando para seu parceiro morto, diz que não pagará Bennie, e também toma um caroço na cabeça. 

E nesse meio tempo, Bennie continua conversando com a cabeça. Chega ao hotel, lava-a e pretende levá-la ao Jefe, com o pretexto de receber os US$ 10K.  Em meio a mais tiros, Bennie finalmente consegue o endereço do  eL Jefe. 

Consegue chegar justo no dia do batizado do rebento. O Jefe estava até feliz. Bennie se apresenta, entrega a cabeça e relata quantas pessoas morreram por aquela cabeça. Quando o Jefe diz para ele pegar seu dinheiro, jogar a cabeça para os porcos, e ir embora, ele lembra que Elita se incluía naquele monte de mortes em vão, e aí é possível ver como o semblante de Warren Oates muda ao constatar que tudo aquilo tinha sido em vão. 

Aí meu amigo... acho que não era nem mais o Beniie que estava ali, e sim o Oates, vaqueiro do Kentucky, amigo do Steve McQueen.  Foi tiro pra todo lado. Bennie, enfurecido,  mata um monte de capanga do Jefe. 

A mocinha entra com o filho no colo e pede que mate seu pai. Ele pega a cabeça e vai em direção a porteira da fazenda levando o Jefe, junto a Teresa. 

Chegando na porteira, ele se vira pra Teresa e diz assim mesmo do jeito que eu estou te falando: “Agora, você cuida da tua criança, que do teu pai cuido eu…”  UAU ! podia terminar ai né! Mas não…. Isso é um filme de Sam Peckinpah.

Como nesses de mafiosos, traficantes, milicianos, tem sempre capangas pra caramba, surgiu mais um monte do nada e rasgaram Bennie com rajadas de metralhadoras. 

Nota. Sam Peckinpah já foi partícula apassivadora em tiranicídia contenda entre meu concunhado e eu. Enquanto eu dizia que o cinema americano não era autoral. Ou seja, para mim não tinha uma linha de cineastas americanos que faziam filmes classificáveis, pelo toque de Midas da linha autoral. O concunhado dizia que havia Peckinpah: "brutalidade mimética, estética da violência e ódio fiduciário". Dito assim, de maneira tão bonita, pode até ser isso mesmo.






Música do dia. El Justiciero. Mutantes.

František Vláčil

O AFI exibe em todo o mês de abril e maio uma série de filmes do cineasta tchevo František Vláčil chamada  Poetry of the Past: The Visionary Films of František Vláčil. The Devil´s Trap é o segundo filme de uma trilogia que conta ainda com Marketa Lazarova e O Vale das Abelhas, ambos de 1967. The Devil´s Trap, particularmente,  se passa na região da Boemia no século XVI, ou seja em pleno contexto da inquisição, e nele há o componente do peso da religião, do conflito ideológico e a revolta individual.
Logo na abertura uma série de dissonantes acordes cappella, e uma imagem que pode chocar puritanos e pessoas devotas fraquinhas. Uma imagem retorcida de Cristo, à frnte de uma paisagem árida e em segundo plano uma  minúscula figura humana caminhando num deserto à distância. A mensagem é clara: a religião impondo-se sobre o homem, e a qualquer um ai que desafia o status quo.
A estória propriamente dita começa quando o governante local Valecský de Valce, tipicamente caracterizado como fanfarrão glutão, ordena que um terreno seja escavado para a construção de um celeiro, na tentativa de evitar os efeitos da seca do ano anterior. O ferreiro Spálený, com conhecimentos da terra muito mais amplos que que os do governante, e até com certo ar previdente,  acha que o local indicado para as fundações é inadequado e sua divergência com as autoridades começa a levantar suspeitas de que ele e seus antepassados tinham um pacto com o diabo. Os rumores vinham desde seus avós, quando os suecos, numa tentativa de invadir a aldeia, queimaram a casa, mas a família escapara ilesa. O “milagre” condenara-os e as divergências entre o governante local e o ferreiro se tornam públicas quando Spálený separa uma briga entre seu filho e um dos guardas do administrador – que tenta seduzir a futura nora de Spálený. Spálený afastando a contenda, contraria o governante que tem sua diversão interrompida.
Uma figura tão interessante como repentina é a do padre Prokus que chega sem anunciar como um representante da inquisição. Não fica claro se ele foi chamado e chegou por acaso, mas a sua presença favorece os interesses corruptos do governante local que visa construir o celeiro, e evidentemente neutralizar as críticas do ferreiro Spálený. O padre é muito mais cuidadoso com a imagem de Spálený que o governante. Contornando cuidadosamente as indulgências, sabe que em última instância a Igreja pode tirar algum proveito dos talentos previdentes do ferreiro. Para a cidade, em seus sermões, evita o confronto, e nos bastidores investiga sem cessar os supostos poderes do homem.
Todo o filme tem um sentido bastante alegórico. Há uma série de imagens aparentemente desconexas que acabam fazendo sentido no decorrer da estória. O trigo cortado por trabalhadores com foices e um corte imediato para uma cena onde um jarro de água cai enquanto Filip, filho de Spálený, está num momento íntimo com Martina. Noutra cena, pilhas de velas acumuladas ajudam a iluminar o trabalho noturno de Spálený. Os amantes repetidamente separados, primeiro por uma parede de pedra grossa, e depois pela própria terra, como Martina percorre os campos enquanto o rapaz percorre um labirinto de cavernas e reservatórios subterrâneos em busca de seu pai. Ou seja, vários objetos, planos e sequências  possuem  significado simbólico que enfatizam uma certa incursão no realismo mágico.

A Beleza em sua mais cruel face

Fim de noite. Estou eu em casa à frente da televisão. Uma esponja amarela amiga de uma estúpida estrela do mar e cor de rosa.... Uma arganaz orelhuda criada por Disney... Não consigo me concentrar na leitura do Georges Perec... pois aparecem uns guppys que falam em linguagem articulada... sedutora... uma menina histérica e cabeçuda que ensina as crianças a serem latinas... E vem o os reclames comerciais. O menino, o meu, começa a cantar a música inteirinha para a caçula. Quase me emocionei com a cena, foi quando no fim vi que era um comercial do...





Agora, negue se a Beleza não tem uma face cruel. Aahhh... meu bom e velho Marx... "o caminho do inferno está pavimentado de boas intenções"

O Outro

Quatro meses depois da viagem de Alexis Tocqueville, um outro aristocrata europeu visitou Vanuatu. A 14 de setembro de 1833 um pequeno barco começou uma viagem rio Missouri acima, com o objetivo de coletar amostras de flores e plantas. No barco estavam o pintor suiço Karl Bodmer e o príncipe Maximilian Alexander Philipp zu Wied-Neuwied, além de outros naturalistas alemães. Enquanto e expedição concentrava-se na Fauna, na Flora e nos elemento botânicos, Maximiliano ia além. Anotava em seu pequeno diário os hábitos dos nativos. Antes da expedição em questão já visitara Blackfoot em Fort McKenzie, e anotara que enquanto no Forte, qualquer caravana forasteira que se aproximasse era recebida a tiros de canhões, primeiro, antes de ser identificada, os Blackfoot exibiam faixas coloridas, cavalos pastavam, cachorros circulavam livremente e até mesmo crianças corriam e alegre confusão de boas-vindas. Sintomático...

