O Ouro de Nápoles


Este filme de
Vittorio De Sica é sem dúvida uma homenagem existencialista, sem os idiossincráticos desvios da angústia existencial, modelado pelo bom humor, a Nápoles. Vittorio De Sica passou seus primeiros anos na cidade e pôde capturar com maestria o roteiro traçado a partir do livro de Giuseppe Marotta, de mesmo nome. Trata-se de  uma coleção de 6 episódios napolitanos:  "Il guappo", "Pizze a credito", "Funeralino", "I giocatori", "Teresa", e "Il professore". A versão americana omitiu, por algum motivo que ainda vou descobrir, 2 dos vignettes. Justamente, o terceiro -  Funeralino - e o sexto -  Il professore

O filme chegou a fazer parte da competição de Cannes em 1955, junto com outros incríveis filmes como Rififi, que levou o prêmio de melhor direção, como o magnífico East of Eden do Elia Kazan, que levou o prêmio de melhor filme dramático;  Marty, de Delbert Mann, que ganhou a Palma de Ouro; e Marcelino pan y vino, que não levou prêmio nenhum, mas é um desses filmes com cães tristes e criança órfã, que são sempre tocantes. Uma curiosidade é que L´Oro di Napoli competiu com um filme brasileiro também: Samba Fantástico de Jean Mazon e René Persin. Para quem não lembra do Mazon, segue um refresco para a memória. Um dos fotógrafos mais emblemáticos do fotojornalismo brasileiro, que formou uma geração de fotógrafos, inclusive guerra. Sempre oportunista, chegou no Brasil na década de 40 e logo se enroscou com o pessoal do DIP do Vargas. Do Departamento de Imprensa e Propaganda, a censura do Vargas, foi trabalhar na Cruzeiro, do Diários Associados, do famigerado Assis Chateaubriand, com David Nasser. O francês, operando as objetivas, e o libanês, textos rocambolescos de dar inveja a qualquer palimpsesto do realismo mágico latinoamericano,   tornaram-se mitos em pouco tempo. Chegaram até a forjar a morte de Mazon para aumentar as vendas da Cruzeiro, e claro, tudo com a aprovação de Chatô, que nunca foi flor que se cheirasse mesmo.  

Por falar em realismo mágico, o que me levou a assistir L'oro di Napoli foi justamente o elogio desvelado que Gabriel Garcia Marques faz ao filme no livro, meio biográfico, meio ficcional e cheio de indiscrições e cabotinagens, do jornalista, diplomata, e amigo pessoal de Gabo,  Plinio Apuleyo Mendoza, La llama y el Yelo - que acabei de folhear estes dias. No livro, disque Marques revela a Mendoza, numa das andanças por Paris, sem testemunhas oculares - como quase tudo que o tal do Plinio revela - seu fascínio pelo filme roteirizado pelo Giuseppe Marotta. Fui atrás do filme, diga-se de passagem, dificílimo de encontrar. Mas encontrei. Assisti. 


Filmaço. Pelo menos para mim, que existencialmente falando é o que importa!


O problema, é que nos dez anos que separam A Culpa dos Pais - filme meio chato pra dedéu - de L´oro di Nápole, o camarada faz Ladrões de Bicicleta e Umberto D. Dois clássicos que facilmente obliterariam qualquer coisa que o De Sica fizesse nesta década. Afinal, L´oro di Nápole nem sequer tinha uma linha de coerência argumentativa, tratando-se apenas de seis episódios da vida cotidiana de uma cidade. Aparentemente, por que alguns dos short movies da série, são absolutamente fantásticos.


Na véspera do Natal de 1953, Saverio Petrilho (o comediante Toto - chamado príncipe da risada italiano), encontra-se em frente ao túmulo de Maria Javarone, que havia morrido em 21 de novembro de 1943. A morta, na verdade, era a esposa de Carmine, amigo explorador e aproveitador, amigo dos tempos de escola, que ocupa sua casa de Saverio, faz de empregada sua mulher, e passa até mesmo a educar seus filhos. O protagonista se sente mais que angustiado com toda aquela situação sem saída. E se aproveita de um mal súbito de Carmine para expulsá-lo de casa. Os amigos resgatam Carmine e chamam o melhor médico da Itália para saber qual seria o mal de Carmine, que após os resultados médicos retorna à casa de Saverio, na noite de natal para lhe dar a notícia que o mal não passava de gazes presos. Saverio, abraçado a sua família, reitera sua posição de mandá-lo embora. E fiel à epígrafe do filme, em que são infinitas as características esplendorosas e mesquinhas das vielas napolitanas, Carmine parte não sem antes esmagar o bolinho das crianças sobre a mesa.


