O Moleque

Xilogravura. Título.. Lima Barreto. Woodprint. 11x14". P.A. 1/1

O moleque é um conto irregular, mas muito legal de Lima Barreto. É cinematográfico, alias como quase tudo que ele escreve… vai por mim. O conto fala de bullying, de subúrbio, de religião, de racismo, de ritos de passagem com a beleza da ingenuidade que o cinema somente iria descobrir com neo-realismo italiano.   O narrador já sai de cara citando Elisee Reclus, geógrafo e anarquista militante, que tinha participado da Comuna de Paris. Vai vendo.  E argumenta que os nomes de lugares na Terra dos Papagaios, deveriam manter a grafia Tupy, por exprimirem melhor o sentido das coisas da natureza, tipo a cor da água, as formas dos rochedos nas montanhas, a vegetação e por aí vai. Mas, se você parar para pensar, essa preocupação de Barreto com a memória é política e faz muito sentido, já que  10 … 15 anos antes os republicanos refizeram bandeira, hino, símbolos nacionais, e até quase conseguiram apagar da memória que existiu escravidão na terra Brasil. 

No conto em si, ele vai traçando uma série de correlações geográficas e humanas, dentro do bairro de Inhaúma (!) um dos poucos bairros do subúrbio que na opinião dele guardavam nomes caboclos – subúrbio de gente pobre, cheio de velhas mangueiras, lugar de macumbas e feitiçarias.. Envolvido pela atmosfera da aldeia de Inhaúma, o leitor passa a conhecer o barracão em que mora D. Felismina – uma preta de meia idade, mas já sem atrativo algum - , espírita, mas contrária a bruxaria e ao feitiço. Vai vendo… Mais adiante, D. Emerenciana e Baiana que assim como D. Felismina, negras trabalhadoras que lavam roupas para fora para sobreviver.  José é o personagem central de uma história sem pai por perto. O moleque, em suas incursões à venda suburbana, onde costumava comprar sabão e, à casa dos fregueses nas quais costumava entregar as roupas limpas, é um garoto esperto e está ligado em tudo!  Nesse percurso, o garoto vai topando com uma série de figuras. Uma delas é o Coronel Castor (talvez uma espécie de Conde de Affonso Celso), que oferecera à sua mãe ajuda para que o garoto pudesse freqüentar a escola como os outros garotos de sua idade. Vai vendo….

O conto tem um acúmulo de sutilezas… que vão empilhando pequenas tensões.  Explico: Certo dia, José chega à casa do Coronel Castor chorando, sem querer revelar-lhe por que o fazia. O Coronel oferece-lhe uma fantasia de diabinho – era carnaval ishiquindôlêlê, aquela época do ano em que zera tudo -  em troca do seu segrego. Chegando em casa é recebido com desconfiança pela mãe, que sabia não ter o garoto dinheiro para comprar a fantasia. Um tanto constrangido pela desconfiança demonstrada pela mãe, tenta, ainda nervoso, esclarecer a situação: desejava assustar uns garotos, vizinhos do Coronel, que lhe tinham chamado de moleque, negro, gibi.
 Se esse conto daria um puta roteiro para um filme de neo-realismo (italiano), eu não tenho certeza, mas como sempre, tenho muitas desconfianças… sobre muita coisa…




O Moleque

Reclus, na sua Geografia Universal tratando do Brasil, notava a necessidade de conservarmos os nomes tupis dos lugares de uma terra. Têm eles, diz o grande geógrafo, a vantagem de possuir quase todos um sentido claro, muito claro, nas suas palavras, exprimindo algum fato da natureza, a cor das águas correntes, a altura, a forma ou o aspecto dos rochedos, a vegetação ou a aridez da região. No Rio de janeiro, há de fato nomes tupis tão eloquentes, para traduzir a forma ou o encanto dos lugares, que ficamos pasmos, quando lhes sabemos a significação, com o poder poético, com a força de emoção superior de que eram capazes os primitivos canibais habitantes desta região, diante dos aspectos da natureza tão bela e singular que é a que cerca e limita nossa cidade. Bastam os nomes da baía. Como não traduz bem a sua sedução, o seu recato, a sua fascinação, o nome: Guanabara — seio do mar? E se o mar abriu aqui um seio foi para nele esconder as suas águas.

— Niterói — água escondida.

Esses nomes tupis, nos acidentes naturais das cercanias da cidade, são os documentos mais antigos que ela possui das vidas que aqui floresceram e morreram. Edificada em um terreno que é o mais antigo do globo, nos depósitos sedimentares das velhas regiões, até hoje não se encontram vestígios quaisquer da vida pré-histórica. A terra é velha, mas as vidas que viveram nela não deixaram, ao que parece, nenhum traço direto ou indireto de sua passagem. Os mais antigos testemunhos das existências anteriores às nossas, que por aqui passaram, são esses nomes em linguagem dos índios que habitavam estes lugares; e são assim bem recentes, relativamente.

Há, parece, na fatalidade destas terras, uma necessidade de não conservar impressões das sucessivas camadas de vida que elas deviam ter presenciado o desenvolvimento e o desaparecimento. Estes nomes tupaicos mesmo tendem a desaparecer, e todos sabem que, quando uma turma de trabalhadores, em escavações de qualquer natureza, encontra uma igaçaba, logo se apressam em parti-la, em destruí-la como coisa demoníaca ou indigna de ficar entre os de hoje. A pobre talha mortuária dos tamoios é sacrificada impiedosamente.

Frágeis eram os artefatos dos índios e todas as suas outras obras; frágeis são também as nossas de hoje, tanto assim que os mais antigos monumentos do Rio são de século e meio; e a cidade vai já para o caminho dos quatrocentos anos.

O nosso granito vetusto, tão velho quanto a terra, sobre o qual repousa a cidade, capricha em querer o frágil, o pouco duradouro. A sua grandeza e a sua antiguidade não admitem rivais.

Ainda hoje esse espírito do lugar domina a construção dos nossos edifícios públicos e particulares, que estão a rachar e a desabar, a todo instante. E como se a terra não deseje que fiquem nela outras criações, outras vidas, senão as florestas que ela gera, e os animais que nestas vivem.

Ela as faz brotar, apesar de tudo, para sustentar e ostentar um instante, vidas que devem desaparecer sem deixar vestígios. Estranho capricho...

Quer ser um recolhimento, um lugar de repouso, de parada, para o turbilhão que arrasta a criação a constantes mudanças nos seres vivos; mas só isto, continuando ela firme, inabalável, gerando e recebendo vidas, mas de tal modo que as novas que vierem não possam saber quais foram as que lhes antecederam.

Desde que as suas rochas surgiram, quantas formas de vida ela já viu? Inúmeras, milhares; mas de nenhuma quis guardar uma lembrança, uma relíquia, para que a Vida não acreditasse que podia rivalizar com a sua eternidade.

Mesmo os nomes índios, como já foi observado, se apagam, vão se apagando, para dar lugar a nomes banais de figurões ainda mais banais, de forma que essa pequena antiguidade de quatro séculos desaparecerá em breve, as novas denominações talvez não durem tanto.

Nenhum testemunho, dentro em pouco, haverá das almas que eles representam, dessas consciências tamoias que tentaram, com tais apelidos, macular a virgindade da incalculável duração da terra. Sapopemba é já um general qualquer, e tantos outros lugares do Rio de janeiro vão perdendo insensivelmente os seus nomes tupis.

Inhaúma é ainda dos poucos lugares da cidade que conserva o seu primitivo nome caboclo, zombando dos esforços dos nossos edis para apagá-lo.

E um subúrbio de gente pobre, e o bonde que lá leva atravessa umas ruas de largura desigual, que, não se sabe por que, ora são muito estreitas, ora muito largas, bordadas de casas e casitas sem que nelas se depare um jardinzinho mais tratado ou se lobrigue, aos fundos, uma horta mais viçosa. Há, porém, robustas e velhas mangueiras que protestam contra aquele abandono da terra. Fogem para lá, sobretudo para seus morros e escuros arredores, aqueles que ainda querem cultivar a Divindade como seus avós. Nas suas redondezas, é o lugar das macumbas, das práticas de feitiçaria com que a teologia da polícia implica, pois não pode admitir nas nossas almas depósitos de crenças ancestrais. O espiritismo se mistura a eles e a sua difusão é pasmosa. A Igreja católica unicamente não satisfaz o nosso povo humilde.