Curioso  notar que antes de pousar em Vanuatu, Maximiliano, que lutara nas guerras napoleônicas, visitou o Brasil e escreveu o Viagem ao Brasil, um dos livros de viagem mais importantes do século XIX. Os críticos diziam que a qualidade dos desenhos de Frederico Sellow, não se comparavam à do jovem Karl Bodmer, que acompanhou  Maximiliano na viagem a Vanuatu. Afinal, Bodmer, numa era onde não havia ainda a fotografia, retratou os Blackfoot, Crow, Osage e os Sioux em riqueza de detalhes. Os desenhos podem ser vistos no original no Joslyn Art Museum in Omaha, intituição que inclui praticamente toda a coleção de Maximiliano-Bodmer. Pesquisadores dessa instituição traduziram, anotaram e publicaram recentemente os três volumes de seus cadernos de viagem.

Dez anos depois, eu me pergunto, pra quê?

Tocqueville partira, Maximiliano chegara. Ambos permaneceram no pensamento americano com diferentes graus de penetração. Um fala de uma instituição que ainda existe, a Democracia. Outro, fala de uma cultura praticamente extinta. Sintomático? Eu diria somático.

Primeiro por que a associação do universo americano com a natureza e o primitivismo, não passa de balela depois do século XX, pois ao mesmo tempo em que desprezam a identidade com o mundo antigo da história e da cultura, fortalecem valores que nem de longe superam a razão da História.

Dez anos. Dez anos poderia ser objeto de uma pequena efeméride. Dez anos depois de chegar a um país, poderia ser uma ótima ocasião para me reaproximar ainda mais da cultura que me cerca e que de certa forma não posso deixar de admirar com estranhamento, e tirar de uma vez por todas algumas pechas que recaem sobre ela. Poderia. Mas chego a conclusão que a reaproximação não é nada fácil.

Em dez anos, uma das experiências mais traumáticas para mim, aqui, aconteceu na semana passada. Não fui preso (isso nunca aconteceu), não ingressei num E.R. (isso já aconteceu), não fui agredido verbalmente no Metro por ser estrangeiro (isso já aconteceu duas vezes),  não tive visto negado pelas autoridades imigratórias – aliás é sempre confortável ser ignorado por essa intituição – (já tentaram mais de 4 vezes), mantenho minha ficha limpa no IRS e no credit bureau,  não tive a casa queimada tendo que barganhar com seguradoras, não nada de humilhante nesse sentido. E na verdade, o que no princípio parece humilhante pela surpresa do absurdo, depois de dez anos deixa de ser, seja pela desimportância do ocorrido perdido no tempo, seja pela maturidade que supera a irrelevância das pequenas coisas.

No decorrer de dez anos, confesso que sempre tive um certo medo de encontrar aqueles personagens neuróticos e violentos do Cormac McCarthy. E olhe que eu me sentia relativamente a salvo, pois vivo dentro da Beltway. Mas na semana passada, finalmente o encontrei-me numa bizarra situação.

O lugar onde tive a traumática experiência de encontrar um desses seres, foi exatamente no Jardim de Infância onde meu filho de apenas cinco anos estudará: Rosemary Hills Primary School. O “open house” para pais interessados em conhecer as instalações, ocorreu na semana passada. Antes de mais nada, devo dizer que  fiquei impressionado com o guia dado por uma professora e pelo Principal da escola Mister Viggiano. Instalações, espaço, dedicação dos professores, a quantidade de atividades extra-curriculares (aulas de música, idiomas, informática...), a enorme biblioteca, a sala de computadores com um computador para cada criança, um ginásio para atividades esportivas com uma quadra de futebol de salão e duas quadras de basquete, um anfiteatro para pequenas peças...enfim. As salas de aula espaçosas era dotadas de cadeirinhas a meia altura, mesinhas em miniatura, tudo ad hoc para suprir as necessidades da molecada. Comecei a sorrir meio basbaque. Um sorriso sem intenção. Sem causa. Aquelas cadeirinhas, mesinhas, computadores.... confesso, coisas que eu nunca imaginei que existissem para um Kindergarten.

Somente um adendo, mudamos para esse bairro, por que queria que meu filho tivesse acesso a educação pública e de qualidade. E como aqui uma escola atende a alunos de apenas uma determinada região,  essa escola em particular,  atende a crianças de três grande àreas geográficas: a área onde vivemos muito próxima a escola, habitada por funcionários públicos em sua maioria, uma área mais ao norte, onde a concentração de população latina cresce a cada ano, e uma área mais a oeste chamada Chevy Chase, onde se concentra uma classe média de alto poder aquisitivo.

No guia dado pela escola havia quatro casais de pais. Dois casais americanos e dois casais estrangeiros, nos quais, eu e minha digníssima consorte estávamos incluídos. O outro casal estrangeiro hablava espaniol e eu naturalmente parlava o portuguêis. Uma das professoras e o Principal da escola nos acompanhavam na visita guiada, respondendo as nossas dúvidas.

Um dos casais WASP estava vestido com a dignidade peculiar da classe média alta. A esposa, visivelmenente Do Lar, usava perfume bom apesar de vestir calça jeans, e trazia uma pranchetinha com papéis impressos, cheios de perguntas capiciosas para o diretor. O marido, de terno e gravata, fazia menos perguntas estúpidas que sua patroa. De qualquer modo, eu estava diante de um Davos Man de classe média típico, desses que enchem de regozijo o Hudson Institute, e que na certa torce para um time de baseball e de Footbal, que tem no mínimo um College, e que deve ter uma família típicamente unida, composta por sua patroa, dois filhos, e um cachorro, e que deve nos fins de semana, metê-los todos em sua SUV para fazer compras no Cotsco.

Naquelas circunstâncias era difícil um casal não perceber a sutil presença dos outros casais de pais. Difícil não escutar uma conversa furtiva dos consortes, em seus respectivos idiomas. Mas eis que pelas tantas, a mãe dos filhos do pai engravatado pergunta se poderia entrar no ônibus escolar com seu filho, pois tinha medo que o menino sofresse bullying. Pensei automaticamente, o filho desse casal deve ser um otário, mas compreendi a angústia dos pais, pois eu também tenho um filho, e pai é pai. O diretor diz que não é possivel.
O pai, logo em seguida, ainda insistindo no tema sobre o medo da violência, pergunta se o Kindergarten teria horas de recreio separadas – mas ele usa estranhamente a palavra segregate, para significar separate -  do First and Second Grade. O diretor diz que sim, que eles separam as horas de recreio, mas por motivos operacionais já que são oito turmas de Kindergarten e atender a todos ao mesmo tempo seria impossível.

Nesse momento, o Orientador Educacional passa por nós. Um negão simpaticíssimo, calmo, ponderado, um pouco odeso, de fala mansa, se apresenta. O pai engravatado solta um comentário do tipo.... você pode intimidar as crianças, você sabe disso? Eu... confesso... preferi acreditar que o cometário se referia à altura do docente. Mas o problema é que a tal questão sobre a hermenêutica da diferença entre separar e segregar,  não me saía da cabeça. Como um americano nativo, aparentemente de bom nível cultural não saberá diferenciá-las? Ainda mais quando a professora percebeu algo estranho no cometário e remendou a situação enfatizando que realmente o Orientador Educacional era muito grande e que era até engraçado vê-lo levar algum aluno pela mão para a secretaria, pelos corredores da escola.

