MANUEL DE CASTRO

 



Título: Manuel de Castro
Dimensões: 9x9cm
Dimensões: 9x9cm
Técnica: Xilogravura
Data: Maio de 2022
 
Manuel de Amorim de Castro Cabrita morreu muito jovem, aos 36 anos, a 12 de Setembro de 1971, após 5 anos de sofrimentos, deixando esposa e duas filhas. Tendo estudado em seminários religiosos, tornou-se um homem de vasta cultura. Tinha grande facilidade com idiomas, tanto que nas férias de verão, ele e o padrinho, o então Ministro da Justiça Manuel Rodrigues, traduziam as notícias do Diário de Notícias para o latim, por pura diversão. Além do latim, dominava o espanhol, francês, inglês, italiano, alemão e o dialeto de Heidenheim, cidade em que viveu por 4 anos e acabou como interprete da polícia local, devido a quantidade de imigrantes de outras partes da Europa.

O poeta Manuel de Castro viveu os primeiros anos da infância em Goa, onde seu pai Henrique de Mesquita de Castro Cabrita era encarregado do Governo colonial, e depois viveu em Lourenço Marques, em Moçambique, para onde o pai foi transferido. De regresso a Lisboa, com a família, acaba por perder a mãe, Ana Maria Luísa Henriqueta de Mira Godinho Gomes da Costa Massano de Amorim de Mesquita de Castro Cabrita, aos 6 anos em circunstancias trágicas -  que uns dizem, vítima de feminicídio, espancada até à morte pelo marido, outros, suicídio. Sendo enviado dois anos mais tarde para o Seminário dos Padres da Consolata, uma ordem italiana recém chegada a Portugal. Sem vocação sacerdotal, foge do seminário, tornando-se nos aos seguintes um autêntico autodidata adquirindo conhecimentos em vários ramos das Humanidades e aprendendo vários idiomas. De volta à casa encontra o lugar da mãe preenchido por outra senhora, pouco hábil para gerir a situação, o que lhe causou novo choque emocional, atenuado anos mais tarde pelo nascimento de um irmão com quem estabeleceu laços mais fortes dos que sempre tivera com seu irmão Germano.

Em 1958 imprimiu o seu primeiro livro de poesia (A Zona), no mesmo ano aliás em que se casou com Maria Natália de Lima Freire de Castro, com quem teria duas filhas. O livro nunca foi comercializado e apenas oferecido a alguns amigos. Mais tarde publicou o Paralelo W com capa do desenhador [João Rodrigues (1937-1967)], e depois a Estrela Rutilante.  Estrela Rutilante, inclusive, fez parte de uma coletânea que está presente em três das quatro cartas dadas a conhecer por Helder Macedo, então em viagem a Londres, via África do Sul.

Com a repercussão de suas obras, abriu-se as portas para o mundo das letras e do jornalismo literário. Assim, tinha uma coluna nos jornais A República e o Diário de Lisboa. Publicou também no Diário Ilustrado - jornal de elites que teve curta duração, na Via Latina - jornal literário da Academia de Coimbra, e no Jornal do Fundão. Teve passagens pelo Notícias da Amadora e colaborou em outras revistas, tais como a revista Pirâmide (1959-1960) ao lado de nomes como a pintora Maria Helena Vieira da Silva, a poetisa Natália Correia, Edmundo de Bettencourt e outros grandes nomes da cultura portuguesa. E finalmente marcou presença nos Cadernos do Meio Dia, na Poesia 71, na Colóquio - Revista da Fundação Calouste Gulbenkian, na Árvore, na ETC, na Contraponto.
Como tradutor, fez várias traduções de livros, como por exemplo O Dossier do Catecismo Holandês, A Paixão do Incesto e obras do antropólogo Claude Levi Strauss, além de Expédition Orénoque - Amazone do poeta Alain Gheerbrant.

Castro foi um poeta de biografia curta, difícil e tempestuosa. Homem de vasto saber, teve um período escolar e acadêmico, em geral, tumultuado e irreverente, na busca perseverante por acumular conhecimentos. Como todo o autodidata, interessou-se por ramos de conhecimento que envolviam as humanidades, poesia, filosofia, literatura e línguas. Como já dito, dominava sete idiomas e mantinha uma relação de resistência com o mundo ao seu redor. Não raros são os comentários de amigos que se refiram ao seu alcoolismo e ao seu humor instável. Alguns contabilizavam a geniosa personalidade no trauma da perda da mãe. E exemplos não faltam no anedotário em torno a ele. Para alguns era extremamente tímido e sem jeito para o convívio social. Por exemplo, se alguém lia algum poema que não gostasse, não tinha papas na língua para demolir o declamador. Provocador, envolvia-se em brigas discussões grosseiras, bebia cada vez mais e mesmo já diagnosticado com a doença que o mataria, não parava de beber. Acabou por falecer em Lisboa a 12 de setembro de 1971, após 5 anos de porres, ressacas e sofrimentos.  

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