É quase abstrata para ele, teórica. Da divindade, não dá, apesar das imagens, de água benta e outros objetos do seu culto, nenhum sinal palpável, tangível de que ela está presente. O padre, para o grosso do povo, não se comunica no mal com ela; mas o médium, o feiticeiro, o macumbeiro, se não a recebem nos seus transes, recebem, entretanto, almas e espíritos que, por já não serem mais da terra, estão mais perto de Deus e participam um pouco da sua eterna e imensa sabedoria.

Os médiuns que curam merecem mais respeito e veneração que os mais famosos médicos da moda. Os seus milagres são contados de boca em boca, e a gente de todas as condições e matizes de raça a eles recorre nos seus desesperos de perder a saúde e ir ao encontro da Morte. O curioso — o que era preciso estudar mais devagar — é o amálgama de tantas crenças desencontradas a que preside a Igreja católica com os seus santos e beatos. A feitiçaria, o espiritismo, a cartomancia e a hagiologia católica se baralham naquelas práticas, de modo que faz parecer que de tal baralhamento de sentimentos religiosos possa vir nascer uma grande religião, como nasceram de semelhantes misturas as maiores religiões históricas.

Na confusão do seu pensamento religioso, nas necessidades presentes de sua pobreza, nos seus embates morais e dos familiares, cada uma dessas crenças atende a uma solicitação de cada uma daquelas almas, e a cada instante de suas necessidades.

A gravidade de pensamento que todo esse espetáculo provoca e as lembranças históricas que acodem fazem perguntar se a terra que não tem querido guardar na sua grandeza traços das vidas e das almas que por elas têm passado, ainda desta vez, não consentirá que fiquem vestígios, pegadas, impressões das atuais que, nela, hoje sofrem e mergulham, a seu modo, no Mistério que nos cerca, para esquecê-las soturnamente; e pensa-se isto sob a luz do sol, alegre, clara, forte e alta, que recorta no céu azul as montanhas que se alongam para tocá-lo, tal como se vê nesse lugar de Inhaúma, antiga aldeia de índios, a serra dos Órgãos, solene, soberba...

Numa das ruas desse humilde arrebalde, antes trilho que mesmo rua, em que as águas cavaram sulcos caprichosos, todo ele bordado de maricás que, quando floriam, tocavam-se de flocos brancos, morava em um barracão dona Felismina.

O "barracão" é uma espécie arquitetônica muito curiosa e muito especial àquelas paragens da cidade. Não é a nossa conhecida choupana de sapê e de paredes "a sopapos". É menos e é mais. É menos, porque em geral é menor, com muito menos acomodações; e mais, porque a cobertura é mais civilizada; é de zinco ou de telhas. Há duas espécies. Em uma, as paredes são feitas de tábuas; às vezes, verdadeiramente tábuas; em outras, de pedaços de caixões. A espécie, mais aparentada com o nosso "rancho" roceiro, possui as paredes como este: são de taipa. Estes últimos são mais baixos e a vegetação das bordas das ruas e caminhos os dissimula, aos olhos dos transeuntes; mas aqueles têm mais porte e não se envergonham de ser vistos. Há alguns com dois aposentos; mas quase sempre, tanto os de uma como de outra espécie, só possuem um. A cozinha é feita fora, sob um telheiro tosco, um puxado no telhado da edificação, para aproveitar o abrigo de uma das paredes da barraca; e tudo cercado do mais desolador abandono. Se o morador cria galinhas, elas vivem soltas, dormem nas árvores, misturam-se com as dos vizinhos e, por isso, provocam rixas violentas entre as mulheres e maridos, quando disputam a posse dos ovos.

Por vezes, no fundo, na frente ou aos lados deles, há uma árvore de mais vulto: um cajueiro, um mamoeiro, uma pitangueira, uma jaqueira, uma laranjeira; mas nenhum sinal de amanho do terreno, de tentativa de cultura, a não ser um canteirozinho com uns pés de manjericão ou alecrim. Isto às vezes; e, às vezes também, uma touceira de bananeira.

A guaxima cresce, e o capim, e a vassourinha, e o carrapicho e outros arbustos silvestres e tenazes.

O barracão de dona Felismina era de um só aposento, mas o da vizinha, dona Emerenciana, tinha dous. Eram ambos da primeira espécie. Dona Emerenciana era casada com o senhora Romualdo, servente ou coisa que o valha em uma dependência da grande oficina do Trajano. Era preta como dona Felismina e honesta como ela. Defronte ficava a residência da Antônia, uma rapariga branca, com dois filhos pequenos, sempre sujos e rotos. A sua residência era mais modesta: as paredes do seu barraco eram de taipa.

A vizinhança, ao mesmo tempo que falava dela, tinha-lhe piedade:

— Coitada! Uma desgraçada! Uma perdida!

Era bem nova ela, mas fanada pelo sofrimento e pela miséria. Com os seus vinte e poucos anos de idade, de boas feições, mesmo delicadas, a sua história devia ser a triste história de todas essas raparigas por aí...

Mal comendo, ela e os filhos; mal tendo com que se cobrir, todas as manhãs, quando saía a comprar um pouco de café e açúcar, na venda do Antunes, e, na padaria do Camargo, um pão — que lhe teria custado, quem sabe! que profunda provação no seu pudor de mulher, para ganhá-lo — não se esquecia nunca de colher pelo caminho uns "boas-noites", umas flores de melão-de-são-caetano, de pinhão, de quaresma, de manacás, de maricás — o que encontrasse – para enfeitar-se ou trazê-las nas mãos, em ramilhete.

Todos da rua dos Maricás — era este o nome daquele trilho de Inhaúma — conheciam-lhe a vida, mas com a piedade e compaixão próprias à ternura do coração do povo humilde pela desgraça, tratavam-na como outra fosse ela e a socorriam nas suas horas de maiores aflições. Só o Antunes, o da venda, com o seu empedernido coração de futuro grande burguês, é que dizia, se lhe perguntavam quem era:

— Uma vagabunda.

Dona Felismina gozava de toda a consideração nas cercanias e até de crédito, tanto no Antunes, como no Camargo da padaria. Além de lavar para fora, tinha uma pequena pensão que lhe deixara o marido, guarda-freios da Central, morto em um desastre. Era uma preta de meia-idade, mas já sem atrativo algum. Tudo nela era dependurado e todas as suas carnes, flácidas. Lavava todo o dia e todo o dia vivia preocupada com o seu humilde mister. Ninguém lhe sabia uma falta, um desgarro qualquer, e todos a respeitavam pela sua honra e virtude. Era das pessoas mais estimadas da ruela e todos depositavam na humilde crioula a maior confiança. Só a Baiana tinha-a mais. Esta, porém, era "rica". Morava em uma das poucas casas de tijolo da rua dos Espinhos, casa que era dela. Vendedora de angu, em outros tempos, conseguira juntar alguma coisa e adquirira aquela casita, a mais bem tratada da rua. Tinha "homem" enquanto lhe servia; e, quando ele vinha aborrecê-la mandava-o embora, mesmo a cabo de vassoura. Muito enérgica e animosa, possuía uma piedade contida que se revelou perfeitamente numa aventura curiosa de sua vida. Uma manhã, havia cinco ou seis anos, saindo com o seu tabuleiro de angu, encontrou em uma calçada um embrulho um tanto grande. Arriou o tabuleiro e foi ver o que era. Era uma criança, branca — uma menina. Deu os passos necessários e criava a criança, que, nas imediações, era conhecida por "Baianinha". E, ao ir às compras na venda, o caixeiro lhe dizia por brincadeira:

— "Baianinha", tua mãe é negra.

A pequena arrufava-se e respondia com indignação:

— Negra é tu, "seu" burro!

A Baiana, porém, era "rica", estava mais distante. Dona Felismina, porém, ficava mais próximo da vida de toda aquela gente da rua. Os seus conselhos eram ouvidos e procurados, e os seus remédios eram aceitos como se partissem da prescrição de um doutor. Ninguém como ela sabia dar um chá conveniente, nem aconselhar em casos de dissídias domésticas. Detestava a feitiçaria, os bruxedos, os macumbeiros, com as suas orgias e barulhadas; mas, inclinava-se para o espiritismo, frequentando as sessões do "seu" Frederico, um antigo colega do seu marido, mas branco, que morava adiante, um pouco acima. Além da medicina de chás e tisanas, ela aconselhava àquela gente os medicamentos homeopáticos. A beladona, o acônito, a briônia, o súlfur, eram os seus remédios preferidos e quase sempre os tinha em casa, para o seu uso e dos outros.

