Domingo, Dezembro 06, 2009
Sexta-feira, Dezembro 04, 2009
Fogo Amigo
Eu os tranquilizei: na Frei Caneca, para onde iria, estavam os meus antigos companheiros de militância, que reencontraria tantos anos depois. Descumprindo o regulamento, os guardas permitiram que eu entrasse em todas as galerias para me despedir afetuosamente de alunos e amigos. O Devagar ia embora.
Nesse contexto, deixei trabalho e família no
Dizia-me da importância do primeiro encontro, em que tentaria formatar a psicologia de Lula, saber o que lhe passava na
Na mesa, estávamos eu, o americano ao meu lado, Lula e o publicitário Paulo de Tarso em frente e, nas cabeceiras, Espinoza (segurança de Lula) e outro publicitário brasileiro que trabalhava conosco, cujo nome também esqueci. Lula puxou conversa: "Você esteve preso, não é Cesinha?" "Estive." "Quanto tempo?" "Alguns anos...", desconversei (raramente falo nesse assunto). Lula continuou: "Eu não aguentaria. Não vivo sem boceta".
Para comprovar essa afirmação, passou a narrar com fluência
Foi um dos momentos mais kafkianos que vivi. Enquanto ouvia a narrativa do nosso candidato, eu relembrava as vezes em que poderia ter sido, digamos assim, o "menino do MEP" nas mãos de criminosos comuns considerados perigosos, condenados a penas longas, que, não obstante essas condições, sempre me respeitaram.
O marqueteiro americano me cutucava, impaciente, para que eu traduzisse o que Lula falava, dada a importância do primeiro encontro. Eu não sabia o que fazer. Não podia lhe dizer o que estava ouvindo. Depois do almoço, desconversei: Lula só havia dito generalidades sem importância. O americano achou que eu estava boicotando o seu trabalho. Ficou bravo e, felizmente, desapareceu.
*
Nelson, que amava os Beatles, não conseguiu ser o rei do
Neguinho Dois também morreu na prisão. Sapo Lee foi transferido para a Ilha Grande; perdi sua pista quando o presídio de lá foi desativado. Chinês foi solto e conseguiu ser contratado por uma empreiteira que o enviaria para trabalhar em uma obra na Arábia, mas a empresa mudou os planos e o mandou para o Alasca. Na última vez que falei com ele, há mais de 20 anos, estava animado com a perspectiva do embarque: "Arábia ou Alasca, Devagar, é tudo as mesmas Alemanhas!" Ele quis ir embora para escapar do destino de seu melhor amigo, o Sabichão, que também havia sido solto, novamente preso e dessa vez assassinado. Não sei o que aconteceu com o Formigão e o Ari Navalhada.
A todos, autênticos filhos do Brasil, tão castigados, presto homenagem, estejam onde estiverem, mortos ou vivos, pela maneira
O homem que me disse que o atacou é hoje presidente da República. É conciliador e, dizem, faz um bom governo. Ganhou projeção internacional. Afastei-me dele depois daquela conversa na produtora de televisão, mas desejo-lhe sorte, pelo bem do nosso país. Espero que tenha melhorado com o passar dos anos.
Mesmo assim, não pretendo assistir a "O Filho do Brasil", que exala o mau cheiro das mistificações. Li nos jornais que o filme mostra cenas dos 30 dias em que Lula esteve detido e lembrei das passagens que registrei neste texto, que está além da política. Não pretende acusar, rotular ou julgar, mas refletir sobre a complexidade da condição humana, justamente o que um filme assim, a serviço do culto à personalidade, tenta esconder.
CÉSAR BENJAMIN, 55, militou no movimento estudantil secundarista em 1968 e passou para a clandestinidade depois da decretação do Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro desse ano, juntando-se à resistência armada ao regime militar. Foi preso em meados de 1971, com 17 anos, e expulso do país no final de 1976. Retornou em 1978. Ajudou a fundar o PT, do qual se desfiliou em 1995. Em 2006 foi candidato a vice-presidente na chapa liderada pela senadora Heloísa Helena, do PSOL, do qual também se desfiliou. Trabalhou na Fundação Getulio Vargas, na Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, na Prefeitura do
Música do dia. Profecia Final (ou No mais Profundo). Cordel de Fogo Encantado
Aceitai minha despedida
Fico governando essa zona de cá por inteiro até a ponta dos trilhos em Rio Branco
e o senhor por sua vez governa
do Rio Branco até a pancada do mar
Espinhos soltos no chão
Mistérios presos no ar
Não desejei carregar esse cajado infinito
Anuncio a tua vinda
No silêncio dos cocões
Já vou, meu primeiro trago
Longe da terra primeira
A nitidez se acentua
O nevoeiro se engole
Minhas raízes caminham
Queimai vossa história tão mal contada
Na mais alta casa do mundo
Na vastidão do teu olho
Na pancada do segundo
Suor de santa vela acesa
A língua hóstia consagrada
Sangue vinho do meu peito
Pés andor da dor cansada
Quarta-feira, Dezembro 02, 2009
Fora das Margens
Programa de Rádio de Ophir, um de meus amigos mais talentosos. Arranjador e maestro, Ophir estuda piano desde os 5 anos de idade e recentemente teve aulas - e brigas - com Michael Finnissy. Está terminando um doutorado na University of Southampton, já passou pelo The Royal Conservatory em Haia e pela The Guildhall School of Music and Drama in London. Em todo o caso, na minha opinião, não precisa de vida acadêmica para nada. Está muito bem onde está, transmitido seu programa de rádio via internet e produzindo composições sem parar, ultrapassando o limite da margem do papel. Na última vez que nos vimos, em Bruxelas, o cara sentou ao piano e tocou música brasileira a noite toda. Literalmente, pois deixamos o bar as seis da manhã, quando o cruzamento do santo do Sinatra com o Fred Astaire baixou num inglês magricela e narigudo que resolveu nos alugar, bravos biriteiros. Só para constar, as preferências do Ophir vão de Jacques Brel, Montiverdi e Sibelius a Tom Jobim - evidentemente -, Tom Zé - para ele um gênio - e Egberto Gismonti.
Terça-feira, Dezembro 01, 2009
Sexta-feira, Novembro 27, 2009
Elegy
O filme trata da adaptação de "The Dying Animal”, de Philip Roth. (Favor, ver a resenha do Alexandre Kovacs). Roth revivera neste livro David Kepesh, personagem que já fizera parte de dois de seus livros da década de 1970. Kepesh é um homem culto, na faixa dos 60 anos, que leva uma confortável vida de divorciado. Vive em Manhattan como escritor, crítico e professor universitário requisitado para programas de televisão e rádio. Apesar de seu verniz intelectualizado, Kepesh é um tipo que se cerca de um universo de relativo encapsulamento sentimental. A relação com o filho médico, inconformado com a comodidade do pai, é abrasiva pois o filho se recusa a admitir que o pai, livre das responsabilidades familiares possa viver sem culpa. Com Carolyn – aliás Patricia Clarkson! - , sua amante por mais de 20 anos, mantém uma relação de se reduz à cama. Com seu amigo, o poeta George O'Hearn, mantém uma relação utilitária de camaradagem de botequim, sem que isso implique em maiores compromentimentos intelectuais.
Tudo esta ordenado em compartimentos até que, eis que surge de repente Consuela Castillo, interpretada por Penélope Cruz. A moça jovem, culta e por cima de arriba cubana (!), vira a cabeça de Kepesh a ponto deste, pressionado por aquele papo-pra-boi-dormir de que a Consuela é moça séria parará-pão-duro, quase embarca nessa estória.
Há evidenteente alguns aspectos que condizem como o que esperaria de um protagonista de livro de Roth. Neste, no David Kepesh da tela há a culminação de um tom que já se pressente em outras obras do autor. É de certo um demolidor do establishment conservador, mas sua ação me passou mais a impressão de um ser auto-centrado em seu mundo academicista que um inconveniente propriamente dito – apesar da cena em que sutilmente destrói o amigo George O'Hearn, em pleno habitat intelectual, frente a um auditório inteiro. Enfim, não me deixou a sensação de limite do intolerável vista e sentida nos protagonista de Pastoral Americana, e muito menos de um David Lurie.
O grande problema. O grande problema, para além de NÂO TER LIDO O LIVRO, é que na tela a atuação Ben Kingsley me pareceu auto-indulgente em demasia para um sexagenário tipicamente predador, cínico e viciado em sexo. Afinal, Kepesh não perde em momento algum sua aura professoral, de superior conhecedor do espaço e tempo que habita, do seu – voilá – habitus envolto em altos valores culturais ao som de Satie e das Diabelli Variations de Beethoven. Sendo assim, alguma coisa não se encaixou. Algo ficou de fora. Talvez o tempo da narrativa. Ora, não ficou muito claro para mim como Consuela, que a princípio era apenas mais uma de suas conquista de colecionador, consegue torcer a tal ponto cabeça de Kepesh tornando-o um obsessivo ciumento. Logo ela, Consuela, que me pareceu extremamente passiva e sofisticada.... E nem estou me referindo àquela remissão meio calhorda do final com a notícia do câncer, que no fundo Roth botou ali para o leitor sentir pena do "compassivo" Kepesh – mas o que estou dizendo, eu NÂO LI O LIVRO?