Fim? Não. Tem mais. A mãe pergunta então se seu filho poderia ficar numa turma onde só houvesse crianças de Chevy Chase – ou seja, de sua mesma classe social, ou nível, ou status, ou casta, ou por aí vai. O diretor disse que aquilo ela absolutamente impossível. Eu achei a gota d’água. E então, o pai faz a pergunta crucial que me tiraria do sério e me revelaria claramente que o ideal culturalista e a própria idéia de humanidade, e a própria humanidade perdera o jogo para a barbárie e não se dera conta.

O personagem de Cormac McCarthy pergunta para o diretor sobre a hipótese de que se seu filho presenciasse o diálogo entre duas crianças estrangeiras, conversando num idioma strange, a professora poderia tirá-lo dessa turma e colocá-lo em outra. Pois é, eu tampouco acreditei no que meus ouvidos acabavam de ouvir. Acho que nem a sub-diretora, pois a resposta dela foi exemplar. Disse ela, sem entar em detalhes,  que a escola já tivera nos anos de 1960, uma história de segragação e que era missão de todos, professores e comunidade, evitar este estigma a todo o custo, para que essa história não se repetisse.

Eu respirei fundo e fiz uma pergunta para a sub-diretora, olhando para o indivíduo -  que creio eu me ignorava. Perguntei, com a  falsa pretensão de quebrar o clima pesado deixado pela pergunta do infeliz,  qual era a meta para uma criança ao terminar o Jardim de Infância. Ela respondeu que a criança deve já ser apta a formar e ler palavras e pequenas frases simples. Ainda olhando para o indivíduo, exagerando uma falsa frustração, assumi um ar calhorda, disse dramatizando meu tom confessional que eu estava fazendo tudo errado  - eu chegava a balançar a cabeça negativamente, como se nunca tivesse ouvido falar no Piaget- com educação de meu filho. "Mas... mas... é que eu lhe ensino todos os dias a escrever 3 palavras, e ele até já forma algumas frases."

Eu exagerei sobre as pequenas frases, confesso. Mas eu disse aquilo para mostrar àquele pústula como se tratam de questões universais e dilemas do ser humano, em níveis e sutilezas que suspeito ele nunca conseguirá alcançar. Talvez, ele nem tenha entendido minha ironia – pois creio eu, me ignorava tanto quanto Tocqueville ignorou a devoção etnográfica a que se dedicou Maximiliano.

The Magician


O filme se passa no século XIX, e a estória é baseada num conto de G. K. Chesterton – Chesterton aliás que exerceu grande influência em Jorge Luis Borges e Gustavo Corção, que em Conversa em Sol Menor, cita o homem do nada pelos menos umas dezoite vezes e meia.

O filme é posterior ao Sétimo Selo e ao Wild Strawberries, dois clássicos do diretor. Em The Magician, Bergman oferece as peculiaridades psicológicas, as anormalidades, a contemplação mística que fazem dos hipnotizadores figuras quase transcendentais nos circos de subúrbio. E por falar em magia, Bergman podia não entender bem dessa coisa do Sobrenatural de Almeida, mas era mestre de imagem, montagem e roteiro,  para saber bem que não podia revelar completamente os truques dos mágico protagonista até quase o final do filme. Não chega a ser um filme bom, pois os personagens carregam um certo ar de caricatura e talvez isso fosse o que Bergman queria ao ironizar um pouco a estória de Chesterton.

O filme começa com uma carruagem atravessando uma floresta coberta de névoa. Dentro viaja uma trupe de artistas mambembes liderada pelo Dr. Vogler, um hipnotizador, sua mulher que está vestida de homem, e com ele uma anciã especialista em poções mágicas, e um bufão que se diz porta-voz da trupe, mas que volta e meia mete os pés pelas mãos.

No meio do caminho Vogler recolhe um velho ator bêbado, que está quase morrendo. No meio da viagem o ator morre, mas sem antes revelar a Vogler todos os detalhes físicos do que ele percebe da morte. O fato passa-se quase desapercebido para os demais da trupe, mas nas cenas seguites, Vogler vê o fantasma do homem, e seus significados em todo o canto. Principalmente quando o grupo é obrigado a fazer uma apresentação especial na residência de um nobre, onde estão presentes a esposa do nobre, um militar e um médico, Dr. Vergerus, o qual afirma, os poderes do mágico não passarem de charlatanice. São obrigados a passar a noite da mansão, onde reina uma lobriga atmosfera. Na cozinha, após uma farta ceia, passam-se coisas estranhas. Quem sabe se pelo vinho ou por qualquer outra coisa, um dos empregados tem uma visão do demônio. A velha bruxa põe uma das ajudantes da cozinheira para dormir e tudo vai se passando como se estivesse envolto numa aura de magia.

Nos seus aposentos, o mágico, enquanto prepara seus equipamentos para a apresentação do dia seguinte, é surpreendido pela esposa do Nobre que entra furtivamente, cheia de decotes, com aquela conversinha mole de que se sente só, de que o marido não lhe dá atenção, de que tinha perdido um filho, e por aí vai. A ajudante do mágico, até então, sempre vestida de homem, se retira com um olhar irônico, assim que a nobre entra.


O grande dia chega e o que seria uma simples apresentação mambembe, se torna uma pequena tragédia pois Vogler é estrangulado pelo criador de cavalos Antonsson, que apavorado com os poderes hipnóticos de Vogler, atenta contra o mágico.


O corpo de Vogler é então levado para o sótão da casa e lá Dr. Vergerus começa uma necrópsia.....


Esse é um filme que de alguma maneira põe em jogo a relação entre o artista incompreendido e seu público. Todos que travam contato com Vogler tem uma impressão distinta dele - talvez ajudados por sua suposta mudez, tema aliás que Bergman abordaria também em Persona, retratando a crise criativa da atriz voilá Elisabet Vogler, Vogler! Vogler? Vogler..., e sua relação com a enfermeira Alma.

O moribundo no meio da estrada, é o primeiro a perceber a falsa barba do hipnotizador, duvidando de seus poderes. Já a esposa do nobre o vê como uma entidade mágica. O médico prova cientificamente que Vogler é um charlatão, enfim todos tem uma impressão distinta. Mas isso não explica exatamente por que ele é ora invejado, ora humilhado. Fato é que um pequeno monólogo que ocorre na cozinha, dito por Antonsson... “People like that should be flogged,” expressa bem a incompreensão que cerca o artista. Ottilia Egerman, a esposa do nobre, quando chega ao quarto de Vogler, diz que todos o odeiam por que não o compreendem. Ela o compreende – mas com aquelas segundas intenções supra-citadas.

No fundo, esse pequeno detalhe dito por Ottilia nos remete a um outro tema fundamental da natureza humana. Não, não. Não falo da Vontade de Poder, na qual, de tanto pensar, Nietszche quase destrambelhou. Falo da incompreensão geral sobre a vontade de não ter poder algum, de manter-se crítico e independente. Vogler, o artista, apesar de enigmático e canastrão – e muito canastrão -, assumia essa ausência de vontade, que talvez seja mais ofensiva que a própria Vontade de Poder, frente aos poderes constituidos, os quais no filme se expressam pela Ciêcia que respalda os poderes do Estado - a nobreza e os militares.