Certa vez salvou um dos filhos da Antônia de uma convulsão e esta lhe ficou tão grata que chegou a prometer que se emendaria.

Dona Felismina morava com o seu filho José, o Zeca, um pretinho de pele de veludo, macia de acariciar o olhar, com a carapinha sempre aparada pelos cuidados da mão de sua mãe, e também com as roupas sempre limpas, graças também aos cuidados dela.

Tinha todos os traços de sua raça, os bons e os maus; e muita doçura e tristeza vaga nos pequenos olhos que quase ficavam no mesmo plano da testa estreita.

Era-lhe este seu filho o seu braço direito, o seu único esteio, o arrimo de sua vida com os seus nove ou dez anos de idade. Doce, resignado, e obediente, não havia ordem de sua mãe que ele não cumprisse religiosamente. De manhã, o seu encargo era levar e trazer a roupa dos fregueses; e ele carregava os tabuleiros de roupa e trazia as trouxas; sem o mais pequeno desvio de caminho. Se ia à casa do "seu" Carvalho, ia até lá, entregava ou recebia a roupa e voltava sem fazer a menor traquinada, a menor escapada de criança por aquelas ruas que são mais estradas que rua mesmo. Almoçava e a mãe quase sempre precisava:

— Zeca, vai à venda e traz dois tostões de sabão "regador".

Na venda, entre todo aquele pessoal tão especial e curioso das vendas suburbanas: carroceiros, verdureiros, carvoeiros, de passagens; habitues do parati, como os há na cidade de chope; conversadores da vizinhança, gente sem ter que fazer que não se sabe como vive, mas que vive honestamente; um ou outro degradado da sua condição anterior ou nascimento — entre toda essa gente, Zeca era mais imperioso e gritava:

— Caixeiro, "mi" serve já dois tostões de sabão "regador"!

Se o caixeiro estava atendendo à dona Aninha, mulher do servente dos telégrafos, Fortes, e não vinha atendê-lo logo, Zeca insistia, fingindo-se irritado:

— "Mi despache", caixeiro! dois tostões de sabão "regador".

"Seu" Eduardo, o caixeiro, que era bom e habituado a suportar a insolência dos pequenos que vão às compras, fazia docemente:

— Espere, menino. Você não vê que estou servindo, aqui, a dona Aninha!

A mãe tinha vontade de pô-lo no colégio; ela sentia a necessidade disso todas às vezes que era obrigada a somar os róis. Não sabendo ler, escrever e contar, tinha que pedir a "seu" Frederico, aquele "branco" que fora colega de seu marido. Mas, pondo-o no colégio, quem havia de levar-lhe e trazer-lhe a roupa? Quem havia de fazer-lhe as compras?

À tarde, Zeca descansava, brincava com as crianças do lugar um pouco; mas, ao anoitecer, já estava perto da mãe que remendava a roupa dos fregueses, à luz do lampião de querosene, cuja fumaça enegrecia o zinco do teto do barracão.

Se bem fosse com a mãe todos os meses receber a módica pensão que o pai deixara, na Caixa dos Guarda— Freios, o seu sonho não era viver no centro da cidade, nas suas ruas brilhantes, cheias de bondes, automóveis, carroças e gente. Zeca desprezava aquilo tudo. O seu sonho era o Engenho de Dentro e o seu cinema. Ter dinheiro, para ir sempre a ele, ver-lhe instantemente as "fitas" que os grandes cartazes anunciavam e o tímpano a soar continuamente insistia no convite de vê-las. Quando sua mãe permitia, aos domingos, com outra criança ajuizada da vizinhança, ia até à estação, até lá, defronte do fascinante cinema. Encostava-se, então, à grade da estrada de ferro e ficava a olhar, no alto, minutos a fio, aqueles grandes painéis, cheios de grandes figuras, deslumbrantes na sua cercadura de lâmpadas elétricas, como se tudo aquilo fosse uma promessa de felicidade. Como atingiria aquilo? O céu talvez não fosse mais belo... Em cima dos seus tamancos domingueiros, com o terno de casimira que a caridade do coronel Castro lhe dera, e a tesoura de sua mãe adaptara a seu corpo, ele, fascinado, não pensava senão naquele cinema brilhante de luzes e apinhado de povo. Nem o apito dos trens o distraía e só a passagem dos bondes elétricos aborrecia-o um pouco, por lhe tirar a vista do divertimento. Não tinha inveja dos que entravam; o que ele queria era entrar também.

Como havia de ser uma "fita”? As moças se moviam sob luzes? Como faziam-nas grandes, parecidas? Como apareciam os homens tal e qual? As árvores e as ruas? E sem falar, como é que tudo aquilo falava?

Podia ter dinheiro para ir, pois, em geral, sempre os fregueses de sua mãe lhe davam um níquel ou outro; mas, mal os apanhava, levava-os à mãe que sempre andava necessitada deles, para a compra do trincal, do polvilho, do sabão e mesmo para a comida que comiam. Distraí-los com o cinema seria feio e ingratidão para com a sua mãe. Um dia havia de ir ao cinema, sem sacrificá-la, sem enganá-la, como mau filho. Ele não o era como o Carlos que furtava os do próprio pai...

Zeca, por seu procedimento, pela sua dedicação à mãe, era muito estimado de todos e todos lhe davam gratificações, gorjetas, balas, frutas, quando ia entregar ou buscar a roupa.

Muitos se interessavam com a mãe, para pô-lo em um recolhimento, em um asilo; ela, porém, embora quisesse vê-lo sabendo ler, sempre objetava, e com razão, a necessidade que tinha dos seus serviços, pois era este seu único filho o braço direito dela, seu único auxílio, o seu único "homem".

Uma vez quase cedeu. O seu" Castro, o coronel, empregado aposentado da alfândega, conhecido em Inhaúma pelo seu gênio benfazejo e seu infortúnio com os filhos e filhas, viera-lhe até à sua própria casa, até àquele barracão, naquela modesta rua, bordada de um lado e outro de sebes de maricás e de "pinhão", e expôs-lhe a que vinha. Dona Felismina respondeu-lhe com lágrimas nos olhos:

— Não posso, "seu" coronel; não posso... Como hei de viver sem ele? É ele quem me ajuda... Sei bem que é preciso aprender, saber, mas...

— Você vai lá para casa, Felismina; e não precisa estar se matando.

Titubeou a rapariga e o velho funcionário compreendeu, pois desde há muito já tinha compreendido, na gente de cor, especialmente nas negras, esse amor, esse apego à casa própria, à sua choupana, ao seu rancho, ao seu barracão — uma espécie de protesto de posse contra a dependência da escravidão que sofreram durante séculos. Apesar da recusa, o coronel Castro, em quem a idade e as desgraças domésticas tinham mais enchido de bondade o seu coração naturalmente bom, nunca deixou de interessar-se pela criança, que o penalizava excessivamente. A sua meiguice, a sua resignação, aquele árduo trabalho diário para a sua idade eram motivos para que o velho e tristonho aposentado sempre a olhasse com a mais extremada simpatia. Quando o pretinho ia à sua casa levar-lhe a sua ou a roupa das filhas, dava-lhe sempre qualquer coisa, puxava-lhe a língua, perguntava-lhe pelas suas necessidades.

Certo dia, em começo do ano, o pequeno Zeca chegou-lhe em casa com a fisionomia um tanto transtornada. Parecia ter chorado e muito. O coronel, homem para quem, como disse um sábio, não havia nada insignificante e desprezível que pudesse causar dor ou prazer à mais humilde criatura, que não merecesse a atenção do filósofo — o coronel interrogou-o sobre o motivo de sua mágoa.

— Foi tua mãe?

— Não, "seu" coronel.

— Que foi, então, Zeca?

O pequeno não quis dizer e não cessava de olhar o chão, de encará-lo, de cravá-lo, de cavá-lo, de enterrar toda a sua vida nele. Zeca estava na varanda de uma velha casa de fazenda, como ainda as há muito por lá, varanda em parapeito e colunas, no clássico estilo dessas velhas habitações; o coronel nela também estava lendo os jornais, na cadeira de balanço, e só deixara a leitura quando avistou o pequeno que subia a ladeira com o tabuleiro de roupa à cabeça.

A atitude do pequeno, a sua recusa em confessar o motivo do seu choro e o seu todo de desalento fizeram que o velho funcionário, já por ternura natural, já por bondosa curiosidade, procurasse a causa da dor que feria tão profundamente aquela criança tão pobre, tão humilde, tão desgraçada, quase miserável.

— Dize, Zeca. Dize que eu te darei uma vestimenta de "diabinho" no Carnaval que está aí.