E para terminar... Deixo a pergunta que não quer calar... Como é que a dona Isabel Coixet escolhe para o papel de um autêntico americano novaiorquino o Ben Kingsley? Até uma criança de 5 anos sabe que um cidadão com a cara do Mahatma Gandhi não pode ser personagem de Philip Roth! Até o Danny De Vito se saíria melhor...
Enfim, parafraseando o Drummond, de tudo sempre fica um pouco... é sempre bom admirar os detalhes da beleza da Patricia Clarkson.
O Bom Velhinho
A Arte de Andar nas Ruas do Rio de Janeiro.
http://www.oseminaristaolivro.com.br/default2.asp
Quarta-feira, Novembro 25, 2009
Shhh!
Walter Benjamin, um dos "Homens de Tempos Sombrios", de Hannah Arendt
Segunda-feira, Novembro 23, 2009
Grândola, Vila Morena
Toda a vez que ouço a música me emociono verdadeiramente.
Domingo, Novembro 22, 2009
The Examiner
A legislação imigratória é o passo seguinte que os conservadores querem concatenar, através de lobbies e analistas políticos desonestos, para bloquear no Senado as negociações para a reforma da saúde. Mas o que uma coisa tem com a outra? Simples. Os conservadores argumentam que Obama usa clichés do credo social-democrata, que obviamente não se ajustam à tradição liberal americana, para minar as bases de sustentação da tradição liberal americana. Pode até ser. Mas como esse argumento é um tanto vago e impreciso, argumentam que a dívida pública já ultrapassa 12 trilhões de dólares e que o sistema de saúde almejado por Obama e pelos democratas, onera ainda mais os cofres públicos. O fato é que tal política favorecerá uma faixa social com renda familiar de 30 a 50 mil dólares anuais. Nesta faixa de renda se incluem os imigrantes (legais ou ilegais, com mão de obra especializada ou não...).
Não custa perceber o porquê do embaraço de Obama com o Nobel nas mãos. E olha que nem estamos falando de política externa, ainda.
Um artigo do de hoje do The Examiner, um jornal local de circulação livre apenas nos arredores da capital de Vanuatu, muito me deixou intrigado sobre os propósitos deste tal de M.B., autor do artigo.
Is Congress, behindhand on Barack Obama's deadlines on health care and cap-and-trade legislation, and flummoxed by the failure of the stimulus package to hold unemployment below 10.2 percent, prepared to address the immigration issue next year?
Homeland Security Secretary Janet Napolitano says it better be. The current situation, she told the Center for American Progress on Nov. 13, "is simply unacceptable." We need a "three-legged stool," with provisions to strengthen enforcement, legalize some illegal immigrants and improve "legal flows for families and workers."
This sounds a lot like the comprehensive legislation, backed by the Bush administration, that never came to a vote in the Republican House in 2006 and was rejected by the Democratic Senate in 2007. But, as Napolitano correctly noted, the facts on the ground have changed in the last two years.
Ironically, the push for legalization in 2006-07 resulted instead in stronger enforcement measures. Some 600 miles of border fence have been built, the Border Patrol has been vastly expanded and the E-Verify system for determining whether job applicants are legally in the country has shown its worth.
It's probably not a coincidence that Arizona, where E-Verify is most widely used and where Napolitano used to be governor, had a statistically significant drop in its foreign-born population percentage in 2007-08. The Obama administration may be skinning back on some enforcement procedures. But states and localities are moving forward and the momentum seems to be toward stricter enforcement of existing law.
Even more important, the flow of immigrants into the United States is slowing dramatically, and may be reversing. The Pew Hispanic Center notes that the number of immigrants from Mexico in 2008-09 is down three-quarters from four years before. The Center for Immigration Studies estimates that the number of illegals in the U.S. declined by 1.7 million, or 14 percent, in 2007-08. Government figures show that border apprehensions, a statistic that is often taken as a proxy for illegal crossings, fell 23 percent in 2008-09 from the previous year and was only one-third the number in the peak period of 2000-01.
Those numbers obviously reflect a response to deep recession as well as the effects of tougher enforcement. They suggest a much smaller immigration flow and significant reverse migration back to countries of origin in the years ahead.
The 2006 and 2007 comprehensive immigration packages were premised on different facts. An approach more in line with current realities comes from a bipartisan panel assembled by the Brookings Institution and Duke University's Kenan Institute.
The Brookings/Kenan panel would provide for legalization of less than half of current illegals, with stringent requirements and only after stepped-up workplace enforcement provisions reach stated levels of use and effectiveness. Technology should allow programs like E-Verify to screen job applicants for legal status in a way that was promised but never delivered by previous immigration laws.
In addition, the Brookings/Kenan panel urges a sharp reduction in the number of green cards for relatives beyond the nuclear family of current legal residents and a sizable increase in admissions of high-skill immigrants. This is the approach taken, with good results, by Canada and Australia, which liberalized their immigration laws after our 1965 law opened the floodgates.
These proposals address the political reality that any new immigration bill must have bipartisan support, because the issue poses dangers for both Democrats and Republicans.
Conditioning legalization on more effective enforcement procedures could give Democrats cover from attacks for supporting amnesty. They could argue, accurately, that enforcement has become more effective and that they voted to make it even tougher.
Changing admissions requirements from favoring extended family members to favoring high-skill immigrants could give Republicans cover from charges that they are anti-immigrant. They could argue that, in a time of high and extended unemployment, it makes sense to switch from admitting job seekers to admitting job creators.
The 1965 and 1986 laws resulted in a large illegal immigrant population because they promised things that proved beyond the capacity of government to deliver. Now that a combination of public indignation and high-tech ingenuity have increased government's enforcement capacity, and while the inflow of immigrants is slowing and an outflow of illegals may be accelerating, we may have reached a point when we can put in place immigration laws with enforceable limits and that encourage an influx of the kind of immigrants we need most. Can Congress act?
M. B. The Examiner's senior political analyst, can be contacted at xxx@washingtonexaminer.com. His columns appear Wednesday and Sunday, and his stories and blog posts appear on ExaminerPolitics.com.
Quinta-feira, Novembro 19, 2009
Nosso Grão Mais Fino
'Nosso grão mais fino' centra-se na estória de Vicente Campelo e Ana Corama, dois ex-amantes que reencontram-se após longos anos de separação. Ainda que centre seu foco sobre dois personagens somos temporariamente convidados a seguir as ações da memória dos amantes supostamente incestuosos, já que não necessariamente eram relativos sanguíneos. Quando eram jovens suas vidas tomaram rumos distintos. Ana casou-se e tornou-se escritora de livros infantis. Vicente vagou pelo mundo. Agora, quando ela vive um casamento em ruínas, ambos se reencontram e tentam dar sentido às memórias do passado. Memória muitas vezes dolorosas como as da morte do pai de Ana na ocasião da passagem do Zepelim por Recife, quando ele sem razões aparentes, comete suicídio atirando-se do dirigível. Nesse exercício mnemônico de acerto de contas com o passado Vicente também tenta reconstruir a memória de sua decadente família de usineiros. Tudo, a começar pelo título, gira em torno ao processo de fabricação do açúcar, tão intensivamente injusto quanto aquele retratado nas vigorosas páginas de Casa Grande e Senzala ou nas metódicas descrições de Stuart B. Schwartz. Em tudo que circunda a usina – mesmo que o leitor jamais tenha pisado numa, como é meu caso - há algo de familiar e estranho na continuidade da força patriarcal. A paisagem canavieira e o laboratório são o pano e fundo para várias estórias rememoradas e complexa história de paixão entre Vicente e Ana onde a dissolução familiar é apenas um apêndice.
Talvez seja um livro, que em minha modesta opinião, esforce-se por criar referências aos amantes que serviram de modelo demorando-se as vezes em algumas cenas e sendo bastante breve em outras – como por exemplo a cena do suicídio de Dahirou. É uma narração que varia entre uma terceira pessoa onipresente e ao menos duas primeiras pessoas. Nos primeiros capítulos, de fato o leitor se sente confuso com a vozes, mas aos poucos vai se familiarizando com as de Vicente e Ana que vão tomando conta da narrativa, e que de fato são distintas em estilo e propósitos.
Apesar de notar que houve a franca intenção de me levar a visitar a consciência dos personagens, suas culpas, seus arrependimentos, suas lutas internas contra a atração incontrolável de um pelo outro, achei insatisfatória a insistência na taxação do affair entre Vicente Campelo e Ana Corama como um incesto. Passos evoca até mesmo Asmodeu para nos convencer do tabu. Por outro lado, este é um livro que põe em xeque qualquer tentativa de crítica, pois é necessário ao leitor contorná-la dela com extrema cautela. Não é um livro fácil, não há didatismos fáceis nas imagens e metáforas. Há nelas sim, uma fascinante pluralidade, uma abiguidade, uma lúdica riqueza que algumas vezes podem até se perder por excesso, mas jamais por imprecisão. Há poucos dias encontrei uma resenha na internet onde o resenhador dizia...”Há sempre uma palavra sobrando: uma mulher não arranha as costas do amante - ela arranha "a pele que lhe recobre as costas". O leitor será capaz de adivinhar o que é a "cicatriz do canal por onde saciou a primeira fome apegada ao fôlego do simples cordão torcido e vigoroso"? É apenas uma perífrase barroca para dizer "umbigo". Poderia até concordar, caso não tivesse acabado de ler há poucos dias um livro de Philip Roth onde o protagonistas não fazia cerimônias, não se perdia nas tais perífrases barrocas alusivas para definir sua predileção
Se não fosse por essa opção, não teríamos trechos belos como este:
Ana Corama me olha com sua visão agravada por olheiras lilases. Seu cabelo espaventoso recusa trégua. Diante dela sou eu quem se emaranha pelos sortilégios que armam à sua volta uma impressão de densa maciez [...].