Mostrar isso a um sub-chefe, ao redor da mesa de reuniões, em que todos só pensam competitivamente em mostrar suas qualidades extraordinárias para o chefe, é quase que inacreditável. Num ambiente de trabalho muito competitivo isso é quase ofensivo. E pior, suspeito. Pois no momento em que se mostra esse ar displicente, passa-se a levantar as famosas suspeitas conspiratórias... “estará esse ser vil querendo meu posto?”  Nesse meio tempo ainda há as coisas não ditas. Você pode ser considerado um hipócrita e manipulador – mas obviamente ninguém dira isso na sua cara, mas fará chegar aos ouvidos de seu chefe. Seu chefão pode telefonar como quem não quer nada, e cobrar aquela crítica construtiva em bona fide, não só cobrá-la, ameaça-lo por tê-la feito assim em público, e desligar o telefone na sua cara. E no dia seguite, passar por você e lhe dar Good Morning, como se nada tivesse acontecido. Daí para ser encarado como pessoa pouco confiável é um pulinho quase imperceptível quanto a primeira troca de olhares entre Vogler e Dr. Vergerus.

Madama Butterfly

A 17 de Fevereiro, no ano de 1904, no teatro La Scala de Milão, era encenada pela primeira vez a Madama Butterfly. Portanto, lá se vão 107 anos. Na época Puccini fora acusado de repetitivo, já que Cio-Cio-San guarda alguns traços com a Mimi de La Bohème. E pelo que tudo indica parece mesmo que era cópia, pois pelo que andei lendo – minha fonte principal para temas de opera é o velho e mal traduzido História das Grande Operas de Ernest Newman - Puccini, ao longo da vida, fez inúmeras modificações no enredo. Dizem até as más línguas, nas interenétis da vida, que a ópera original era ruim mesmo, mas como não vi o dilúvio, quem sou eu para duvidar dos sobreviventes?

Bom, assim como LaBohème, a nossa Madama é uma ópera popular. Mas nem por isso deixa de ser um ótimo entretenimento para terça-feira à noite, pois a obra combina todos os bons elementos que uma ópera deve ter. Exótica, romântica e trágica,  a estória, base do libreto, foi tirada do conto de John Luther Long e narra as desventuras de uma gueixa japonesa, Cio-Cio-San, que casa com o oficial da marinha americana B.F Pinkerton. Casamento estranhíssimo, ou seja, mais estranho que os normais. Neste, o americano faz um acordo esquisitíssimo onde ele se casa com a moça por 999 anos, com o direito a revogar o contrato a cada mês. Casamento, diga-se de passagem, nulo perante a lei americana. O mais absurdo é que ele tem direito a se casar com a menina de 15 anos ao comprar um imóvel perto do porto de Nagasaki, e a jovem vem como ‘brinde’ intermediado pelo agente imobiliário Goro. Desconhecendo boa parte  dos acordos escusos triangulados por Pinkerton, Goro e Sharpless – Cônsul americano na região – e para provar seu amor por Pinkerton, Cio-Cio-San rompe com a família, converte-se ao cristianismo, e passa a desprezar  a tradição japonesa. Pinkerton por sua vez, ainda no primeiro ato, mostra sua natureza calhorda, expulsando a família da consorte, que não aprova o casamento, admitindo para Sharpless que pretende voltar aos Estados Unidos e arranjar uma esposa americana.

Até o fim do primeiro ato,  percebe-se que Cio-Cio-San, sempre acompanhada pela fiel criada Suzuki, terminou o primeiro ato em maus lençóis literalmente. A gueixa, que virara cristã na esperança de agradar o marido, que simplesmente ignorava ou desprezava – a linha é tênue – sua crença no budismo, passa a ser desprezada pela família, e além de abandonada pelo marido, e tem um filho ao longo da ópera. Ou seja, sendo uma ex-gueixa que decide endireitar na vida, mãe-solteira e apóstata, fica difícil acreditar em que a relação pode dar certo, ainda mais pelo fato de que Pinkerton dá provas mais que suficientes, em suas conversas com o Cônsul americano, Sharpless, de sua mais completa cafagestagem.

No segundo ato, já se passara 3 anos desde a partida de Pinkerton. Neste ato é quando Puccini nos dá praticamente a perspectiva da fibra e do caráter da moça. Butterfly tem um filho de 3 anos, fruto da relação com Pinkerton. Ou seja, como já disse,  ex-geixa, apóstata, renegada pela família e posteriormente pelo marido, e ainda mãe-solteira, o futuro da moça parece não ser nada estável. Com crise de consciência, ou almejando talvez mais um bom negócio, Goro e Sharpless  visitam a moça. Goro, trazendo o principe Yamadori, com a esperança de que ela se case com ele e acabe com aquela angústia da espera por algo que pode nunca alcançar. E Sharpless a visita de posse de uma carta de Pinkerton. Tal a emoção da moça ao escutar a leitura da carta, interrompendo-o a todo o momento, que Sharpless não consegue terminar a carta com todos os trágicos detalhes do eventual retorno do amigo marujo a Nagasaki. Remoído pelo remorso, Sharpless interrompe a leitura, sofrendo antecipadamente pelo destino de Cio-Cio-San. Nesse momento a ópera dá uma virada, em termos de enredo e música.  Nesse contexto é que  uma das  mais belas árias de toda a ópera é executada, Un bel dì vedremo, quando ela, canta sua esperança no retorno de Pinkerton.  Aliás entre o segundo e o terceiro ato há também o dueto Sccuoti quella fronda di ciliegio, cantado por Cio-Cio-San e sua empregada e amiga Suzuki, enaquanto decoram a casa com flores de cerejeiras – muito bonito -; sem esquecer do coro de sussurros Coro a bocca chiusa, que vela a noite em claro de Cio-Cio-San ao escutar os canhões do navio de Pinkerton ao entrar na baía de Nagasaki.

Já no terceiro ato, Pinkerton aparece com a sua mulher americana, e leva o seu filho sob custódia para os Estados Unidos enquanto Cio-Cio-San se  desespera. Ana Maria Martínez, empresta sua voz vibrante e dramática a Cio-Cio-San, enquanto o brasileiro Thiago Arancam interpreta Pinkerton. A regência é de Plácido Domingos, e uma outra novidade da Vanuatu National Opera é a inclusão de um outro brasileiro, Ron Daniels, que estréia como diretor da Companhia. Daniel tem uma longa história de montagens no Brasil e na Inglaterra. No Brasil foi um dos fundadores, junto a Jose Celso Martinez Correa, do Teatro Oficina em São Paulo, e porteriormente trabalhou por anos em Londres na Royal Shakespeare Company.

Enfim, noite de terça-feira, nada de melhor pra fazer, duas opções: ligar a televisão no ABC, ou, Madama Butterfly.