O pretinho levantou a cabeça e olhou com um grande e brusco olhar de agradecimento, de comovido agradecimento àquele velho de tão belos cabelos brancos.

Confessou; e Castro nada disse a ninguém da humilde e ingênua confissão do pretinho Zeca.

Aproximou-se o Carnaval; e, quando foi sábado, véspera dele, dona Felismina retirou mais cedo dos arames a roupa branca que estivera a secar.

Atarefada com esse serviço, ela não viu que o seu filho entrara-lhe pelo barracão adentro, sobraçando um embrulho guizalhante e um outro, com rasgões no papel, por onde saíam recurvados chifres e uma formidável língua vermelha. Era uma horrível máscara de "diabo".

Dona Felismina veio para o interior do barracão; e pôs-se a arrumar a roupa seca ou corada. Zeca, distraído, no outro extremo do aposento, não a viu entrar e, julgando-a lá fora, desembrulhou os apetrechos carnavalescos. Sobre a humilde e tosca mesa de pinho estendeu uma rubra vestimenta de ganga rala e uma máscara apavorante de olhos esbugalhados, língua retorcida e chifres agressivos, apareceu tão amedrontadora que se o próprio diabo a visse teria medo.

A mãe, ao barulho dos guizos, virou-se, e, vendo aquilo, ficou subitamente cheia de más suspeitas:

— Zeca, que é isso?

Uma visão dolorosa lhe chegou aos olhos, da casa de detenção, das suas grades, dos seus muros altos... Ah! meu Deus! Antes uma boa morte!... E repetiu ainda mais severamente:

— Que é isso, Zeca? Onde você arranjou isso?

— Não... mamãe... não...

— Você roubou, meu filho?... Zeca, meu filho! Pobre, sim; mas ladrão, não! Ah! meu Deus!... Onde você arranjou isso, Zeca?

A pobre mulher quase chorava e o pequeno, transido de medo e com a comoção diante da dor da mãe, balbuciava, titubeava e as palavras não lhe vinham. Afinal, disse:

— Mas... mamãe... não foi assim...

— Como foi? Diz!

— Foi "seu" Castro quem me deu. Eu não pedi...

Dona Felismina sossegou e o pequeno também. Passados instantes, ela perguntou com outra voz:

— Mas para que você quer isso? Antes tivesse dado a você umas camisas... Para que essas bobagens? Isso é para gente rica, que pode. Enfim...

— Mas, mamãe, eu aceitei, porque precisava.

— Disto! Ninguém precisa disto! Precisa-se de roupa e comida... Isto são tolices!

— Eu precisava, sim senhora.

— Como, você precisava?

— Não lhe contei que há meses, diversas vezes, quando passava, para ir à casa de dona Ludovina, diante do portão do capitão Albuquerque, os meninos gritavam: ó moleque! — ó moleque! – o negro! — ó gibi!? Não lhe contei?

— Contou-me; e daí?

— Por isso quando o coronel me prometeu a fantasia, eu aceitei.

— Que tem uma coisa com a outra?

— Queria amanhã passar por lã e meter medo aos meninos que me vaiaram

Música do dia. Bola de Meia, Bola de gude. Milton Nascimento

Dicas de otimismo em tempos de Pandemia



Tem bem uns cinco anos que estou vivendo aqui, na California, e nesse tempo  aprendo e percebo coisas curiosas sobre o otimismo. Esse lugar aqui tem Santa Barbara, Surfistas, tecnologia, freeways rápidas, Santa Mônica, mulheres peitudas, Hollywood, praias lindas, carros intocáveis, artistas pra caramba, mão de obra barata, poucos casos de Corona, enfim... um lugar que tem tudo para dar certo.  Parece que aqui nunca ninguém se separou, nunca faliu, nunca foi racista, nunca perdeu um ente, nunca foi imigrante, nunca viu um amor acabar, nunca pegou num livro na vida, parece que não tem pobre, nem triste, nem cholo, nem doente, nem velho, nem pessimista.  Tenho a vaga impressão de que aqui não existem pessimistas. Ou se existem, dissimulam sua tristeza com um sorriso embrulhado naquele papel fininho do entusiástico e confiante  "good morning". Preciso deixar claro que sou um pessimista no meio de toda essa gente, e preciso deixar mais claro ainda que isso não me incomoda nem um pouco.

Antes de mais nada, no caso de opinião contraria à minha, é importante que você tenha em mente que a despeito do otimismo reinante, que por mais que você queira  se assumir com um ar de forçada felicidade e jovialidade - farsas, alías, facilmente detectáveis - todos , na minha opinião, são intimamente pessimistas. Inclusive voce, seu/sua idiota, com um sorriso no rosto. Sustento meu argumento com a prática dos retóricos em revogar meu próprio argumento: vivemos, sim, num mundo de pessimistas, por que só é otimista quem acredita no otimismo. E eu tenho um faro danado para identificar idiotas crentes, basta dar três olhadas rápidas no fundo de seus olhos.

Acaso, tenho certeza, que como eu, já provaste, mesmo que por instantes, naquele dia em que acordas com o pé esquerdo, suspender toda essa tola cordialidade que rege tuas relações cotidianas com os demais. Ao invés dela, optas por um modo grave e honesto de mau humor no viver. Nem bom dia dás! Eu mesmo, já o fiz várias vezes, e uma vez, por exemplo, quando  levei Lucíola, minha vira-lata, para desonerar seus intestinos nas redondezas da casa, pela manhã, uma vizinha desejou-me 'bom-dia' com aquela pretensa expressão jovial que imediatamente discerni ser a máscara por trás daquela vida suburbana, amarela, vanilla,  meio merda que ela leva, temporária de seus verdadeiros e angustiantes anelos. Ao invés de retribuir-lhe o mesmo 'bom dia' fiz questão de olhar fixamente nos olhos, como se comunicasse a ela que estava a par de seu segredo. Desde então, essa senhora nunca mais tratou-me com os mesmos ares cordiais, mas ao contrário, tem feito o possível para me evitar  e se me encontra num mesmo ambiente, sempre desvia o olhar.

Esse meu experimento sociológico é vocacional. Funciona. Me faz bem. É terapêutico. Fez-me perceber que todos tendem ao mesmo comportamento de medo e defesa, assim que percebo essa última e delirante forma de esperança, fecho a cara e corto logo o mal pela raiz, pois é comum ao gênero humano o não suportar a realidade. Mas nós, os pessimistas, enfrentamos sérios problemas, também.

Certo dia, encontrei-me utilizando meus métodos com um senhor que me parecia bastante distinto, o qual ao perguntar-me 'qual era o meu problema', deu-me o vislumbre de finalmente ter encontrado alguém cuja visão de mundo compartilhasse da mesma amplitude que a minha, e ao redarguir-lhe com a proposta de que 'dissesse o seu problemas antes', esse distinto senhor quis dar-me um soco bem o meio da cara, tamanho era seu desespero interior. Inapto, pelo provável glaucoma, pela limitação da idade, pelo insucesso do seu jab, e desconhecendo minha admiração por Beethoven e Muhamad Ali, frustrado, apenas desferiu-me palavras de baixo calão: Fuck you! O you, no caso, era direcionado a mim.

Em outras ocasiões, ocorreram situações similares. Uma garotinha, aparentemente feliz com seu pirulito de dez cores, enorme, maior que sua cara, brincando com suas boneca nova, num parque, correu aos prantos na direção de sua mãe, tecnicamente considerada uma milf, quando eu lhe disse que açúcar causa diabetes, e que consequentemente a glicose inchará suas pernas e  limitará  sua visão corroborando para outras comorbidades. Por essas e por outras , passei a ser persona non grata aqui na minha quebrada. Vizinhos atravessarem a rua, quando assoma minha figura dobrando a esquina.

O modo como os otimistas estão por toda a parte, sem encontrar uma única exceção entre eles , é algo deveras assombroso, e sendo eu talvez uma das poucas pessoas no mundo a saber com exatidão de tal fato, eu jamais consigo resistir à tentação em desvelar-lhes o segredo de que não há a mínima certeza em nenhum futuro.

E além do mais, ser pessimista é bem melhor, por que a gente sempre fica feliz: quando acerta e até quando erra.

Música do dia . Ludwig van Beethoven '  Grosse Fuge, Op. 133

A solidão de Stockmann




...apagar o passado recente que nos interpela com seu rol de vigarices e preconceitos, é apagar uma série de eventos e fatos inequívocos que tramaram contra a Democracia desde o dia 2 de dezembro de 2015... por isso eu me pergunto:  por que tanta inquietação contra o Presidente Jair Messias Bolsonaro? Por que só agora? Estranho, não... 