Por fim, não vou entrar nas análises sobre se a obra é regionalista, se tem ecos de Freyre ou a densidade de uma prosa anti-cabralina, se a linguagem é experimental, ou se os personagens são plausíveis, pois isso é assunto para a intelligentsia. Termino o livro com a impressão de um amargor, alguma coisa de aspereza mesmo em seus grãos mais finos.
Whatever Works
O enredo é bastante simples. Boris Yellnikoff, representado pelo excelente comediante Larry David, é um homem solitário e misantropo que por pura casualidade começa um romance com uma jovem do sul chamada Melodie – interepretada por Evan Rachael Wood. Boris é, segundo ele próprio, um gênio incompreendido que quase ganhou o Nobel em Física. Em sua arrogância, Boris compra-se pelo que vale e vende-se pelo que pensa que vale. O problema é que vive no prejuizo. Além disso, Boris é hipocondríaco e sofre que crises de pânico no meio da noite. Numa dessas crises tentou se suicidar se atirando de uma janela, por isso claudica. A partir do encontro de Boris e Melodie, a vida do cientista não se trasnforma nem para melhor nem para pior, mas há uma reação em cadeia, quase física ao redor dele. Melodie, que chega a se casar com Boris, encontra um outro homem. A mãe, Marieatta, conservadora e evangélica, que chega para resgatar a filha, acaba virando uma fotógrafa famosa e vivendo com dois amantes. O pai, tão evangélico como a mãe descobre que é gay, arruma um chapa e vai abrir um brechó no Chelsea. Quase previsível. Tudo morno.
Mas, lógico há cenas engraçadas. Uma pessoa mal-humarada tem sempre algo de caricato: Boris dando aulas de xadrez para crianças é algo impagável; tentando explicar coisas para uma Melodie, burrinha como uma porta; a sogra em franco bombardeio contra o casamento – mesmo depois de ter se “liberado geral” para os amigos de Boris.
No entanto, as tiradas de Allen, ditas por Larry David, tornam-se artificiais pois nem Larry David é ator, nem o que Allen escreve lhe cai bem – eu tenho uma teori de que os papéis se encaixam nos atores e não os atores escolhem os papeis. Para quem não sabe, Larry David criou uma das melhores série americanas dos últimos tempos – não, não falo de Sienfield, série da qual nem gostei tanto, falo de Curb your Enthusiasm. Na série representava um personagem chamado Larry David, um homem que se mete numa série de situações embaraçosas criadas por ele próprio. Ou seja, interpreta ele mesmo em frases curtissimas. O que um dia ja me fascinou pela verborragia de Woody Allen, parece agora que não passa de piadas requentadas e com jeito de que já vi em algum lugar, além de ser interpretada por um ator especialistas em sketches. Alias, diga-se de passagem o papel tinha sido desenhado para Zero Mostel.
É exagero dizer que é um filme auto-biográfico por dois motivos. Primeiro, a diferença de idade entre Boris e Melodie não é explorada em nenhum momento, apenas no fim da relação quando ela o troca por um valete de sotaque britânico ou australiano. Segundo, por que, com a chegada de Marietta a estória deixa de enfocar Boris, para falar dos amigos, da ex-sogra...enfim, de tudo, menos de Boris, ou de Allen, como queiram...
Em whatever works, quase nada deu certo nem o esquema de mockumentary. Por isso ainda fico com Annie Hall, Manhattan, Hanna e suas irmãs e Zelig.
Segunda-feira, Novembro 16, 2009
Everyman

Não quero divagar sobre o fascínio que Roth exerce, ao narrar fatos tão prosaicos na vida de um homem comum. Mesmo escrevendo um livro apenas razoável - que passa longe da temática da tensão entre as duas américas que o destacou. O livro começa com o enterro do homem sem nome, que poderia ser qualquer homem, pois seguindo a lógica de que a morte iguala todos, o protagonista só pode se chamar Everyman....
Around the grave in the rundown cemetery were a few of his former advertising colleagues from New York, who recalled his energy and originality and told his daughter, Nancy, what a pleasure it had been to work with him. There were also people who'd driven up from Starfish Beach, the residential retirement village at the Jersey Shore where he'd been living since Thanksgiving of 2001-the elderly to whom only recently he'd been giving art classes. And there were his two sons, Randy and Lonny, middle-aged men from his turbulent first marriage, very much their mother's children, who as a consequence knew little of him that was praiseworthy and much that was beastly and who were present out of duty and nothing more. His older brother, Howie, and his sister-in-law were there, having flown in from California the night before, and there was one of his three ex-wives, the middle one, Nancy's mother, Phoebe, a tall, very thin whitehaired woman whose right arm hung limply at her side. When asked by Nancy if she wanted to say anything, Phoebe shyly shook her head but then went ahead to speak in a soft voice, her speech faintly slurred. "It's just so hard to believe. I keep thinking of him swimming the bay-that's all. I just keep seeing him swimming the bay." And then Nancy, who had made her father's funeral arrangements and placed the phone calls to those who'd showed up so that the mourners wouldn't consist of just her mother, herself, and his brother and sister-in-law. There was only one person whose presence hadn't to do with having been invited, a heavyset woman with a pleasant round face and dyed red hair who had simply appeared at the cemetery and introduced herself as Maureen, the private duty nurse who had looked after him following his heart surgery years back. Howie remembered her and went up to kiss her cheek.
Na cerimônia, após as elegias de praxe, quando os poucos amigos e familiares lançam as últimas pás de terra sobre o caixão o narrador começa a contar a estória deste herói diferente. Everyman começa com a morte de um homem sem nome e termina com uma ladainha sobre o definhamento senil, o pior dos castigos que as Moiras nos destinam. Mesmo tergiversando e escrevedo sobre temas tão... mórbidos, Roth é ainda o velho Philip Roth. Quando li algumas resenhas sobre o livro, diziam ser Everyman um livro baseado num poema medieval... suspeito que Everyman pode ser qualquer homem por outras razões. Everyman é o nome da joalheria de seu pai erguida após a II Guerra num lugar de New Jersey chamado Elizabeth. Nunca chegou a ser um império a tal joalheria, pois a clientela era composta pelos Bruttis, sporchis e cattivis, por operários e estivadores dos portos de Jersey. Na verdade, o pai nunca se preocupara com as idéias de grandeza. Preocupava-se em fazer amigos, em vender a crédito fácil anéis de noivados com pequenos diamantes, tendo como único prazer ver os filhos crescerem, e ser chamado para os casamentos dos noivos para quem vendia suas jóias. Um homem que fazia da amizade um bem. Sua preocupação era dar aos filhos o exemplo. Os dois irmãos, portanto, como era de se esperar seguiram caminhos opostos. Um, tornou-se banqueiro, outro, nosso Everyman, ainda que não tão bem sucedido economicamente como o irmão, tornou-se publicitário famoso e realizado na profissão.
Sabe-se também que por suas, vamos dizer assim urgências sexuais, pôs por terra três casamentos - e nesse ponto se parece muito com Alex Portnoy e a Jerry Levov, personagem secundário de Pastoral Americana. É um tipo paranóico e hipocondríaco que desde pequeno entra e sai de hospitais passando por cirurgia que vão desde uma hérnia aos 9 anos à uma série de pontes safena já na idade adulta. Em tempo, hodiernamente – eta palavrinha escrota -, um tipo que representa um pesadelo ao bloco “obamacare” no Congresso (risos).
Em suma, Philip Roth insiste no tema do envelhecimento e das urgências sexuais na terceira idade. Cá pra nós uma temática meio recorrente em suas linhas ultimamente. Nesse mesmpo caminho, mantém um leve aroma presente nos livros anteriores ao idealizar a infância e ver na imagem paterna a figura do herói, e na figura do irmão uma espécie de espector protetor que causa conforto inveja ao protagonista. Agora, acrescenta um novo componente, o tema da proximidade da morte. E parece que o principal motivo que levou ao escritor que já passa dos 70 anos a escrever essa obra foi a sucessiva perda de amigos, dentre eles Saul Bellow. Inclusive, o primeiro capítulo foi escrito no dia seguinte ao funeral, onde estavam presentes o próprio Roth e Leon Wieseltier, editor literário da New Republic e amigo de Bellow.
http://www.nytimes.com/2006/04/25/books/25roth.html
O livro é uma espécie de exercício de meditação sobre a morte, e as vezes se torna meio maçante pois na tentativa de escapar do aspecto metafísico da finitude, Roth passa a descrever a morte, e o medo da morte, como um drible na dicotomia entre Tânatos e Eros, realcionando-a a algo essencialemente físico adscrito à mesa de operações. Há uma generalização exagerada na série de inúmeras intervenções cirúrgicas pelas quais o protagonista é obrigado a se submeter. Entretanto, Roth tem uma capacidade incrível de manter o fio da narrativa teso ao retratar um protagonista que chega à terceira idade solitário e frustrado, e com isso sutilmente esmagar qualquer ilusão sobre as opções que uma pessoa toma na vida, mesmo as mais banais como a de ter um caso com uma modelo sueca, sentir inveja dos companheiros de trabalho, mentir para a esposa, ou mesmo tomar um copo d´água.