Até breve

A NOITE EM QUE OS HOTÉIS ESTAVAM CHEIOS

O casal chegou à cidade tarde da noite. Estavam cansados da viagem; e ela, em adiantada gravidez, não se sentia bem. Foram procurar um lugar onde passar a noite. Hotel, hospedaria, qualquer coisa viria bem, desde que não fosse muito caro, pois eram pessoas de modestos recursos. Não seria um empreendimento fácil, como descobriram desde o início. No primeiro hotel, o gerente, homem de maus modos, foi logo dizendo que não havia lugar. No segundo, o encarregado da portaria olhou com desconfiança o casal e resolveu pedir documentos. O homem disse que não tinha; na pressa da viagem esquecera os documentos.
— E como pretende o senhor conseguir um lugar num hotel, se não em documentos? —disse o encarregado. Eu nem sei se o senhor vai pagar a conta ou não.
O viajante não disse nada. Tomou a esposa pelo braço e seguiu adiante. No terceiro hotel, também não havia vaga. No quarto —que não passava de uma modesta hospedaria— havia lugar, mas o dono desconfiou do casal e resolveu dizer que o estabelecimento estava lotado. Contudo, para não ficar mal, deu uma desculpa:
— O senhor vê, se o governo nos desse incentivos, como dão para os grandes hotéis, eu já teria feito uma reforma aqui. Poderia até receber delegações estrangeiras. Mas até hoje, não consegui nada. Se eu tivesse uma amizade influente... O senhor não conhece ninguém nas altas esferas?
O viajante hesitou, depois disse que sim, que talvez conhecesse alguém nas altas esferas.
— Pois então —disse o dono da hospedaria— fale para esse seu conhecido da minha hospedaria. Assim, da próxima vez que o senhor vier, talvez já possa lhe dar um quarto de primeira classe, com banho e tudo.
O viajante agradeceu, lamentando apenas que seu problema fosse mais urgente: precisava de um quarto para aquela noite. Foi adiante. No hotel seguinte, quase tiveram êxito. O gerente estava esperando um casal de conhecidos artistas, que viajavam incógnitos. Quando os viajantes apareceram, pensou que fossem os hóspedes que aguardava e disse que sim, que o quarto já estava pronto. Ainda fez um elogio:
— O disfarce está muito bom.
— Que disfarce? —perguntou o viajante.
— Essas roupas velhas que vocês estão usando —disse o gerente.
— Isso não é disfarce —disse o homem. São as roupas que nós temos.
O gerente aí percebeu o engano: — Sinto muito —desculpou-se. Eu pensei que tinha um quarto vago, mas parece que já foi ocupado.
O casal foi adiante. No hotel seguinte, também não havia vaga, e o gerente era metido a engraçado. Ali perto havia uma manjedoura, disse: por que não se hospedavam lá? Não seria muito confortável, mas em compensação, não pagariam diária. Para surpresa dele, viajante achou a idéia boa e até agradeceu. Saíram. Não demorou muito, apareceram os três Reis Magos, perguntando por um casal de forasteiros. E foi aí que o gerente começou a achar que talvez tivesse perdido os hóspedes mais importantes já chegados a Belém.

I am Love

De todos os filmes concorrentes ao Oscar deste ano, assisti justamente ao que não tinha a menor chance de levar nada. I am Love. Sinceramente, algumas sacadas boas sobre as pequenas alucinações de butique de Emma – Tilda Swinton -  e mais nada.

O filme, na verdade, conta a estória de uma família milanesa, podre de rica e que tem a fortuna proveniente do ramos da tecelagem. Os Recchi, como já disse são ricos pra cachorro, e o patriarca celebrará seu aniversário. A nora, Emma, mantém tudo neuroticamente organizado dentro e fora da casa. A roupa dos serviçais – rico chama assim a seus empregados -, a disposição dos convivas à mesa, enfim nada escapa. A ocasião é importante pois na celebração o velho Edoardo passará o controle da fábrica para o filho Tancredi. Emma é filha de um dono de antiquario de São Petersbugo que a encontra e a leva para a Itália. Os dois tem três filhos, Edoardo Jr., prestes a se casar com Eva; Gianluca e Elisabetta, que estura arte em Londres.

No jantar, a grande supresa é que o velho passa o controle da empresa para o filho e para o neto Edoardo Jr.. Mas como são podres de ricos, são discretos. O suposto mal estar se filtra pela emoção de ter o velho ainda vivo. Na festa, lá pelas tantas, aparece Antônio, que apesar de cozinheiro e pobretão tem uma inverossimil amizade com Junior, a quem venceu numa corrida naquele dia. Os dois têm inverossimeis planos de abrir um restaurante juntos e quando Junior apresenta o rapaz à mãe, uma gourmet, primeiro ela se sente atraída pela comida e depois pelo rapaz. A paixão há muito reprimida, transforma-a. A mulher entra numa vertigem de despertar sexual, e o vórtice a faz perder os limites. Passa a ir constantemente a San Remo visitar Antônio. E nessas muitas idas, corta o cabelo e  faz revelar o segredo de uma sopa que está no ramo da família russa muitas gerações.

Num dos jantares, no qual Antônio era o cozinheiro principal, o filho de Emma, Junior, que já andava com a pulga atrás da orelha com sua mãe, olha para a sopa de  entrée e lembra-se automaticamente do cabelo cortado da mãe, encontrado na casa de Antônio.  O jantar celebrava a passagem do controle acionário da empresa para um grupo indiano, portanto era um jantar de negócios, onde esse tipo de descontrole não seria aceitável no impertivo categórico que regia os Recchi.

Afastando um pouco a objetiva, vê-se uma Tilda Swinton polivalente, falando inglês, italiano e russo com fluência num papel que exigia a mais absoluta economia de emoções. Exagere os zoom-out e o filme não passa de uma cópia moderna e mal acabada de dois outros filmes, um o clássico  Il Gattopardo do Visconti; e o outro o impagável  The Royal Tenenbaums, do Wes Anderson.

E por falar nisso...