...apagar este passado é insistir, como disse Freud, em que todo o esquecimento é intencional... é apagar a intolerância contra a amplidão dos Direitos Humanos... é apagar o conceito Ditadura, da nossa Ditadura, pelas mesmas razões... é apagar convenientemente o conceito de corrupção das chamadas rachadinhas... é não permitir que um Ministro da Justiça nos contamine com seu insistente falso moralismo... e, por falar em moralismo, é conveniente não esquecer de nosso lixo imoral e da impunidade pelo derramamento de óleo na costa, pela diplomacia entreguista, pelos incêndios na terra dos Amazonidas, pelos 35 milhões de analfabetos funcionais, pelas infecções e mortes decorrentes das epidemias de Chikungunya e dengue, pela morte de Marielle Franco, pelas mortes de líderes camponeses e indígenas, pela retórica vazia de Mandetta e Teich, lobistas do mercado da morte na Saúde Pública, pelos 15% de desemprego,  pelas mortes acumuladas decorrentes de assaltos e balas perdidas, pelos massacres em rebeliões de cadeias, pela criminalização do aborto, pelo desmonte sistemático do SUS e a privatização da saúde, pelos 15 milhões de analfabetos, pela soma de todos os bens produzidos não passar de pífio PIB de 1.9%, pelas milícias policiais e digitais, coordenadas pelo gabinete do ódio, que desestabilizam até as forças armadas, pelo messianismo político, pelo dólar a R$ 5,00, pela reforma da previdência, por vermes como Guedes, Damares, Sales e Weintraub, pela crise sanitária, por 48 milhões de cidadão sem esgoto e água tratada, pelo golpismo escrachado no impeachment de Dilma - que alguns chamaram pedagógico -, e last but no least, pela dispensa criminal de isolamento na pandemia de SARS-CoV-2...

...etc. etc. etc...

.. a lista de tudo que já se sabia há tempos, não tem fim...

Elogio da morte





A Morte do Rubem Fonseca, me fez lembrar de Lima Barreto. Não sei bem por que, não me perguntem, tampouco estou com paciência para análises das associações livres de minhas idéias e devaneios. Freud diz que, na prática da análise, na associação livre de idéias do paciente é impossível não dizer a verdade, inclusive quando nos equivocamos ou tentamos mentir deliberadamente. Isso é coisa que gente muita versada no austríaco, descolada e inteligente, chama de recalque do reprimido. 


Em outras palavras, algumas verdades podem ser ditas, assim meio sem querer, principalmente numa semana em que partem para o outro lado do espelho Garcia Roza, Rubem Fonseca, Moraes Moreira, e que Aldir Blanc anda balançando numa corda bamba. A propósito, para um cara raso como eu, o recalque psiquico, essa coisa de expulsar da consciência o que parece intoleravel,  pode bem estar é no valete, no meio das cartas, no jogo de búzios, no risco da pemba, no giro da pomba, no som do atabaque… vai por mim, tá la.


Nota: Se eu pudesse ser um ASPONE[ Assessor de Porra nenhuma] de Deus, eu sugeriria ao Senhor que levasse logo esse tal de Olavo de Carvalho. Vai Oxalá… dá uma força ai… o cara é fumante, só fala merda, e é um cara do mal… vai por mim... o senhor sabe disso…


Mas voltando ao tema, não me parece crível, que nos Compêndios de Literatura Brasileira, coloquem na mesma cumbuca do chamado pré-modernismo Euclides da Cunha que cometeu aquele intragável capítulo A Terra no grandíssimo Os Sertões; Monteiro Lobato, uma espécie de matuto ilustrado com vocação para o lucro e sempre mais político, sempre mais empresário, que escritor;  Augusto dos Anjos, que só por Eu, já o tiraria desse grupo nefasto;  e por fim a tríade Graça Aranha, Raul de Leôni e Simões Lopes Neto  -  que sinceramente nunca li e nunca os lerei por algo que me parece preconceituoso em mim: eu achava que Canaã, seria um livro chato, antes de começar a folheá-lo. Depois tive a certeza de que meu preconceito passou a ser um conceito. Canaã é realmente um treco chato pra cacete! 


Portanto, me fazer tentar crer que Graça Aranha e Simões Lopes Neto possam estar ao lado de Lima Barreto… sinceramente… No cú pardal! Mas nem fodento!


A distância entre o intelectual e a realidade, na escrita do Lima Barreto, assim como na de Rubem Fonseca, está muito acima destes camaradas. Ela é dada por uma espécie de descrença metódica alimentada pelos indicadores da rua. A desconfiança da ação de um cara que transita pelas ruas, como um estranho, trespassado de dúvidas, constatando mazelas, sendo discriminado pelo mercado editorial, no caso de Lima e pela Academia, no caso de Rubem, mostram bem a que vieram os dois no panorama da literatura brasileira: são inclassificáveis pontos fora da curva. 


Dentre as muitas crônicas de Lima Barreto, uma das, talvez não a mais impactante mas muito gráfica, que li há uns 27 anos, seja a Elogio da Morte. Essa crônica é de setembro ou outubro de 1918 (não lembro), portanto 10 anos após a morte de Machado de Assis – e talvez por isso o fechamento dela tal como se dá. Neste mesmo ano, um Lima Barreto de 37 anos, alcoólatra, já com algumas internações, começa uma série de correspondências com o contemporâneo “novo rico”  Monteiro Lobato, que acabara de comprar a Revista do Brasil e que com tremendo faro empresarial se interessava pelo Vida e Morte de M.J.Gonzaga de Sá. Lobato prometera que publicaria mais coisas de Lima. Mentiu safadamente. Lima, iludido, se entusiasmara com a ideia e passou a escrever-lhe com frequência. Fazendo inclusive resenhas de escritores iniciantes, promovendo a editora do H. G Wells de Taubaté. Com o tempo, após a primeira publicação, e uma premiação pela Academia Brasileira de Letras, na qual Lima foi barrado anos antes, Lobato passou a ignorar as cartas deste, que morreria 3 anos depois, alcoólatra, abandonado, esquecido, desvalorizado e claro, amargado pelas putarias da vida e do universo literário.



Elogio da morte



Não sei quem foi que disse que a Vida é feita pela Morte. É a destruição contínua e perene que faz a vida.

A esse respeito, porém, eu quero crer que a Morte mereça maiores encômios.

É ela que faz todas as consolações das nossas desgraças; é dela que nós esperamos a nossa redenção; é ela a quem todos os infelizes pedem socorro e esquecimento.

Gosto da Morte porque ela é o aniquilamento de todos nós; gosto da Morte porque ela nos sagra. Em vida, todos nós só somos conhecidos pela calúnia e maledicência, mas, depois que Ela nos leva, nós somos conhecidos (a repetição é a melhor figura de retórica), pelas nossas boas qualidades.

É inútil estar vivendo, para ser dependente dos outros; é inútil estar vivendo para sofrer os vexames que não merecemos.

A vida não pode ser uma dor, uma humilhação de contínuos e burocratas idiotas; a vida deve ser uma vitória. Quando, porém, não se pode conseguir isso, a Morte é que deve vir em nosso socorro.

A covardia mental e moral do Brasil não permite movimentos. de independência; ela só quer acompanhadores de procissão, que só visam lucros ou salários nós pareceres. Não há, entre nós, campo para as grandes batalhas de espírito e inteligência. Tudo aqui é feito com o dinheiro e os títulos. A agitação de uma idéia não repercute na massa e quando esta sabe que se trata de contrariar uma pessoa poderosa, trata o agitador de louco.

Estou cansado de dizer que os malucos foram os reformadores do mundo.

Le Bon dizia isto a propósito de Maomé, nas suas Civilisation des arabes, com toda a razão; e não há chanceler falsificado e secretária catita que o possa contestar..

São eles os heróis; são eles os reformadores; são eles os iludidos; são eles que trazem as grandes idéias, para melhoria das condições da existência da nossa triste Humanidade.

Nunca foram os homens de bom senso, os honestos burgueses ali da esquina ou das secretárias chics que fizeram as grandes reformas no mundo.

Todas elas têm sido feitas por homens, e, às vezes mesmo mulheres, tidos por doidos.

A divisa deles consiste em não ser panurgianos e seguir a opinião de todos, por isso mesmo podem ver mais longe do que os outros.