Enfim, um livro que tenta nos convencer que morremos todos os dias e só nos não nos damos conta disso.
Música do dia. Carmem. Egberto Gismonti. Música de Sobrevivência.
UTNE
Revista diferente, irônica e ao mesmo tempo séria. Supostamente uma das melhores revistas da imprensa alternativa de Vanuatu. Encontrei uns números hoje na casa de um amigo, folheei e já trouxe uns 5 números antigos comigo. A tiragem é baixa, mais ou menos uns 2000 exemplares por mês, já que supostamente é uma revista para yuppies que se importam com algo no mundo.No número desse mês dalailama está na capa apenas como eufemismo para mostrar uma lista de 50 pessoas que hoje pegam no pesado para mudar o mundo. A lista começa com o poeta Christian Bök, passando pela ativista Noah Baker que trabalha com ajuda humanitária no Iraque, a Bob Stein co-fundador do Institute for Future of the Book, e terminando a lista com Patricia van Nispen diretora da ILA Microjustice for All.
Além da lista, no mesmo número uma repostagem ótima sobre os médicos que participaram das tortura em abugraibe forjando laudos e prontuários de presos.
Recomendo. As reportagens são curtas, objetivas e bem escritas.
Sexta-feira, Novembro 13, 2009
O Ator
dizer: eu tenho um tipo raro de,
estou a beira,
embora não aparente. Não aparento?
Providências: outra cor na pele,
a mais pálida; outro fundo para a foto:
nada; os braços caídos, um mel
pngente entre os dentes.
Quanto à tristeza
que a distância de você me faz,
está perfeita, fica como está: fria,
espantosa, sete dedos
em cada mão. Tudo para que seus olhos
vissem, para que seu corpo
se apiedasse do meu e, quem sabe,
sua compaixão, por um instante,
transmutasse em boca, a boca em pele,
a pele abrigando-nos da tempestade lá fora.
Daria a isso o nome de felicidade,
e morreria.
Eu tenho um tipo raro.
Eucanaã Ferraz. Cinemateca. 2008.
Quinta-feira, Novembro 12, 2009
Muros

http://news.bbc.co.uk/2/hi/in_depth/world/2009/walls_around_the_world/default.stm
Terça-feira, Novembro 03, 2009
Matias na Cidade
Ao acorda nauseado, vomitando, mas não necessariamente bêbado, decide procurar Henrique, o médico e amigo, para uma bateria de exames detalhados a saber se havia sido intoxicado. Nesses dias passa por uma via crucis pessoal. Imagina-se gravemente doente, fragilizado, desconhece-se, definha por dentro com a sua própria condição, certifica-se que seu casamento é uma falácia e em meio ao suspense de quem seria aquela mulher misteriosa do motel, busca obsessivamente por respostas, por uma cura talvez.
Aos poucos descobrimos nos detalhes de sua vida que Matias é um cidadão desencantado com a promessa de estabiliade e felicidade conjugal. Uma pessoa distante no trato com a família, com os amigos - que apenas aparecem para fins utilitários ou políticos -, e com os empregados. Nos detalhes. No sexo. Nos detalhes do sexo com a esposa, após um jantar na casa de amigos. Na impaciência. Na relação distante com o filhos e netos. Na distância. No detalhe do bilhete deixado para a mulher anunciando que iria fazer um checkup...
“S.
Vou fazer uns exames para o meu check-up e passarei a noite na clínica do Henrique. Voltarie amanhã de manhã. Não se preocupe, não é nada sério. Beijo, M.”
Nos pequenos detalhes, em tudo arde as imagens de um para o outro. Assim, sem mais, Matias procura constantemente outras mulheres. Procurando o tempo todo encontrar alguém que bastasse para ele povoar sua solidão, luta paradoxalemente contra a falência dos planos de juventude. A infelicidade conjugal não é uma arma para ferir a mulher, ao contrário, é a maneira que Matias encontra para manter convívio com Susana, sua esposa. No convívio dos dois não há o demoronamento das grandes crises, nem a violência das grande discussões. Ele nem sequer cogita em momento algum deixá-la, e vice-versa. Nenhum dos dois quer ir embora com asco, sem olhar para trás, preferindo a hipótese de que, como diria Lygia Fagundes Telles, o amor apodreça e se torne insuportável seu cheiro. Preferem a hipocrisia da família tradicional brasileira: marido, esposa, dois filhos e respectivos amantes. Tudo em nome da paz conjugal.
Em realidade, a esse pântano conjugal agregam-se outros mistérios no decorrer dos três dias restantes. Matias descobre-se só em seu universo de conforto e consumo onde o que o incomoda de fato é a cor e o modelo de seu carro. Os resultados dos exames parciais não revelam grande coisa. Os exames finais, o autor não nos permite saber aumentando ainda mais a incógnita sobre as neuroses de Matias. Susana descobre-se grávida já perto da menopausa. No enterro de Matias, constam apenas os dois filhos e os netos, Susana, e alguns poucos.
Last but not least, encerro fazendo beiçinho literário de crítico sapiente da Folha Ilustrada dizendo que a terceira pessoa é artifício seguro que o narrador usa para manter a distância tácita entre o desprezo e a compaixão por um protagonista ‘galinha’, hipocondríaco e solitário. Artifício eficiente, também, para exibir o fio condutor do enredo relacionando as personagens a um único vínculo, e por isso talvez apresentando-as um tanto estanques, de fato, como se fossem apenas acessórios da órbita de Matias. Certamente há algum deslize para o pseudolírico nas últimas passagens quando tenta chegar a casa de Orlanda na periferia para o batizado da neta da empregada e pára inopinadamente numa birosca para tomar uma cerveja e jogar sinuca com um desconhecido. Lá encontra uma balconista de com quem transa naquela tarde esquecendo-se de todos os demais compromissos - sem dúvida uma cena inverossímil. Pergunto. Houve ou não certo exagero nessa última possibilidade de felicidade romântica? Alexandre Porto certamente diria que não. Eu acho que sim, que ele aliviou a barra do seu protagonista. Enfim...
Domingo, Novembro 01, 2009
Versos de Vida y Muerte

Uns dias após a Organização de Direitos Humanos Anistia Internacional (AI) acusar o governo de Israel de negar aos palestinos o acesso livre à água potável, termino de ler a tradução espanhola de H.aruzei ha-h.ayim ve-ha-mavet de Amos Oz.
Versos de vida y muerte é uma novela onde nada é o que parece ser. O livro inicia com um narrador, que é um escritor, prestes a dar mais uma conferência onde imagina que o público exigirá dele frases de efeito, explicações precisas sobre a alma humana, exposições de seus métodos de trabalho... enfim tudo sobre o que ele não está absolutamente interessado em falar. Na tentativa de postergar o encontro, o autor dá voltas antes de chegar a conferência, e enquanto senta num bar e sorve um café, imagina que as pessoas à sua volta são personagens, tão ficcionais quanto suas próprias invenções. Sem dúvida uma novela muito mais leve, mas nao menos envolvente que A Tale of Love and Darkness, onde narra em forma auto-biogr’afica sua infância em Jerusalem ainda sobre o fim do Mandato Britânico sobre a Palestina e desemboca no fim tragico e chocante que é o livro.
Em Versos de vida y muerte as personagens captadas pela câmera do autor representam figuras urbanas, ao menos me pareceu, com aparência distinta diante da sociedade, mas com dramas e conflitos comuns a qualquer ser humano. Dramas que muitos tentam esconder dentro dos armários ou debaixo dos tapetes. Dessa maneira, no perfil destes é delineada uma temáticas universal, os jogos de poder entre duas pessoas inteligentes, entre um homem mais velho e experiente e uma mulher mais jovem, solitária e fragilizada. Dentre os personagens secundários que vão se formando em sua imaginação, está a garçonete Riki; dois amigos anciãos que sentem a falta do agonizante amigo Ovadia Hazzam; um redundante e infeliz jovem poeta chamadoYuval Dahán Dotán; sua musa inspiradora, uma amante da cultura Miriam Nehorait, a qual as crianças da rua a chamam de Miriam A Terrivel; um jovem da platéia que ironiza uma de suas perguntas, e por fim o próprio mediador da conferência. Para cada qual ele vai criando uma estória, medos, crenças, uma identidade própria e um destino inalienável. Na conferência, que não dura muito, felizmente, falaria de Zefaniah Bet Halahmi, um poeta já falecido que ainda em vida, ainda no tempo do processo de formação do Estado, escrevia para o jornal Davar Hashavwa sobre temas da atualidade tais como a imigração, os campos de refugiados, a conquista do deserto, os incidentes fronteiriços, o terrorismo. Mas o que fascinava o autor em Zefaniah Bet Halahmi era sua obra em si, Versos de Vida e Morte. Na saída de uma conferência da qual não esperava lá grande coisa, encontra Ruhele Reznick, uma mulher real, uma jovem solitária e pouco atrativa que vive com um gato chamado Joselito. O narrador é um homem separado já duas vezes e Ruhele, que apresenta um fresco semblante desprovido de defesas. A ligação entre os dois, em meio a vacilações por parte de Ruhele , acontece intensamente, pois ela revela que conhecera o poeta Zefaniah Bet Halahmi, quando este frequentava a casa de sua família. Podería-se falar muito mais da relação intelectualizada que ambos alimentam um pelo outro. Ela pelo autor famoso que decide abordá-la, e ele pela jovem entusiasta. Mas o narrador é um caso à parte. Cria e se compadece de suas criaturas, por duvidar o tempo inteiro se si, de sua competência como narrador. Prova disso é a primeira página da novela, onde o narrador desenlaça uma série de questionamentos sobre a autenticidade do ato de escrever. Oz põe em cheque aquela velha ladainha que encontramos em algumas entrevistas de escritores, geralmente jovens, que falam da sinceridade e do sofrimento do ato, como se o sofrimento implicasse na sinceridade. Oz ri – imagino. Uma novela de imagens belas que duvido recomendar aos menos sensíveis.