Melhor filme
Cisne Negro
O Vencedor
A Origem
O Discurso do Rei – VENCEDOR
A Rede Social
Minhas Mães e meu Pai
Toy Story 3
127 Horas
Bravura Indômita
Inverno da Alma
Melhor diretor
Darren Aronovsky – Cisne Negro
David Fincher – A Rede Social
Tom Hooper – O Discurso do Rei – VENCEDOR
David O. Russell – O Vencedor
Joel e Ethan Coen – Bravura Indômita
Melhor ator
Jesse Eisenberg – A Rede Social
Colin Firth – O Discurso do Rei – VENCEDOR
James Franco – 127 Horas
Jeff Bridges – Bravura Indômita
Javier Bardem – Biutiful
Melhor atriz
Nicole Kidman – Reencontrando a Felicidade
Jennifer Lawrence – Inverno da Alma
Natalie Portman – Cisne Negro – VENCEDORA
Michelle Williams – Blue Valentine
Annette Bening – Minhas Mães e meu Pai
Melhor ator coadjuvante
Christian Bale – O Vencedor – VENCEDOR
Jeremy Renner – Atração Perigosa
Geoffrey Rush – O Discurso do Rei
John Hawkes – Inverno da Alma
Mark Ruffalo – Minhas Mães e meu Pai
Melhor atriz coadjuvante
Amy Adams – O Vencedor
Helena Bonham Carter – O Discurso do Rei
Jacki Weaver – Animal Kingdom
Melissa Leo – O Vencedor – VENCEDORA
Hailee Steinfeld – Bravura Indômita
Melhor longa animado
Como Treinar o Seu Dragão
O Mágico
Toy Story 3 – VENCEDOR
Melhor filme em lingua estrangeira
Biutiful
Fora-da-Lei
Dente Canino
Incendies
Em um Mundo Melhor – VENCEDOR
Melhor direção de arte
Alice no País das Maravilhas – VENCEDOR
Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte I
A Origem
O Discurso do Rei
Bravura Indômita
Melhor fotografia
Cisne Negro
A Origem – VENCEDOR
O Discurso do Rei
A Rede Social
Bravura Indômita
Melhor figurino
Alice no País das Maravilhas – VENCEDOR
I am Love
O Discurso do Rei
The Tempest
Bravura Indômita
Melhor montagem
Cisne Negro
O Vencedor
O Discurso do Rei
A Rede Social – VENCEDOR
127 Horas
Melhor documentário
Lixo Extraordinário
Exit Through the Gift Shop
Trabalho Interno – VENCEDOR
Gasland
Restrepo
Melhor documentário em curta-metragem
Killing in the Name
Poster Girl
Strangers no More – VENCEDOR
Sun Come Up
The Warriors of Qiugang
Melhor trilha sonora
Alexandre Desplat – O Discurso do Rei
John Powell – Como Treinar o seu Dragão
A.R. Rahman – 127 Horas
Trent Reznor e Atticus Ross – A Rede Social – VENCEDORES
Hans Zimmer – A Origem
Melhor canção original
“Coming Home” – Country Strong
“I See the Light” – Enrolados
“If I Rise” – 127 Horas
We Belong Together – Toy Story 3 – VENCEDOR
Melhor Maquiagem
O Lobisomem – VENCEDOR
Caminho da Liberdade
Minha Versão para o Amor
Melhor Curta-metragem de animação
Day & Night
The Gruffalo
Let’s Pollute
The Lost Thing – VENCEDOR
Madagascar, Carnet de Voyage
Melhor Curta-metragem
The Confession
The Crush
God of Love – VENCEDOR
Na Wewe
Wish 143
Melhor Edição de som
A Origem – VENCEDOR
Toy Story 3
Tron – O Legado
Bravura Indômita
Incontrolável
Melhor Mixagem de som
A Origem – VENCEDOR
Bravura Indômita
O Discurso do Rei
A Rede Social
Salt
Melhor Efeitos especiais
Alice no País das Maravilhas
Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte I
Além da Vida
A Origem – VENCEDOR
Homem de Ferro 2
Melhor Roteiro adaptado
A Rede Social – VENCEDOR
127 Horas
Toy Story 3
Bravura Indômita
Inverno da Alma
Melhor Roteiro original
Minhas Mães e meu Pai
A Origem
O Discurso do Rei – VENCEDOR
O Vencedor
Another Year

Sunset Park


Terminada a leitura do último livro de Paul Auster, Sunset Park – ainda sem tradução par ao português -, é minha vez de dizer que é impossível transmirtir o que eu também senti, não apenas às primeiras páginas, mas nos seus capítulos seguintes que percorrem, esmiúçam, radiografam a alma de uns dez personagens em quase todas suas poucas grandezas e muitas misérias.

O livro centra-se na estória de Miles Heller, um jovem de 28 anos, e que aos vinte rompeu todos os laços o ligavam a familia e a Nova Iorque. Deixou a universidade e embrenhou-se pelo meio dos Estados Unidos, deixando uma breve e enigmática nota de despedida aos pais. Por muito tempo ninguém ouviu falar dele. Desde então peregrinando de cidade em cidade, fixou-se na Flórida, dedicando-se a trabalhos pesados, de baixa qualificação e baixo soldo. Vive uma vida simples trabalhando como “trashing out,” o único trabalho que parece prosperar num país afetado brutalmente pela crise da bolha imobiliária. Seu trabalho consiste em limpar os imóveis liquidados – outrora pertencentes a pessoas que não puderam arcar com suas hipotecas - prestes a retornarem aos bancos.

Solitário e deslocado em qualquer dos mundos que possa habitar, Miles, para além de limpar e pintar as casas desapropriadas, fotografa-as, retendo em suas máquina digital as pistas das vidas dispersas que um dia pertenceram àquele lugar, os fantasmas de pessoas que ele nunca conheceu ou conhecerá e que estão presentes nos objetos dessas casas, agora, vazias e abandonadas. Dos restos do desespero do pouco que ficou para trás, abandonados na solidão silenciosa de uma casa cheirando a mofo, suas fotografias não servem para nada. Seus anos de estudo na universidade, menos ainda. É um cara sem ambição, que vive com o mínimo necessário para viver e que mantém relações escassas com o mundo. Miles encontra o conforto para esse mundo em desolação na sua máquina digital, nos livros, que compra em edições baratas em sebos, e evidentemente, nos braços de Pilar Sanchez, sua namorada latina, com certos traços de Lolita, a quem conheceu exatamente quando ela lia, pela primeira vez, o The Great Gatsby num parque. Ele, já na terceira leitura, já que o pai o presentara quando tinha 16 anos, lançou toda a sua lábia literária para conquistar a moça de generosas ancas.

Miles, se apaixona por Pilar, mas como ela é menor, passa a ser chantageado pela irmã da moça para que roube objetos das casas nas quais ele trabalha, caso contrário ela o denuncia à polícia como um pervertido. Sem escolha, Miles retorna para NY a convite de seu amigo Bing, que vive numa casa abandonada no Brooklyn, em Sunset Park.

Na casa vivem Bing, um cara que se dedica a consertar objetos obsoletos, tais como relógios, máquinas de escrever e aspiraradores de pó; Alice, uma estudante de doutorado que prepara uma tese sobre o filme de William Wyler, The Best Days of Our Lives, como a síntese da história recente americana; e Ellen, que trabalha ironicamente numa agência imobiliária enquanto tenta sua carreira de pintora. Todos têm um quê de frustração. Todos, em certa medida, precisam uns dos outros naquela casa.

Juntar-se aos companheiros de Sunset Park, é tentador. Mas tem um preço alto para Miles que é o de reencontrar a cidade e a família que deixou para trás. Nesse estranho retorno ao passado Miles reencontrará o pai - um dos temas recorrentes na literatura de Auster – Morris, o um dia bem sucedido editor independente que agora vive as consequências da crise financeira que abate o mercado editorial; a madrasta, que o responsabiliza pessoalmente pela morte de seu filho; a mãe, Mary-Lee, uma atriz auto-centrada, sedutora – jogando com o próprio filho - com algo de beckettiana, que nunca deu muita atenção para o guri; e o padrasto, que tem de se sujeitar a dar aulas na Universidade da California por ter tido sua carreira de cineasta independente frustrada pela crise.