Se nós tivéssemos sempre a opinião da maioria, estaríamos ainda no Cro-Magnon e não teríamos saído das cavernas.

O que é preciso, portanto, é que cada qual respeite a opinião .de qualquer, para que desse choque surja o esclarecimento do nosso destino, para própria felicidade da espécie humana.

Entretanto, no Brasil, não se quer isto. Procura-se abafar as opiniões, para só deixar em campo os desejos dos poderosos e prepotentes.

Os órgãos de publicidade por onde se podiam elas revelar, são fechados e não aceitam nada que os possa lesar.

Dessa forma, quem, como eu nasceu pobre e não quer ceder uma linha da sua independência de espírito e inteligência, só tem que fazer elogios à Morte.

Ela é a grande libertadora que não recusa os seus benefícios a quem lhe pede. Ela nos resgata e nos leva à luz de Deus.

Sendo assim, eu a sagro, antes que ela me sagre na minha pobreza, na minha infelicidade, na minha desgraça e na minha honestidade.

Ao vencedor, as batatas!





... tem dias que a gente se sente ...como quem partiu ou morreu ...a gente estancou de repente


Dia triste: Morte de Rubem Fonseca e Aldir Blanc no hospital

Advirto-o a título de informação. Você está entrando na postagem mais visitada deste blog.








"Leio os jornais para saber o que eles estão comendo, bebendo, e fazendo. Quero viver muito para ter tempo de matar todos eles."

"Ficam em Paris uma semana, o dia inteiro e a noite inteira juntos. Tomam banho juntos. Beijam-se com a boca cheia de comida, com a boca cheia de pasta de dentes, com o rosto molhado, com o rosto ensaboado. Ficam dias inteiros no quarto, rompendo os limites da imaginação e do corpo, como ela diz. Ele faz imitações de atores famosos, Cagney, Bogart, Karloff. Ela imita atrizes de filmes B, fazendo strip-tease."

"Um ladrão é considerado um pouco mais perigoso do que um artista." O caso Morel

"Numa separação, aquele que não ama é o que diz as coisas carinhosas"

"Ao se misturarem, as salivas adquirem um paladar inefável, comparável apenas ao néctar mitológico"

"Tenho ginásio, sei ler, escrever e fazer raiz quadrada. Chuto a macumba que quiser. "

"O pecado é mais saudável e alegre do que a virtude. Aqueles que trocam o vício pela beatice tornam-se velhos feios e desagradáveis." O Doente de Moliere

"Tinha muitas idéias na cabeça, e isso me atrapalhava. Os melhores conferencistas são aqueles de uma única idéia. Os melhores professores, os que sabem pouco." O Caso Morel

"Deixo as mulheres bonitas para os homens sem criatividade."

"A coerência é uma característica vegetal que eu felizmente não possuo." Mandrake - Grande Arte

"As coisas naturais têm que ser conhecidas antes de serem amadas. As coisas sobrenaturais só chegam a ser conhecidas por aqueles que as amam."

"O homem é um animal solitário, um animal infeliz, só a morte pode consertar a gente." Os Prisioneiros

"Escrever é tomar decisões constantemente."

"Rir é bom, mas pode foder a vida de uma pessoa"

"...era um tipo comum de mãe altruísta que se sacrifica pela família e,em troca, cobra de todos total submissão as regras e valores que estabelece arbitrariamente." A Grande Arte

"So continuo com voce se voce acabar com essa moça. Nada tenho com ela, isso nao existe? Voce gosta dela, isso existe. Quero que voce deixe de gostar dela. Voce uma vez me disse que so gosta de quem gosta de voce, que so gosta de quem voce quer. Quero que voce goste apenas de mim. Do contrario adeus, nao tem mais jogo de xadrez, trepada na hora que voce bem entende, pileques de vinho. Eu odeio vinho seu cretino, bebo por sua causa. Odeio, odeio, odeio.
E xadrez?
Xadrez eu gosto, disse Berta enxugando as lagrimas. Em vez de ser um protagonista de sua propria vida, Berta o era da minha." Mandrake

Infernos Provisórios



…eu estou um pouco indignado [de saco cheio mesmo] com  ministros de saúde  71*, ex-ministros 71,  médicos 71, biológos PhD71, porta-vozes de anvisa 71, economistas liberais 71,  vagabundos  de gravata  e colarinho alto 71...  sinceramente, eu leio, pesquiso, e tento manter uma memória acurada mesmo com toda essa quantidade de  álcool destilado que eu consumo diária e  hebdomadaraimente desde o início deste confinamento, e enfatizo que estou indignado [ de saco cheio ] com os dualismos e esterelidades enjoativas do que leio e assisto nos noticiários... eu ligo a televisão e assisto um Ministro filho da puta, por filho da puta ser,  fraco, por fibra, qualidade desconhecer, verborágico pra caralho, por verborrágico se assumir e até gostar da onda, falando falando e não dizendo nada… Ministro este, sustentado politicamente por um ser de sobrenome Caiado, veja só Cai a do ( que o Aurélio classifica como revestido de cal, que em sentido figurado  usa de disfarces ou se apresenta com outra aparência; disfarçado, dissimulado) como se nao bastasse esse sobrenome infeliz, o infeliz ainda é elobista do agronegócio e do amianto...


…se eu pudesse ser um dos ASPONE[ Assessor de Porra nenhuma] de Deus, eu sugeriria ao Chefe sinceramente que esse governador do Rio se foda, que Boris Johnson se recupere e vá para um tribunal penal internacional... eu sugeriria que esse Trump sofra, sofra muito,  de um cancro que o roa dolorosamente, lancinantemente, por dentro... e que morra sozinho, isolado, lentamente, sem ter contato com aquilo que lhe parece ser uma familia...  mas isso no futuro... depois do julgamento do Tribunal Penal...sugeriria que numa dessa saídas do Bolsonaro,  um  Lee Oswald, um Adélio competente e pragmático, acerte na cabeça... Mas eu não quero que ele morra não, sabe, por que no fundo eu sou um cara bom... afinal, não pega bem, um ASPONE de Deus, ficar pecando em pensamentos, palavras, atos e omissões... mas eu gostaria que ele vegetasse, que ele ficasse consciente  o tempo todo de ter de ter uma enfermeira dia e noite limpando sua bosta que o intestino dele desonera involuntariamente numa bolsa clonostomica... e ele vendo isso, e os filhos dele vendo todo o patrimônio das rachadinhas  ser dilapidado por que não tem mais grana, das rachadinhas,  pra pagar as enfermeiras -  e os infelizes tendo que se degladiar pelas sobras do erário privatizado...mas isso no futiro também depois que ele responda por crimes contra a Humanidade no Tribunal Penal Internacional... eu gostaria  que esse vagabundo Mandetta TIRE esse jaleco do SUS, enquanto a vagabunda  filha advogada dele faz lobby para a Unimed. Enfim, eu gostaria que todos tivessem uma boa noite de sono, e que sonhassem com anjinhos, se puderem. 

Também... como ASPONE de Deus, gostaria de pedir que o Aldir Blanc se recuperasse prontamente...



Notas de pé de pagina



*71 aqui refere-se ao artigo 171 do Código Penal brasileiro e colateralmente ao nono circulo do inferno de Dante, círculo mais profundo, onde Satanás reside e é dividido em quatro partes. A primeiro é Caina, em homenagem ao bíblico Cain que assassinou seu próprio irmão. Esta parte é para traidores de parentela (família). O segundo é nomeado Antenora e vem de Antenor de Tróia que traiu os gregos. Esta circulo mimoso, e que mais nos interessa, aos propósitos que avento,  é reservado para os traidores políticos / nacionais. O terceiro é Ptolomaea (por Ptolomeu filho de Abubus), que é conhecido por convidar Simon Macabeu e seus filhos para jantar e depois assassiná-los. Este patamar é para os anfitriões que traem seus convidados; eles são punidos mais severamente por causa da crença tradicional de que ter convidados significa entrar em um relacionamento voluntário (ao contrário das relações com a família e país, que nascemos); assim, traindo um relacionamento você entra voluntariamente é considerado mais desprezível. O quarta platô é Judecca, referidamente a de Judas Iscariotes que traiu Cristo. Este platô é reservado para traidores de seus senhores / benfeitores / mestres.


Quanto ao Código Penal, avivo a memória...

Art. 171 - Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento:

Pena - reclusão, de um a cinco anos, e multa, de quinhentos mil réis a dez contos de réis. (Vide Lei nº 7.209, de 1984)

§ 1º - Se o criminoso é primário, e é de pequeno valor o prejuízo, o juiz pode aplicar a pena conforme o disposto no art. 155,

§ 2º.