Quarta-feira, Outubro 28, 2009
Ano Grotowski
O último número da American Theatre Magazine traz uma reportagem especial sobre um dos diretores de teatro mais importantes e erráticos da segunda metade do século XX: o polonês Jerzy Grotowski. Mais conhecido como o inventor do Teatro Pobre, Grotowski, defendia uma forma de interepretação baseado no trabalho psiquico do ator, mais ou menos como Stanislavski postulara em seu livro A Construção da Personagem. Há certo exagero em afirmar que Grotowski privilegiava a expressão corporal sobre a palavra, o cenário, o figurino, visando o diálogo direto com o público. Há muito exagero, alimentado diretamente pelo próprio diretor que tornava seus retiros com os atores, exercícios quase tção dolorosos quanto os que Artaud proporcionava.
A UNESCO definiu 2009 como o Ano Grotowski. E eu modestamente muito recomendo o documentário With Jerzy Grotowski, Nienadowka 1980 e as partes de Devising Teatre: A Practical and Theoretical Handbook de Alison Oddley, sobre o diretor.
Música do Dia. Yo-yo Ma. Obrigado Brazil. Bodas de Prata & Quatro Cantos ( Gismonti)
Quinta-feira, Outubro 22, 2009
Incêndio destrói obras do artista plástico Hélio Oiticica
RIO - Um incêndio na casa da família do artista plástico, pintor e escultor Hélio Oiticica no final da noite desta sexta-feira, no Jardim Botânico, Zona Sul, destruiu 90% do acervo das obras de arte do artista, um dos fundadores do movimento neoconcretista. Segundo o arquiteto César Oiticica, 70 anos, irmão de Hélio, cerca de duas mil peças do artista, morto na década de 1980, foram queimadas, num prejuízo estimado em US$ 200 milhões. De acordo com a família, a coleção não tinha seguro. Ninguém ficou ferido e as causas do incêndio ainda são desconhecidas.
- Não tinha seguro, nem a casa nem a obra do Hélio. Fizemos um estudo, mas o valor era muito alto, não lembro mais qual era a cifra. O valor era tão alto que ficou inviável. Poderíamos fazer seguro contra incêndio que cobrisse só a casa, e não o acervo, mas acabamos não fazendo isso, decidimos arcar com os riscos - disse César.
De acordo com o arquiteto, o fogo começou por volta das 22h. Ele contou que jantava com a mulher e um grupo de amigos quando sentiu forte cheiro de queimado. Bombeiros do quartel do Humaitá foram chamados para apagar as chamas. Abalado, César disse que 90% do acervo do irmão - avaliado em 200 milhões de dólares - foi destruído pelo fogo.
- Qual a justificativa que vamos encontrar para uma tragédia como essa? - lamentou o arquiteto. - Foi a maior tragédia que poderia acontecer para a cultura brasileira. Sem dúvida alguma, a única vítima dessa tragédia foi a cultura brasileira.
O arquiteto, no entanto, descartou a hipótese de um incêndio criminoso. Segundo César Oiticica, no ateliê havia controle de umidade e temperatura para manutenção das obras, além de alarmes de presença e anti-incêndios. O tenente do Corpo de Bombeiros Yuri Manso informou que as chamas consumiram as obras com rapidez. Ainda de acordo com o oficial, só após laudo técnico é que será possível descobrir as causas do incêndio.
Segundo César Oiticica, entre as obras destruídas pelas chamas estavam quadros, documentários e livros. Obras consagradas como Bólides e os Parangolés - a primeira manifestação ambiental coletiva, envolvendo capas, barracas, estandartes e passistas da Mangueira, na mostra Opinião 65 - também foram destruídas. Só se salvaram os trabalhos que estavam armazenados em CDs e no computador da casa. Todo o acervo fotográfico do pai do artista, o renomado José Oiticica Filho, também teria se perdido no incêndio.
Considerado um dos mais revolucionários artistas de seu tempo, Hélio Oiticica nasceu no Rio de Janeiro, em julho de 1937. Ele morreu em março de 1980, após sofrer um AVC. Ao lado de nomes como Lígia Clark, Amílcar de Castro e Ferreira Gullar, Hélio participou do movimento neoconcretista e teve obras expostas em âmbito internacional.
Entre seus trabalhos mais conhecidos estão os parangolés (espécie de capas coloridas, arte para ser vestida) e penetráveis (instalações). É autor da conhecida frase "Seja marginal, seja herói", que escreveu em uma bandeira sobre a foto de um traficante morto publicada em um jornal carioca em 1968, durante a ditadura, e foi um dos grandes inspiradores do movimento tropicalista com sua obra "Tropicália".
O artista viveu de 1970 a 1978, Oiticica viveu em Nova York, onde participou da mostra Information, realizada pelo MoMA (Museu de Arte Moderna).
Em 1981, um ano após a sua morte - em 22 de março de 1980 -, foi criado no Rio de Janeiro o Projeto Hélio Oiticica, para preservar a obra do artista. A Secretaria municipal de Cultura do Rio criou o Centro de Artes Hélio Oiticica em 1996.
Para o diretor da Bolsa de Arte do Rio de Janeiro, Jones Bergamin, o maior legado de Oiticica eram seus projetos e anotações.
- O problema é que as obras dele existem espalhadas em coleções particulares e museus mundo afora, mas seus projetos estavam todos aqui. O valor artístico é muito maior que o financeiro. É uma perda incalculável - disse Bergamin em entrevista à Globonews.

Quarta-feira, Outubro 21, 2009
Orfãos do Eldorado

Bem, para início de conversa é uma novela que de forma alguma supera a Dois Irmãos – para mim, seu clássico. Entretanto, é uma grande novela pela elegância com que Hatoum apresenta a fracassada saga de Arminto Cordovil, durante a fase de decadência econômica do chamado ciclo da borracha. Arminto é um desses herdeiros dos anos de fausto, é um jovem manauense, que carrega o Cordovil no sobrenome, ou seja, vem de uma linhagem de empreendedores da selva que a ferro e fogo desvendaram - ou pensaram ter desvendado - os segredos do “Eldorado.” Com a morte do pai, torna-se um jovem rico, "órfão" e herdeiro não apenas de uma tradição que começa com o avô Edílio, passando pela sombra sempre pesente do pai Amando, mas também de uma próspera empresa de navegação que leva as bolas de latex do interior da floresta à embocadura do rio Amazonas.
Homem sem disposição empresarial, que por ingenuidade ou irresponsabilidade, perde pouco a pouco o império deixado pelo pai, evidenciando seu descaso para com o espólio - para desespero de Estiliano, uma espécie de avatar, um homem de muitos silêncios e procurador dos Cordovil -, o Arminto que conta a estória é evidentemente um homem velho que olha para sua vida com o ceticismo dos que pouco se importam com o porvir. Em sua tentativa de narrar a própria vida, conclui pouco a pouco que teve uma mãe morta precocemente e da qual somente restara um rosto em preto e branco numa fotografia rasgada, um pai que até o momento de sua morte no meio da praça da Vila Velha não passara de um mero desconhecido, e uma paixão que por algum motivo misterioso ou velado tornara-se irrealizável. Esta paixão tem um nome Dinaura. Uma das órfãs das carmelitas em Vila Bela, que lê romances e enfeitiça Arminto para o resto da vida levando-o à degradação. Ou seja, é como se a fiação das moiras o imolassem numa tapeçaria de detalhes inverossímeis cercados por lendas e mitos encalacrados na oralidade da floresta e traduzidos por Florita – sua iniciadora sexual e oráculo tradutor entre o mundo mítico inacessível e o desamparo da realidade crua.
Os motivos de sua decadência moral e até mesmo física, estão conectados. Com a mesma intensidade que a paixão e a busca obsessiva por Dinaura (uma orfã por quem se apaixona após, esta, digamos assim em linguagem figurada, dar-lhe sua muiraquitã no meio de uma moita) o persegue, afugenta-se com todas as forças da sombra dominadora de um patriarca quase que onipresente, mesmo depois de morto. Pensando bem, ambos, metáforas do Eldorado. E o Eldorado de Arminto é uma espécie de meio caminho entre a lenda e a realidade onde as artimanhas de sua memória tentam dar forma à espécie de limbo danteano (ou dantesco?) onde estão os carentes de batismo. Onde está a suspeita de um incesto. Onde não está a razão. Onde, suposta e ironicamente, encontra Dinaura. Onde o Eldorado permanece velado....
[…]
Na porta vi o rosto de uma moça e fui sozinho ao encontro dela . Escondeu o corpo, e eu perguntei se morava ali.
Moro com minha mãe, disse ela esticando o beiço para o outro lado do lago.
Onde estão os outros?
Morreram e foram embora.
Morreram e foram embora?
Ela confirmou. E reapareceu aos poucos até mostrar o corpo inteiro, retraído pela timidez e desconfiança.
Trabalhava nesta casa?