Logo em seguida,  uma vendedora de pizza, voluptuosa  e infiel  - Sofia Loren - perde a aliança de casamento numa das escapadas que dá à guisa de ir à missa, escapa para a loja do sapateiro. A cena final é fantástica: Depois de procurar na igreja, na casa do guarda noturno, e sabe la mais onde, Don Rosário, o marido corno, quase já desiste da busca, e eis que surge o sapateiro com o anel e um papinho mole de que tinha engolido o anel numa das pizzas que comprara com Don Rosario - que se gabava de vender fiado a todos. A essa altura já tem as rezadeiras, o padre, os vizinhos, um velho desdentado, e uma renga de gentes a procura do tal anel, seguindo-os pelas vielas de Napoles. Enquanto todos celebram o reaparecimento do anel, Don Rosario volta a conferir e não encontra o nome do sapateiro no caderninho da pindura. Vendo que a situação já se enrolava, São Pedro manda um chuvareu, e o velho desdentado grita: Olha a chuva! E aí foi cada um pro seu lado, pensando numa mulher ou num time... mas todo mundo feliz, ou pelos menos conformado com a explicação.


Num dos episódios mais  emocionantes e poéticos, uma criança morre numas das casas de cômodos da cidade. O coveiro baixas as inumeráveis escadas do sobrado com um caixãozinho branco. A mãe, massacrada pela dor da perda, ainda mantém a altivez de organizar o cortejo do funeral que atravessa toda a cidade,  adentra pela Vila Marina, sendo conduzido por cavalos. Ela faz questão que o cortejo desvie do mofo da obscuridade das vielas. E neste momento a estória se torna esplendorosa,  desprendendo toda uma cadeia de sentimentos dos mais desconhecidos em quem assiste esse episódio, quando a mãe do defunto começa a arremessar doces e balas para as crianças que assistem o cortejo, tornando-os solidários à sua incomensurável dor da perda. E só então ela chora incessantemente.


Os dois últimos episódios são igualmente inusitados e fantásticos a vez. 


O empobrecido e já meio tereré das idéias, o jogador inveterado Conde Prospero B. obrigando o filho pré-adolescente de seu porteiro a jogar cartas com ele, e perdendo todas. O casamento inesperado e inusitado de Teresa, uma prostituta, que é apresentada ao noivo no dia do casamento, já preparado para que tudo se parecesse a um casamento normal, com bolo, noivos, festa, padrinhos, convidados e votos de felicidades aos noivos. Aos poucos Teresa se vê numa espécie de cilada , farsa ou realidade paralela, quando Teresa passa a perceber uma certa esterilidade enjoativa no homem que está substituindo uma outra mulher, recentemente morta, e que tem próprios os pais da morta como convidados desse casamento surreal, feito as pressas, estão presentes apenas para receber uma espécie de indenização do noivo, futuro marido de Teresa. O episódio é extremamente surreal, mas de uma familiaridade arrebatadora apenas para os que crêem que a realidade e a ficção não passam de uma troca de sinais da alegoria. 


O último episódio trata das façanhas do “professor” Ersilio Miccio, um “vendedor de sabedoria” que “resolve problemas” das pessoas que o procuram, com conselhos certeiros sobre tudo. Ersílio, sabia que se conselho fosse bom se vendia, e portanto os vendia, e com grau de assertividade elevadíssimo. Apenas não o entendi o assovio que Ersílio aconselha, ao final da estória, e que supostamente seria o antídoto contra a tirania. Na certa, coisa de italiano que só os de Nápoles vão entender, mas certamente algo que não altera em nada o conjunto de um filme muito belo.


O filme, aparentemente despretensioso, é digno de aplauso. As estórias estão recheadas de personagens bufos, acintosos, parciais, mesquinhos, intrometidos, frágeis, grandiosamente compassivos e de uma disparidade interna desconcertante. Isso é De Sica, né?


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