§ 2º - Nas mesmas penas incorre quem:

Disposição de coisa alheia como própria

I - vende, permuta, dá em pagamento, em locação ou em garantia coisa alheia como própria;

Alienação ou oneração fraudulenta de coisa própria

II - vende, permuta, dá em pagamento ou em garantia coisa própria inalienável, gravada de ônus ou litigiosa, ou imóvel que prometeu vender a terceiro, mediante pagamento em prestações, silenciando sobre qualquer dessas circunstâncias;

Defraudação de penhor

III - defrauda, mediante alienação não consentida pelo credor ou por outro modo, a garantia pignoratícia, quando tem a posse do objeto empenhado;

Fraude na entrega de coisa

IV - defrauda substância, qualidade ou quantidade de coisa que deve entregar a alguém;

Fraude para recebimento de indenização ou valor de seguro

V - destrói, total ou parcialmente, ou oculta coisa própria, ou lesa o próprio corpo ou a saúde, ou agrava as conseqüências da lesão ou doença, com o intuito de haver indenização ou valor de seguro;

Fraude no pagamento por meio de cheque

VI - emite cheque, sem suficiente provisão de fundos em poder do sacado, ou lhe frustra o pagamento.

§ 3º - A pena aumenta-se de um terço, se o crime é cometido em detrimento de entidade de direito público ou de instituto de economia popular, assistência social ou beneficência.

Estelionato contra idoso

§ 4o Aplica-se a pena em dobro se o crime for cometido contra idoso. (Incluído pela Lei nº 13.228, de 2015)

§ 5º Somente se procede mediante representação, salvo se a vítima for: (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019)

I - a Administração Pública, direta ou indireta; (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019)

II - criança ou adolescente; (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019)

III - pessoa com deficiência mental; ou (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019)

IV - maior de 70 (setenta) anos de idade ou incapaz. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019)


Música do dia . Polícia, Bandido Cachorro, Dentista. Sergio Sampaio. Disco Sinceramente Sergio Sampaio .

O retorno





…não vou enveredar aqui pelos surrados rumos que todos estamos cansados de percorrer, quando pensamos em retomar alguma coisa do passado, esquecida no tempo…. nem apelar àquela nostalgia biraia presente nas fotos antigas, nem aos berliques e berloques contidos nas vigaristas  gavetas de guardados… durante muito tempo, uma voz renitente, ficava repetindo… vai gauche, escreve lá, posta lá… seja relevante para o universo de 3 pessoas que te lêem!  … vai seu bosta insignificante! Um desses demônios é metido a literato, me xingava e até citava Machado… deixa essa ferrugem de obscuridade …então… tentei retornar…eu sabia do trabalho hercúleo que me daria para recuperar a senha destes blog…tentei retornar 2 3 4 vezes… mas 2 filhos pequenos, series de trampos sem vergonha com impantes chefes, contas de luz, gás, água, internet, Netflix a pagar, feijão na mesa, ração para a vira-lata, tudo isso deixaria até o Sísifo meio bolado…

…nem vou outorgar este retorno ao baixo astral generalizado trazido pela tosse e falta de ar desta peste escrota pós-moderna… o injustificado, porém necessário recesso deste blog, deve-se em parte, também, talvez, à idade… estou ficando velho… e a velhice faz a gente filtrar a relevância das coisas…. além disso, sinceramente, a recente  produção literária brasileira meio caduca, meio acochambrada, meio banazola não me seduz a deixar de ler os clássicos… afinal de contas, sempre que pego algo para ler, seja um livro, uma bula de remédio, um panfletos dos testemunhas de jeová,  folheto, um epistolário, uma poesia mambembe, uma biografia, um cordel, selo antigo,  um prospecto da vovó maria conga, sempre me pergunto… o que esse falsário tem para me dizer? … consigo ver suas metáforas materializadas à minha volta? …então, tal como nos decretos espanhóis medievais… si no, no… se não, não…se não presta, não presta… e pronto…

…tenho uma suspeita que pode se revelar tolice completa sobe os motivos desse retono, porém vou arriscar… Ilusão da Semelhança é um termo cunhado do José Saramago…esse infeliz me atormenta desde os tempos em que ainda estava vivo… recentemente… recentemente mesmo, há dois dias atrás… comecei a reler o Ensaio sobre a Cegueira, dentre outros livros dele, que tenho quase todos… e sempre me deparo com esta passagem…


Proclamavam-se ali os princípios fundamentais dos grandes sistemas organizados, a propriedada privada, o livre cambio, o mercado, a bolsa, a taxação fiscal, o juro, a apropriação, a desapropriação, a produção, a distribuição, o consumo, o abastecimento e o desabastecimento, a riqueza e a pobreza, a comunicação, a repressão e a delinquência, as lotarias, os edifícios prisionais, o código penal, o código civil, o código de estradas, o dicionário, a lista de telefones, as redes de prostituição, as fábricas de material de guerra, as forças armadas, os cemitérios, a polícia, o contrabando, as drogas, os tráficos ilícitos permitidos, a investigação farmacêutica, o jogo, o preço das curas e dos funerais, a justiça, o empréstimo, os partidos políticos, as eleições, os parlamentos, os governos, o pensamento convexo, o côncavo, o plano, o vertical, o inclinado, o concentrado, o disperso, o fugido, a ablação das cordas vocais, a morte da palavra.

música do dia. sol da meia noite. Sylvia telles. disco Bossa, Balanço e Balada. 1963


A FALA DO ROSTO





És Tu quem nos espera
nas esquinas da cidade
e ergue lampiões de aviso
mal o dia se veste
de sombra


Teu é o nome que dizemos
se o vento nos fere de temor
e o nosso olhar oscila
pela solidão
dos abismos


Por Ti é que lançamos as sementes
e esperamos o fruto das searas
que se estendem
nas colinas


Por ti a nossa face se descobre
em alegria
e os nossos olhos parecem feitos
de risos


É verdade que recolhes nossos dias
quando é outono
mas a Tua palavra
é o fio de prata
que guia as folhas
por entre o vento



José Tolentino Mendonça


Um Sonâmbulo na Corda Bamba

Os estóicos diziam que não somos aquilo que nos acontece. O que para nós, chamamos de acaso, e que portanto é visto com descaso, não era visto assim pelos os gregos. Para estes, os acontecimentos não aguardados se confundiam com sinais, com a auto-estima, como alguma coisa atravessada pelo divino. Restava-nos viver como amadores tateando nu labirinto de sinais. O livro de José Luiz Passos, “O Sonâmbulo Amador”, mostra-nos até que ponto os fatos são decididos por nós, e até que ponto são decididos por uma força maior onde o acaso detona uma série de sonhos, visões mal acabadas e irrealidades que como amadores tentamos desvendar. “O Sonâmbulo Amador” conta a estória de um funcionário de uma tecelagem no interior de Pernambuco. Jurandir, seu nome, é cidadão simples que está prestes a fazer uma viagem à capital do estado para resolver uma pendência burocrática. O protagonista aprender com a dor. Se solidariza com o sofrimento de um do operário da empresa onde  trabalha que teve o rosto desfigurado por um acidente de trabalho. Na função de porta-voz de uma espécie e cipa, Juandir tentará interceder por ele, na capital, e conseguir algum amparo pecuniário para a sua condição. 

Antes de viajar para Recife, Jurandir se depara com duas situações não de todo ordinárias. Primeiro, briga com uma colega de trabalho chamada Minie, com quem teve um caso e ainda mantem uma relação um tanto mal resolvida. Logo em seguida constata que ao chegar em casa, a mulher tinha transformado o quarto do filho num escritório. Isso basta para explicar o que está por vir. Jurandir começa sua viagem de carro para a capital. No meio do caminho para. Sai e  ateia fogo na Kombi.  O leitor tem a certeza de que Jurandir tem plena consciência de suas circunstâncias. Mas logo no capítulo seguinte, temos a certeza que o livro de Jose Luiz começa com a certeza estóica de que não somos, de fato, aquilo que nos acontece.

Muitas vezes, a dor, a violência, a tragédia esmagam a compreensão. Aristóteles dizia que o máximo do prazer apenas é atingido no exato instante do máximo de uma dor. Portanto, quem não tivesse essa dor tão forte e não tivesse, o corpo, ou a consciência, tomados por essa espécie de luz que ilumina o momento máximo da dor, que por exemplo poderia ser a perda de um filho, não saberia o que é o prazer.