Passo o dia aqui.
Conhecia uma mulher… Dinaura?
Recuou um pouco, juntou as mãos, como se rezasse, e virou a cabeça para o interior da casa.
A sala era pequena, com poucos objetos. Uma mesinha. Dois tamboretes, uma estante baixa, cheia de livros. Duas janelas abertas para o lago do Eldorado. Parei perto do corredor estreito. Antes de eu entrar no quarto. O prático e a moça me olhavam, sem entender o que estava acontecendo, o que ia acontecer.
[...]
Dinaura? Outra? Um espectro? Mais uma das alucinações da selva? O desgramado do Hatoum não revela(!) tornando as suspeitas do final deste livro tão eletrizantes quanto as incógnitas que pairam na cabeça do narrador de Dois Irmãos... sua incerta descendência... Yaqub ou Omar? Ou seja, o Aleph de Hatoum continua velado. E isso é ótimo!
Sexta-feira, Outubro 09, 2009
389 Miles

O documentário não é uma obra prima mas é interessante como forma de exibir as imagens e as estórias das jornadas de milhares de seres humanos que cruzam a fronteira do México com os Estados Unidos. Imagens que muitas vezes apenas lemos nos jornais. Figuras, tais como coiotes, polleros, contrabandistas, que conhecemos pelos seus substantivos e nada mais. Estórias de sobrevivência, de tráfico humano, de estupro e corrupção em ambos lados da fronteira.
A milha um da viagem começa em Douglas no Arizona, onde um agente de la Migra, Patrulha Fronteiriça, apreende dois imigrantes ilegais, um do México e outro da Costa Rica. Este vê uma mulher andando por perto e de forma espontânea e sarcasticamente avisa ao agente e sugere a ele "fazê-la", ou seja, estuprá-la. Um dos pontos altos do doc é a entrevista com um coiote, um indivíduo que atravessa a gente, suborna a polícia e trata de toda a precária infra-estrutura para o cruzamento da fronteira. Um desses homens pode fazer de 200.000 a meio milhão de dólares ao ano – um salário que nem CEO de muita companhia consegue fazer.
389 Milhas: "Living the Border" é uma jornada humana, uma história documentada pelo diretor Luis Carlos Freitas, que cresceu à sombra da fronteira entre o México e Arizona. Ela apresenta a vida, a cru diários de seres humanos comprometidos economicamente, e as potenciais recompensas para aqueles que os exploram. Não existe um lado puramente bom ou ruim, só a parede de aço ou um fio de arame farpado enferrujado e complexa teia de emoções humanas e as questões por eles forjaram a sobrevivência, o tráfico humano, o estupro, a corrupção, o mal ea graça em muitos disfarces. O uso de uma câmera discreta permite que as personagens a falar, simplesmente, honestamente e com dignidade, não importa qual a sua posição sobre a imigração poderia ser. Juntos, eles formam um complexo mosaico humano que vai além do actual debate sobre imigração para explorar as relações humanas forjadas pela fronteira, de um sentimento de um bairro comum em toda a vedação, aos residentes fronteiriços, para vigilante patrulhamento policial ao longo da fronteira, em uma tentativa para selá-lo, os ativistas de ambos os lados da fronteira que estão tentando ajudar os imigrantes em situação irregular em sua jornada dura, traiçoeira e imprevisível. Às vezes a fronteira é pouco visível, apenas uma cerca de arame farpado. Às vezes, é uma parede de aço formidável.
A milha 389 termina em San Luis, Sonora, México em um acampamento de migrantes em um local remoto do deserto onde estão instaladas centenas de maquiladoras, um lugar remoto e de passagem, onde as pessoas esperam para atravessar a fronteira. O documetário é bem preciso em não acompanhar nenhuma história pessoal em particular - me parece que este foi um dos cuidados tomados pelo rapaz - , e consistente em concentrar-se na fronteira em si, nessa marca muitas vezes invisível que desliza no chão e atravessa várias histórias que a costuram em idas esperançosas e retornos deportados, a linha divisória que mostra um mundo pequeno em todos os sentidos.
Uóli

Wall.E é um Waste Allocation Load Lifter - Earth Class. Pra resumir, é um sucateiro nos moldes dos antigos burros-sem-rabo que viamos pela cidade puxando uma carroça cheio de entulhos. Wall.E é um robô que compacta lixo, pois a Terra se tornara inabitável a existência humana. Os humanos, que nela habitavam, foram enviados a uma espécie de cruzeiro de luxo interespacial, Axiom, onde a combinação de baixa gravidade e ociosidade transformou seus permanenentes passagerios em paródias preguiçosas deles mesmos em sua obesidade constrangedora. Vários Wall.Es faziam o serviço de coleta e compactação do lixo deixado para trás pelos antigos habitants da terra. O problema é que sem manutenção, sem um óleo aqui, uma correia dentada alí, uma chaveta mal instalada acolá, ou um ajuste na correia dentada, os próprios robôs foram virando sucata, e restou apenas o nosso Wall.E para fazer todo o serviço.
Para começar, Wall.E não se trata de um boneco nos moldes de Pinocchio, em sua ânsia em adquirir forma humana. Wall.E é um robô e ponto. Como robô, não percebe que é solitário. No entanto, seu senso de solidão é um tanto estranho pois sem perceber-se só, já que é um robô, possui um estranho sentido de ausência e passa a colecionar compulsivamente objetos dessa antiga civilização, como lâmpadas, telas de computador, correias, video-cassetes, fitas K7, enfim tudo que encontra pela frente em sua forma petrificada. Não se dá conta de seu fetichismo, na medida em que os artifatos humanos, mais que o valor utilitário de seu uso, revelam um senso de conexão com o passado.
Essa solidão de Wall.E é algo sintomático. Wall.E não fala – a propósito nos primeiros 45 minutos de filme não há sequer um diálogo. Como nos melhores filmes de Lon Chaney, mesmo não tendo a capacidade de diálogo, Wall.E tem uma face expressiva dominada por dois bióculos que tem a capacidade de expressar espanto, alegria, desconfiança e tristeza. Como diria Hannah Arendt, citando Platão, os olhos como janelas da alma.
Mas esse seu isolamento muda quando chega à Terra EVE - Extreterretrial Vegetation Evaluator. Eve chega e transforma a realidade de Wall.E e vice-versa. Ela é só bussiness. Chega para coletar alguma espécie de vida vegetal e reportar a Axiom. Quando encontra Wall.E sua vida também muda pois ele mostra-lhe um outro mundo possível. Um mundo meio remendado, meio aos trancos e barrancos, sequioso de mudanças, mas que funciona e acima de tudo delineia as feições e as cores distintas, mais imprecisas, mais poluídas, da alteridade.
Domingo, Setembro 27, 2009
Sábado, Setembro 26, 2009
Estive em Lisboa e Lembrei de você

O livro faz parte da coleção Amores Expressos, que lembro ter rendido muita polêmica infrutífera na época. No livro, que divide-se em dois momentos (“Como parei de fumar” e “Como voltei a fumar.”), Ruffato conta a estória de Serginho, uma figura pacata, que vive uma vida sem grandes ambições. Os dois momentos expressam bem a tensão que levara a este amanuense modesto, peladeiro de fim de semana e funcionário da pagadoria da Companhia Industrial de Cataguases a parar de fumar, como esse cara gregário e boa praça, sem grandes ambições, acaba por se envolver com Noemi que engravida, forçando-o a casar.
Na primeira parte da história, passada no Brasil, vemos Serginho imerso em problemas não necessariamente criados por ele, mas que por força das circusntâncias vão lhe azedando a vida. Primeiro, uma gravidez indesejada. Segundo, um malfadado casamento já condenado desde o princípio a naufragar. Noemi, moça de “idéia fraca,” podia ter bem dado uma outra solução para o destino de Serginho, mas não, prefere ter o filho. Só que tempos depois, o casamento forçado por Carvalho, pai da moça, começa a dar sinais de esgaçamento. Noemi é instável, “ora prostrada na cama o dia inteiro, sem força para trocar a fralda da criança, ora virando noite sem pregar o olho, numa falação sem fim[...].” Os altos e baixos tornam a relação insustentável. Com a mulher ruim da cabeça, com a responsabilidade de Pierre, o filho, em suas mãos, com um emprego que já andava bamba, e a doença da mãe... sua vida entra quase em rota de colisão. Os Carvalhos decidem então internar a moça numa clínica de repouso em Leopoldina e ainda demandam contra o pobre Serginho um processo por maus tratos, negligência e abandono de incapaz. Natural Serginho se sentir esgotado com tamanha adversidade. A resignação de Serginho frete às circunstâncias da vida parece a de um bunda mole mas não é não. Não é homem de desistir fácil, mesmo com todas as adversidades, bem como lhe dissera certa vez a Mãe Célia, que baixava na progenitora da Irineia, uma de suas namoradas. Um dia conversando com os pinguços no bar, indagado sobre “O que você vai fazer da vida agora, ô Serginho.” “Pro enstrangeiro,” ele responde! Destino: Portugal.