Confesso que me assustei, pois para um escritor americano que, ainda que escreva de NY – ou seja, um lugar que não pertence aos Estados Unidos -, escreve para um público alérgico a personagens derrotados, pior, avesso a personagens que não se redimem do meio para o final, o livro deixa falsas pistas. Auster, nesse livro, resvalou. Quase me deixou a sensação que iria usar do artificio baixo de justificar a fuga de Miles expondo desde o começo as premissas examinadas para compor sua ‘fuga’: ou seja, a morte acidental de seu meio-irmão, na qual ele esteve envolvido.

Me assustei mais ainda com a tentativa de Auster impor uma relevância política à voz dos subalternos, num esforço de engajamento no mundo em recessão. Felizmente essa segunda impressão foi logo desfeita pelos fetiches do próprio escritor que sempre cria um oprimido, para além de outsider, sempre com algum traço artístico.

Desaponta, sem dúvida, a falta de profundidade psicológica de personagens tão interessantes como Bing, Elen e Alice. A insistência nos detalhes sobre a história do Baseball, como amálgama da relação entre pai e filho, por vezes também se torna enfadonha. Mas em todo o caso, não deixa de ser um livro sobre a inocência da juventude, sobre a estranha sensação de estar vivo, como algo desconfortável.

Marota tradução do primeiro parágrafo...
"Por quase um ano, ele vem tirando fotos de coisas abandonadas. São pelo menos duas ordens de serviço por dia, e as vezes seis ou até mesmo sete, e a cada vez que entra numa casa, se depara com as coisas, com os inumeráveis objetos deixados para trás por famílias que partiram. Os ausentes fugiram com pressa, envergonhados, confusos, e certamente onde quer que vivam agora (se é que encontraram um lugar para viver e não estão vivendo nas ruas) seus lares são menores do que perdido. Cada casa é uma estória de fracasso – de falência, de inadimplência, de dívida - e ele assumiu que deveria documentar os últimos e persistentes traços dessas vidas para demonstrar que essas famílias desaparecidas estiveram ali uma vez, que os fantasmas dessa gente que nunca verá e que nunca conheceu, estão ainda ali, presentes nos restos de coisas desfeitas de suas casas vazias[...].”

"For almost a year now, he has been taking photographs of abandoned things. There are at least two jobs every day, sometimes as many as six or seven, and each time he and his cohorts enter another house, they are confronted by the things, the innumerable cast-off things left behind by the departed families. The absent people have all fled in haste, in shame, in confusion, and it is certain that wherever they are living now (if they have found a place to live and are not camped out in the streets) their new dwellings are smaller than the houses they have lost. Each house is a story of failure — of bankruptcy and default, of debt and foreclosure — and he has taken it upon himself to document the last, lingering traces of those scattered lives in order to prove that the vanished families were once here, that the ghosts of people he will never see and never know are still present in the discarded things strewn about their empty houses."

Nota. Foto. Casa Abandonada. Barrio de Campos. Galiza/Janeiro/2011.
Música do dia. Barracão. CD. Brasileirinho. Grandes Encontros do Choro Contemporâneo.

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O Lugar dos Zé Manés no Mundo do Trabalho

Um dos grandes dilemas do homem que trabalha, que se esforça numa jornada de 8, 9, 10 horas por dia e volta para a casa esperando no fim do mês por um salário que muitas vezes, simplesmente, não dá, não é mais o cerne da questão no mundo do trabalho. Não, não é. O que nos torna reféns do devir, hoje, é o medo de perder o emprego num mundo do trabalho sem ética.
Para Richard Sennett, professor de sociologia da Universidade de Nova Iork e da London School of Economics e autor também do ensaio Carne e Pedra, O Declínio do Homem Público e The Hidden Injuries of Class, estamos imersos numa nova face do capitalismo que afeta o caráter de indivíduos em seus mais sutis detalhes na vida pessoal. E um dos pontos de partida, para que Sennett sustente seu argumento, reside exatamente a falta de condições para que o homem contemporâneo construa uma narrativa linear de sua vida profissional e pessoal, sustentada na experiência - como a daqueles dos anos que o Fordismo vigorava.

A “CORROSÃO DO CARÁTER – conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo,” lido em português, afanado por meu caráter corroído, da casa de minha prima, é trabalho muito bom, dividido em oito didáticos breves capítulos, onde se define a nova idéia de tempo capitalista, e se mostra as dificuldades de se compreender as novas relações de trabalho num mundo onde as referências e a ambição individual – ou a muitas vezes confundida, luta pela sobrevivência - é cada vez mais anti-ética. Além disso, o livro trata dos aspectos mais psicológicos dessa diluição do caráter. Os sentimentos despertos nos indivíduo como o fracasso, o desnorteamento, e a decorrente depressão.

O livro, apesar de ser anterior à bolha imobiliária que afetou Estados Unidos e União Européia de maneira violenta, é muito atual com até um certo ar de saudosismo. O autor começa a exemplificar seu argumento logo nas primeiras páginas com a estória de Enrico, um imigrante que fundou uma família e a sustentou com os esforço – sem querer ser piegas – de seu trabalho e seu suor. Enrico era o típico exemplo de trabalhador fordista. Tinha um emprego rotineiro e repetitivo, baseado no uso disciplinado do tempo. Através de seu salário, sustentava sua família e mesmo sem grandes perspectivas de ascensão profissional – devido à sua condição de imigrante e baixa escolarização – sentia-se à vontade em seu trabalho baixamente qualificado mas relativamente estável, pois contava com uma rede de proteção sindical bastante eficiente. Através desse trabalho Enrico podia contruir uma narrativa composta de estórias cumulativas de vitórias e até mesmo derrotas em sua vida. Já com seu filho, Rico, e com sua nora, a estória é outra. Ambos são profissionais qualificados num ambiente de crise econômica, o que os obriga muitas vezes a term empregos em cidades distintas, obrigando-os a viajar de avião pendularmente. Ou seja, Rico se esforça para não demonstrar nenhum laço ou vestígio com o universo do trabalhado braçal ao qual o pai pertencia. No novo Sonho americano Rico quer fugir da rotina. O grande problema é que esta rotina baseada no tempo linear foi substituída por novas formas de domínio e controle, mas Rico não se dá conta disso. Rico, com um trabalho muito mais intelectualizado que o pai, e educado para ser um trabalhador muito mais competitivo, tem uma rotina de incertezas e mudanças constantes.

Sennett compara, não por acaso, esse dois modelos de trabalhadores. O trabalhador fordista, burocratizado e rotinizado, que planeja sua própria vida familiar e suas metas se baseando em um tempo linear, cumulativo e disciplinado, e que constrói sua própria história e expectativas a partir de uma perspectiva de longo prazo. E o trabalhador flexibilizado do capitalismo das últimas décadas, que muda de endereço freqüentemente, que não estabelece laços duráveis de afinidade com os vizinhos, muda de emprego e de casa constantemente, ou seja, vive uma vida de incertezas e descartável, mas acima de tudo de laços frágeis. O trabalhador flexível não possui laços duráveis nem com sua própria família. Segundo Sennett, a dificuldade de se estabelecer laços duráveis está corrompendo o caráter e como isso acontece é demonstrado ao longo do ensaio.
Neste sentido, Sennett considera que a sociedade se depara com a ponta de um dilema. O problema do antigo trabalho rotineiro com o da reestruturação do tempo implicam em instituições mais flexíveis, criando novas formas de poder e controle. Essas novas formas de flexibilização geram um movimento estrutural de reinvenção institucional, de ruptura do presente com o passado de forma a minar a burocracia aumentando o grau de especialização, num mercado que ocupa apenas temporariamente um nicho de consumidores.