No capítulo seguinte, como num desses sonhos mal explicados, Jurandir já aparece num manicômio. A trágica morte do filho adolescente, poderia ter esmagado sua compreensão. Mas na instituição psiquiátrica surgem os cadernos onde Jurandir descreve suas experiências tentando encontrar um norte argumentativo, no qual realidade e irrealidade entrelaçam-se iludindo o leitor amador num jogo de sono e vigília.


A partir daí o cotidiano dentro da clínica, sua vivência com Madame Góes, o enfermeiro Ramires e o Dr. Ênio começam a se confundir com seus sonhos. Nesse momento a narrativa adquire a tonalidade estranha e interessante de um filme de David Lynch. O passado, o presente, os sonhos, e a impossibilidade de futuro vão se fundindo e se confundindo numa também  impossibilidade narrativa. Interessante, e algumas vezes cansativa, a leitura destes sonhos nos induz a pensar que o que Jurandir busca é na verdade uma liberação de seus traumas através dos exercícios escritos sugeridos pelo Dr. Ênio. Através de reparações, ele tenta dar novos sentidos aos pesos do estigma que carrega: a falta de estrutura familiar, a perna manca por um acidente provocado, a perda do filho, o amor estranho e contemplativo que por um lado alimenta pela esposa, e o desejo que o consome pela amante sensual, o rosto do garoto que se queima... uma série de frustrações que vão se acumulando ao longo da vida, onde as tentativas de reparações não lhe trazem equilíbrio, e as tentativas de narra-las acontecem de forma fragmentária com frases curtas em poucos detalhes. Quando há detalhes, estes se tornam confusos, como os primeira hora da manhã quando tentamos rememora-los e colocá-los de uma maneira lógica, numa narrativa que se pretenda ser aquilo que nos acontece no sonho.

Os riscos que José Luiz Passos correu com esse livro, tanto no que escreve como no que procura esconder de sua escrita, em sua maneira própria de escrever, foram muitos. Risco maior foi arcar com a possibilidade de cair na travessia da corda bamba, em pleno sono. E neste contabilizamos o de tentar mostrar que, mesmo num contexto onde um protagonista tem sua humanidade anulada pela perda de um ente, da liberdade e da própria capacidade de concatenar conscientemente fatos e argumentos, ainda assim, consegue chegar ao outro levando uma idéia de justiça e de grandeza moral.

Mé e forévis, forever!


Quem já passou dos 40 anos lembra bem o que estava fazendo às 19:00hs, no primeiro domingo do mês de agosto de 1984. Estava assistindo Os Trapalhões! Naquele hiato entre o domingo de sol e aquela música horrenda do Fantástico a nos lembrar da segunda-feira, entrava o melhor programa da televisão brasileira para a molecada. Intelectuais de plantão irão dizer que o programa promovia violências intelectuais contra minorias étnicas, raciais e de gênero. Ô da poltrona, à época eu tomava cascudo dos guris mais velhos e cheguei a cair na porrada na porta da escola sem saber que isso era bullying por que o que importava para nós era  exatamente isso, Samba, Mé e Trapalhões!
A biografia do jornalista Juliano Barreto sobre Antônio Carlos Bernardes Gomes, o “Mussum”, lançado pela grande editora LeYa, é muito legal. Eu sei que o termo “legal” é impreciso, mas é o que me vem à cabeça quando lembro que não consegui levantar o forévis da cadeira enquanto não terminei o livro. O livro resgata memórias de um tempo em que as fotos coloridas ainda eram em papel fotográfico meio avermelhado e a família sempre aparecia meio desbotada. Não chega a ser uma ótima biografia, pois fiquei com um gosto de querer saber mais da história do Mussum e de sua vida pessoal. Mas reconheço o esforço do jornalista ao tentar resgatar o passado de um cidadão que nasceu pobre, filho de mãe solteira negra e analfabeta, batalhadora, e com no máximo uma certidão de nascimento, deve ter sido hercúloe.
A biografia  conta com partes de como cresceu num colégio interno esbanjando simpatia, trabalhando como mecânico, morando em cortiços para sobreviver, enquanto a fama não o tocava. Sempre enchendo a cara, mas sempre pontual, nas segunda-feira pela manhã, independente do tamanho da ressaca que o afligisse o homem era uma muralha. Partes tristes como quando teve que romper com Os Originais do Samba, e deixar para trás os amigos de longa data, para se dedicar aos Trapalhões, e inúmeras partes engraçadíssimas que te fazem rir sozinho. Em resumo, a biografia mostra  um grande homem por trás do humorista, mostra sua generosidade, sua impressionante capacidade de trabalho, e até mesmo sua relação com suas ex-mulheres que  - se recusaram a detraí-lo mesmo após a fama.
Sua trajetória televisiva, vista criticamente,  mostra o esteriótipo de um homem negro alcoólatra. O problema deste tipo de análise eram as segundas-feiras pois quando chegávamos à escola, as conversas inocentes sempre passavam pelo mé e pelo forévis de alguém. É inquestionável a presença de Mussum em nossas vidas, mesmo na das pessoas que juram de pés juntos não terem assistido Os Trapalhões.

Música do dia. Ray Charles and Betty Carter. Cocktails for two

Heráclito


Em 1935, o Partido Comunista botou o bloco na rua, chamou os revolucionários e achou que podia para fazer uma revolução. Não deu. E entre as maiores vítimas da tentativa de insurreição estava o ex-deputado alemão Harry Berger, que veio para o Brasil em 1935 junto com sua mulher Elise, para orientar comunistas urentes a conduzir massas ignotas à conquista do poder.   Se não me engano é ele que no livro Olga tem o dedo esmagado por um alicate de quebrar nozes assim que entra no carro da Polícia Especial de Vargas. O casal comeu o pão que o diabo amassou em terras tupiniquins. Elise foi estuprada na frente do marido e logo em seguida mandada de volta para a Alemanha, onde morreria num campo de concentração.
O destino de Berger foi inacreditável. Torturado com choques e porradas sem fim, foi deixado por um ano numa cela sem sol, sem corte de cabelo, sem banho, com pouca comida.... O tratamento desumano que Berger recebeu levou ao advogado Sobral Pinto a solicitar ao juiz responsável pelo caso a comparação de Berger a um cavalo. Levou o responsável pelo caso a concordar que:  se o Estado reconhece até os direitos dos animais, por que não haveria de aplicar o mesmo tratamento a um ser humano?
Este é um dos pontos mais interessantes do documentário “Sobral – O Homem que Não Tinha Preço”. Heráclito Sobral Pinto foi um homem vazado num molde que se perdeu ao longo da história do Brasil.  Torcedor do América, católico fervoroso e conservador, defendeu presos políticos do Estado Novo e da ditadura militar, incluindo o líder comunista Luis Carlos Prestes e foi responsável até mesmo pelo resgate de sua filha Anita Leocádia. Anos mais tarde atuou na defesa de Juscelino Kubitschek,  mesmo, conservador que era, sendo politicamente alinhado à UDN. Nos anos 80, já em idade avançada, ainda teve fôlego para subir ao palanque das Diretas Já. 

O documentário de Paula Fiuza tem partes engraçadas e tocantes: sua incapacidade para ganhar dinheiro, ou melhor saber ganhar dinheiro mas não saber como cobrá-lo de seus clientes, mesmo estando tão próximo ao poder, e sua culpa, que se arrastou até o fim de sua vida, por ter tido uma... “amiga”... nos anos de juventude. Sâo elementos humanos que tornam Heráclito um mito brasileiro.

Assistir este documentário dias antes de uma eleição presidencial como esta que passou, pode não ser aconselhável. Pode causar danos irreversíveis à tentativa desesperadora de dar sentido à nossa obtusa alma nacional. 

Discursos dos Eleitos

O Ilusão da Semelhaça renasce como Fawkes hoje...

Quando soube que Ronald Reagan não escrevia seus próprios discursos, confesso que passei a desconfiar do óbvio: o ator lia os scripts feitos sob medida pela equipe de Larry Speakes. A saia justa de Speakes em Reagan ao anunciar que os discursos do chefe eram um bando de citações clonadas e adaptadas às circunstâncias, nunca foi confirmada por Reagan que, ao contrário, preferiu desmentir o subordinado, afirmando que nunca confiou muito no seu Press Secretary. Mas o mais estranho de tudo é que, independente de quem as escreveu, duas frases de Reagan não me saem da cabeça hoje:
 

Status quo, you know, is Latin for “the mess we’re in”
 

I think the best possible social program is a job.