Um pequeno parêntese deve ser feito para dizer que o livro, em meio a toda a ziquizira que envolve a vida de Serginho, tem passagens divertidíssimas, como por exemplo quando Serginho fala do tio Zé-Carlim, com quem dividia o quarto nos tempos de Cataguases, e que era fanático por automobilismo a ponto de espalhar cartazes do Emerson Fittipaldi e de sua Lotus pelas paredes do quarto...e que “por ironia, morreu cedo, nem trinta anos, no trevo da saída de Ubá, única vítima da batida entre um ônibus da linha Belo Horizonte-Muriaé e o Chevette do seu Lino [...]”. Ou por exemplo, quando vai conversar com o lacônico português Oliveira, que lhe dá dicas de como é o avião da TAP, “apertado,” “Tem banheiro?” “Tem Comida no avião?” “Passaporte?”...E de quando na cidade se espalha a notícia de que Serginho vai “pra fora”, e o amigo Ivan Cachorro Doido, assim como eu, um encostado do INSS – vide meu perfil no blog –, começa a procurar imóveis para o futuro nababo Sergio na região da rua Humberto Mauro, onde só há residências de bacanas e que Serginho reluta. O amigo prontamente filosofa, “Depois de conviver” com a civilização em Portugal, “Alta cultura,”não ia conseguir mais aturar o povo de Taquara Preta, sem educação, sem modos nem compostura, desclassificado, “Mas lá só moram os picagrossas,” Serginho rebate.
Vemos que na primeira parte do livro há uma caracterização perfeita do ambiente de Cataguases. Não me furtei de pensar, bem Ruffato está escrevendo sobre um protagonista angustiado em continuar vivendo numa cidade pequena cercada de gente pequena, mas ainda assim escreve sobre um habitat de tipos folclóricos facilmente identificáveis na rua, na sua rua. Na segunda parte do livro, sim, causa surpresa pois Ruffato escreve sobre Serginho já em Portugal como imigrante ilegal brasileiro. Ou seja, está escrevendo sobre uma realidade que não é a sua, que requer inventividade e mão firme para prender o leitor. Ou seja, sem muito exagero pode-se dizer que há um século, um mestre escrevia na periferia do capitalismo, e que hoje dada as circunstâncias que levam milhões de brasileiros como Serginho a emigrar, Ruffato escreveu um livro no centro do capitalismo, sobre a visão do imigrante, em outras palavras sobre a visão do periférico no centro do capitalismo, àquele que não só está à margem da lei mas também de uma cultura que por mais que os acordos ortográficos se esforçem é distinta. Em Portugal, convive com suas limitações e frustrações que vão desde o preconceito das autoridades, a competição férrea dos novos imigrantes vindos de leste europeu, a falta de emprego, de dinheiro e de amor.
O que admito no Ruffato é sua liberdade de expressão, seu realismo de falas naturais sem a idealização de uma linguagem artificial, tampouco na evocação de uma linguagem pobre. Os personagens incrivelmente reais não alimentam sentimentalismo barato, mas nem por isso evocam a indiferença do leitor. Sua autêntica razão talvez resida no fato de aurtorizar discursos, dando visibilidade, dando voz a personagens que não tem voz, nem na literatura, nem na sociedade. Tais discursos já haviam sido desvelados por Drummond, Graciliano, Dyonelio Machado e uma série de outros autores, mas este, apesar de um livro pequeno, na forma quase de um conto, prova por que Ruffato está entrando para o time da ficção contemporânea no Brasil com uma prosa fluida de personagens aparentemente prosaicos mas não necessariamente vulgares, enredos breves mas não necessariamente superficiais, e um conteúdo denso que foge das banalizações.
Quinta-feira, Setembro 24, 2009
Aonde o Vento me Levar

Li. Sinceramente, na primeira vista não gostei. Comentei com esse amigo e disse que faltava-lhe algo que nem mesmo eu sabia explicar. Talvez ação, talvez um contorno maior da psicologia do protagonista. Meu amigo insistiu. Conheço esse amigo a suficientes anos para saber que ele não é um leitor amador, que não é um profissional qualquer da literatura, e que assim como eu constata com certo incômodo, que a lógica da narrativa formal causal-linear sofre de uma certa debilidade no relato contemporâneo, agora ligeiro, disperso, fragmentado e superficial; de uma acumulação de superficialidades e lugares comuns. Se insistiu é por que merece uma releitura.
Reli, ontem. Mudei de idéia completamente. Descobri num novo livro um livro muito bom, e uma personagem principal, ainda que imersa numa vida monótona, interessante: o escritor. Explico: a personagem principal é um contador, uma espécie de guarda livros, um pacato funcionário que habita a monotonia e o conforto de um escritório, massacrado pelo cotidiano, e movido pelo sonho de escrever um livro.
O problema é que sua vida, cercada pela solidão e pela racionalidade matemática, não admite erros, falhas, discordâncias. As colunas somatórias do Excel devem estar impecavelmente alinhadas e as contas, no fim do dia, devem bater. E tem um problema maior. Antes de iniciá-la, não tinha uma idéia ou sequer estória definida. Portanto, como todo o escritor, sobre a folha branca deveria inventá-la. Assim, começa pela elaboração de um personagem. Seu personagem principal se chama M.. M. é uma criatura que com o passar da estória torna-se um ser autônomo. Este lhe conta a estória de um grande amor perdido por uma tal Rosa, nome que nunca agradou ao escritor, preferindo chamá-la em seu relato como Atla. Ou seja, o escritor inventa um personagem e o personagem domina o escritor e o conduz por caminhos desconhecidos. Para narrar a estória o contador decide matar Atla no primeiro capítulo do livro que escreve e sugerir a seu personagem que viaje para a Africa a procura de um novo amor. A estória então se torna interessante, pois é evidente que o Eu do escritor se propõe a escrever um livro de viagens baseado nos telegramas enviados por M. da Africa. Há então um jogo interessante entre o criador, que não se sabe bem quem é e a criação deste autor.
Para quem tem familiaridade com os filmes Being John Malkovich ou Eternal Sunshine of the Spotless Mind, pode constatar que há algo em Marmelo que pode-se encontrar nos filmes do brilhante roteirista Charles Kaufman. Ou seja, em meio a estórias aparentemente confusas e enredos inverossímeis, existe um jogo envolvente apresentando-nos um narrador céptico. Na estória de Marmelo, o protagonista, ou seja o contador-narrador, maldiz o excesso de realidade e de monotonia em sua vida. Nessa tensão entre um protagonista rígido e um antagonista livre para viajar, para amar Atla, Amina, Fathma... e para reinventar-se, protagornista e antagonista acabam por intercambiar seus papéis, pois mesmo que o narrador lamente constantemente a abundância de realidade que surge em sua escrita, consegue nessa tensão, entre o que deseja escrever e o que consegue expressar por palavras, realizar o que em suas palavras seja um exercício literário honesto.
Outro paralelo poderia se traçar entre o nosso contador e Daniel Quinn, personagem que persegue Paul Auster em Trilogia de Nova York. A única e irônica diferença é que nosso próprio narrador afirma precipitadamente - “eu sou o manipulador, e M. é o meu títere. E que não reste nenhuma dúvida sobre isso.” - ter controle absoluto sobre M.. Ironicamente, isso deixa de ser verdade no momento em que M. começa a dominar a narrativa com seus telegramas, envolvendo o próprio contador em suas estórias de aventuras e amores na Africa. A questão é que tanto quanto Craig Schwartz conhece John Malkovich, e Quinn muito bem conhece a Auster, desconfio que nosso contador-narrador conhece bem M.. Desconfio de uma ou duas outras coisas mais.
Desconfio, por exemplo, que na verdade M. seja um médico galego que deixou tudo para trás indo trabalhar em Lisboa. O que me leva a suspeitar da real identidade de M. é num de seus telegramas, dando conta que conheceu uma liberiana de nome Fathma por quem se apaixonou. M., através de seus aerogramas enviados ao contador-narrador de Marmelo, oxalá, escreve uma narrativa reinventando-se. Os telegramas, de tom sincero e confidente, não deixam de ser um ajuste de contas consigo, que o contador-narrador de Marmelo vai tratando de desvendar, ao mesmo tempo que vai mostrando sua face extremamente introspectiva. Fathma pode muito bem ser o alter-ego de Oriana ou até mesmo Ondina... mas isso são suposições...
Mas mesmo que o contador-narrador de Marmelo construa uma ficção sobre as imagens criadas por M., e que a partir delas tente fugir de sua própria realidade, ocultando a sua realidade como motor da obra literária, no final, em Londres, quando encontra G., uma colega do curso de contabilidade que prometera guiá-lo pela cidade, tudo passa a fazer sentido: Aonde o vento me levar.
Terça-feira, Setembro 22, 2009
On the Waterfront
Um dos estivadores que passara a denunciar as atividades ilegais do sindicato, Pop Doyle, é assassinado pelos capangas de Charley Malloy. Edie Doyle, irmã do morto, pede a Terry ajuda para encontrar os culpados. O problema é que Terry colaborara com a captura do irmão de Edie. Com a cara mais dura que alto grau de dureza Rockwell e a consciência pesando mais que liga de molibdênio, Terry promete ajudá-la e decide procurar o Padre Barry que o força a entregar os culpados as autoridades. Ou seja, por amor, Terry que é tão mafioso quanto os outros, decide dar combate a toda a corrupção que campeia a ação do sindicato. Ou seja, um novelão onde certamente Terry, voilá, na minha psicanálise de banca de jornal, podia bem ser o alter ego do Kazan.
Mas reconheço que o breve monólogo do Marlon Brando venceria qualquer Oscar ainda hoje.