Com isso as formas de controle do RH mudam também. O trabalho em casa, o chamado teleworking, toma o lugar do trabalho no escritório; “o controle face-aface” cede ao controle eletrônico de troca de emails e mensagens diretas. Isso, espelhado num trabalho em equipe, parece dar mais libertade ao trabalhador, ludibriado pela falsa idéia de que a concentração de poder sem centralização dá ao trabalho em equipes, maior controle sob o trabalho que se desenvolve. Grande balela! Sennett afirma que isso é conversa pra boi dormir, pois na verdade quem decide o que fazer e quando, ainda é o capitalista, restando aos trabalhadores apenas o refugo das decisões de como realizar as suas atividades ASAP, ou seja, “rapidinho mermão senão você roda.”

A aparente liberdade dada ao trabalhador através do trabalho em equipe, sem o patrão por perto para vigiá-lo, na verdade colocou o trabalhador ainda mais sob o jugo do capitalista, já que a atomização cada vez maior das suas tarefas fez com que este não se precisasse mais de tanto treinamento. Como conseqüência, deixou de possuir o domínio sobre seu emprego, por isso ele sempre está mudando de área, e como já não possui vínculos fortes com suas tarefas na empresa, muda de função e até mesmo de emprego de manaira mais fácil e rápida.

Toda essa flexibilização aparentemente positiva tem uma outra face que afeta o indivíduo, conceito que sociológicamente poderia ser descrito como o “Zé Mané”. O Zé Mané é esse cidadão que se mata de trabalhar no mundo flexibilizado e que não se dá conta de uma coisa muito grave.... a corrosão de seu prórpio caráter.

Segundo Sennett, o caráter é mais ou menos algo que lembra vagamente, na ética aristotélica, “o valor ético que atribuímos aos nossos próprios desejos e às nossas relações com os outros, ou se preferirmos ... são os traços pessoais a que damos valor em nós mesmos, e pelos quais buscamos que os outros nos valorizem.” Buscar essa coesão de significado é algo que era possível no mundo de Enrico, mas não no de Rico, seu filho. Por que?

Bom, primeiro por que o trabalho flexível leva a um processo de degradação dos antigos profissionais de ofício (o velho trabalho do técnico, do especialista em alguma àrea...), à degradação das metas de longo prazo, à tolerância, e por fim a flexibilização do caráter também. A nova ordem do mundo da produção concentra-se na capacidade imediata, não leva em conta que acumulação da experiência. Daí a preferência do capitalismo pelos mais jovens, como Rico, por serem mais adaptáveis às formas flexíveis de trabalho.
A questão é… até então, na crista da onda, Rico se sentia afetado por isso?
Claaaro que não. Rico não passa de um Zé Mané.

Um Zé Mané de classe média não conseguia ver os riscos desse mundo com o qual corroborou, pois mesmo com seu caráter, cheio de grafite, já mais oxidado que uma canalização de ferro fundido, só via que no jogo capitalista atual todos acreditam ser potenciais vencedores, e sabem que os vencedores fazem parte de um minúsculo grupo, e que portanto não se mexer é condenar-se ao fracasso. Mas tem gente que fracassa e Rico ainda não era um destes.

Ele acrditava que o trabalho em equipe gera um novo tipo de caráter, onde o homem motivado é o homem irônico, que ganha prosélitos nas esferas superiores, e em decorrência de viver em um tempo flexível, sem padrão de autoridade por perto e com responsabilidade voláteis, não consegue se reconectar com a ética e o respeito ao próximo.Mas tampouco isso é algo que o afete tão profundamente. O Zé Mané de Rico estava na crista da onda. O problema é como construir essa nova história de vida sem valores muito sólidos, e em um capitalismo em que as pessoas estão nesse mesmo barco à deriva. A resposta para esse estado de natureza, esse salve-se quem puder, esta na maneira como as pessoas enfrentam o fracasso.

Para Rico, a resposta veio com o sentimento de esvaziamento, frente ao medo de perder o emprego. Até aí tudo bem, pois esse era um medo do seu pai também, e de qualquer outro homem e mulher com ou sem juízo – como eu ou você, meu caro leitor. Mas, em Rico foi mais profundo pois numa dessas fases de desemprego sentiu mais dificuldade em se recolocar no mercado percebendo que perdeu o contato com a moral social e cultural. Caiu na real pois seu pai frequentava um clube de imigrantes onde ele tinha amigos com os quais ele conversava sobre os mesmo temas. Rico, forçado a constantes viagens e a muitas horas de trabalho, não tem vida social. Portanto, percebe que não tem com quem dividir seu drama.

Fracassar é ruim. Lógico. E como diria Alvaro de Campos, “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.” Mas o fracasso é algo que atinge as pessoas e para superá-lo é necessário compartilhar a experiência do fracasso com um grupo ou uma comunidade para que este adquira um senso de coerência coletiva e não passe apenas como uma injustiça sofrida por um indivíduo. Isso o pai de Rico tinha esse senso. Rico, não, mas como é um Zé Mané, ainda estava jovem, na crista da onda, com os filhos relativamente pequenos, só se deu conta do buraco em que estava mais tarde.

O grande mérito de Sennett foi o de aproximar a teoria sociológica do leitor comum. Ele consegue demonstrar como esta corrosão acontece gradativamente utilizando exemplos reais, de operários, prestadores de serviço, e desempregados da IBM, ao optar pela narrativa e não puramente o uso de estatísticas e tabelas. Sennett consegue dar vida as hipóteses de planilha mostrando que as novas relações do novo capitalismo flexível corromperam e corrompem o caráter do ser humano. Mais ainda, ao demonstrar esses exemplos reais de atomização das relações humanas e trabalhistas, Sennett mostra que o homem do novo milênio sofre com a própria construção de sua narrativa de vida e narrativa histórica pois o cabra fica impossibilitado, sem padrão e nem responsabilidade.

Hipóteses como a de um Rico em dois tempos, em duas entrevistas, uma anos atrás e uma recente, Sennett descobriu duas pessoas. Dois Ricos. O primeiro arrogante, sentado ao seu lado num vôo local pelos Estados Unidos. No outro, um Rico mais modesto, workaholic sem tempo para se dedicar à educação dos filhos, sem saber se os filhos estão na escola ou se estão o dia todo zanzando pelos shopping centers ao arbítrio dos perigos que rondam adolescentes num país onde tudo é muito fácil se conseguir, e mais fácil ainda se corroer. O trabalhador flexível não possui laços duráveis nem com sua própria família. Segundo Sennett, a dificuldade de se estabelecer laços duráveis, num universo onde o poder existe mas onde a autoridade é invisível, está corrompendo o caráter. Ou seja, um Rico menos Zé Mané... mas, devido ao seu isolamento, seu caráter completamente enferrujado, chega um pouco atrasado para pegar a tempo seu bonde na História.


A questão mais profunda para um Zé Mané como Rico é... "Que lugar ocupo eu, no Mundo do Trabalho?"



Música do dia. Roda Viva. Chico Buarque.
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