“Remember that night in the Garden? You came down to my dressing room and you said 'kid, this ain't your night. We're going for the price on Wilson'... You was my brother, Charlie. You shoulda looked out for me a little bit so I wouldn't have to take them dives for the short-end money. I coulda had class. I coulda been a contender. I coulda been somebody, instead of a bum. Which is what I am. Let's face it.”

Le Colonel Chabert

O problema é que assim como Napoleão de fato está morto, o Coronel Chabert está apenas teoricamente morto. Chabert tinha sido atacado por dois oficiais russos na Batalha de Eylau em 1807 e dado como morto. Neste meio tempo, entre a vida e a morte, um amigo dos campos de batalha, Boutin, fora a Paris levar a notícia da convelescência de Chabert à sua esposa, a jovem Rose Chapotel. Vivinho da Silva, escreve umas quatro cartas a sua esposa que capitunamente – advérbio de modo para Capitú – mantém segredo sobre as cartas e dá entrada na papelada do espólio. Após alguns anos, Chabert descobre que a senhora Chabert casara-se com o Conde de Ferruad passando a ser senhora Ferruad.
A estória vai ficando clara quando Chabert decide, numa manhã de fevereiro, procurar o jovem advogado Derville - que aparece em algumas outras obras como em O Pai Goriot [resumo em caminho] - , que dormia num dos quartos de seu étude, enquanto seus auxiliares rascunhavam petições e revisavam o trabalhos recém-chegados. Uma das petições era fina e i-ro-ni-ca-men-te sobre uma longa peça jurídica, em que o rei Luís XVIII restituía a seus servidores todos os bens não vendidos que estivessem sob o domínio da Coroa ou sob o domínio público, expropriados durante os períodos revolucionários. Entre piadas de mau gosto e o humor dos médicos legistas os auxiliares riam de suas próprias invenções e esperavam que o juiz encarregado do processo ficasse impressionado com a argumentação que teciam.
O Coronel Chabert, a princípio não causa boa impresão a Derville. Sua aparência esfarrapada, degradada e carcomida pelo tempo, causou uma certa reulsa ao jovem procurador, que via em seu rosto pálido a aparêcia triste dos que tinham perdido tudo. Derville, que defendia os interesses de seus clientes no Tribunal de Pimeira Instância do departamento do Sena, era considerado um dos melhores jurisconsultos de Paris. Sua clientela era importante e é pintado por Balzac como um jovem bom, mas que tem um sentido de oportunidade e um faro para o dinheiro bastante apurados. Chabert quer seu dinhero e mais que isso, sua honra restituida. Para isso contata a Derville, que lhe adianta uma pequena monta de dinheiro para que o Coronel pudesse viver com mínima dignidade até um possível acordo entre as partes. No entanto Derville é também procurador do Conde de Ferruad e para evitar um escândalo, propõe às partes um acordo.
Cheque: se Rose Chapotel reconhecesse Chabert, terá de anular seu casamento com o Conde de Ferruad, com quem tem dois filhos. Chabert, não tendo nenhum familiar próximo que pudesse identificá-lo, baseado nos documentos de defunção vindos de Heilsberg, só conta com Rose. Ela, capitunamente, dá uma de João-sem-braço, (perdoe o trocadilho) finge-se de morta, apela para a hipócrita condição de mãe de dois filhos tentando convencer a Chabert de sua fragilidade e condição oprimida. Derville propõe um acordo pois a situação de Hyacinthe Chabert era delicada. Nem seus bens, nem sua honra estavam sob o domínio da Coroa ou sob o domínio público, expropriados durante os períodos revolucionários, portanto a restituição não seria feita por decreto. Além disso, vários motivos tornavam tudo mais complicado. Primeiro, supondo que Rose o reconhecesse, ela incorreria no crime de extra matrimonium corneamentus por ricardisse bigâmica, já que está casada legitimamente com o Conde Ferruad com quem tem dois filhos – e obviamente ela não incorreria no risco. Segundo, os juízes poderiam muito bem anular o primeiro casamento que sem filhos expunha um vínculo frágil entre Chabert e Rose. Terceiro, sendo Chabert generoso e idealista, fizera um testamento endereçando uma quarta parte da herança para obras de caridade. A “viúva” não incluíra no espólio nem prataria, mobiliário, ou dinheiro, apenas propriedades. Portanto, mesmo que reavesse algo, Chabert ficaria com uma mínima parte. Por último... a justiça naquele tempo, na França, era morosa... Chabert era um ansião... assim, Derville propõe um acordo amigável, anulando o registro de óbito e seu casamento. Com isso, por influência do conde Ferraud, Chabert seria reinscrito nos registros do exército, obtendo o grau de general Juruna - na gíria da caserna - com direito a uma pensão.
No dia do acordo, Chabert e Rose frente a frente, não houve acordo. O tempo fechou. Armou-se o maior barraco. Ela o acusava de impostor, ele, por sua vez, afirmara que ela era protitutamente quenga da mais alta piranhuda espécie no Palais Royal. Verdade ou não, ela sente-se ofendida e sai do escritório do advogado chorando, correndo e fazendo beicinho. Porém, fica do lado de fora de sua carruagem esperando por Chabert. Na saída aproxima-se de Chabert toda edulcorada, cheia de lesco-lesco, fazendo questão ele fosse com ela à casa de campo em Crosley. Durante o trajeto, procurou chegar ao coração mole do milico, mostrando o quanto seria desgastante para todos aquela situação. Ficaram lá por três dias, fazendo o quê, eu não sei, nem Balzac revela. Mas o fato é que não chegaram a um acordo. E como madame Ferraud não era flor que se cheirasse, armou uma cena com os criados da propriedade.
Ela queria internar o Coronel como louco no hospício de Charenton. Para isso precisava da assinatura de Chabert num documento onde este admitia sua falsa identidade. Derville longe, não sabia de nada. Ela manda trazer os filhos tentando mostrar a Chabert que ela era uma mãe dedicada, sofredora e penitente, e que se ele continuasse com a demanada ele prejudicaria seus filhos. Ele até aventou a hipótese de virar arrimo de família, habitando a quinta, tendo uns tostões para o jornal e o tabaco. Mas ela tinha outros planos. Encarregou Delbec, um velho secretário, a providenciar, junto ao tabelião de Saint-Leu-Taverny, um documento vago para ser assinado por Chabert. Estes partem para Saint-Leu-Taverny, mas chegando ao cartório e vendo os termos do documento, Chabert decide voltar para a quinta sem assinar nada. Decide pensar no que fazer. Ficar a sós com Rose. Ele espressara seu desprezo por ela e partira.
A situação de Chabert é tão humilhante quanto compassiva. Derville é informado por Delbec que seu cliente reconhecera sua falisade ideológica. Derville decepcionara-se com seu cliente até que algum tempo depois, procurando por um advogado no prédio da Polícia Correcional, encontra a Hyacinthe, condenado por vagabundagem a dois meses de prisão em Saint-Denis. Aproximou-se dele que com um ar estóico e altivo explicou o que se passara naqueles dias na quinta.
Derville entra em parafuso com sua profissão dizendo que “nossos escritórios são esgotos que não se podem limpar.” E num monólogo ilustrativo expõe sua visão bucólica sobre a condição humana, “Vi morrer um pai, num sótão , sem vintém, abandonado por duas filhas a quem dera quarenta mil libras de renda. Vi queimar testamentos; vi mães roubando seus filhos, maridos reduzindo esposas à miséria, mulheres matando seus maridos e servindo-se do amor que lhes inspiravam para fazê-los loucos ou imbecis, para poderem viver em paz com seus amantes. Vi mulheres dando ao filho do primeiro leito gostos que deviam conduzi-lo à morte, a fim de enriquecer o filho do amor. Não posso dizer-lhe tudo que vi, porque vi crimes contra os quais a justiça é impotente. Finalmente, todos os horrores que os romancistas julgam inventar estão sempre abaixo da verdade. Você conhecerá essas belas coisas. Quanto a mim, vou viver no campo, com minha mulher.”
Música do dia. A Trombone on Tereza Street. Ian Guest. in Vittor Santos, Renewed Impressions.
Sexta-feira, Setembro 18, 2009
Sexta-feira, Setembro 04, 2009
A Casa de Alice

Talvez este tenha sido um dos ótimos filme brasileiro que eu merecia há tempos assistir. Alice, interpretada pela impresionante atriz Carla Ribas, não é uma mulher linda, mas é uma mulher bonita, atraente, e certamente meio desleixada com sua aparência. Alice, como já disse, se esforça para transformar sua casa num lar. O problema é que em sua relação com o marido já não há amor, portanto não há sexo, e tudo não passa de um convívio de indiferenças. O marido é um homem frio e distante dentro de casa. Na rua tem amigos, bebe, ri e tem até uma amante ninfeta, que por acaso é vizinha. Os filhos são ociosos e problemáticos. O mais novo é apático mas carinhoso, o do meio encrenqueiro e ladrão, e o mais velho michê. A mãe, senil, hipertensa e cega, fragilizada pela indiferença e pelo desprezo dos meninos e do genro. Mas se perguntada, Alice, no salão, garante com ar de banalidade que em casa está tudo em ordem, que os filhos são maravilhosos e que a família vai bem, obrigada. De uma certa forma, Alice mente pois sabe que tudo está prestes a desmoronar, pois sabe que é uma mulher massacrada pelo que o cotidiano tem de mais cruel, a falta de esperança. No entanto, Nilson, um antigo amor, surge meio que por acaso na vida de Alice. Ela volta a se apaixonar, a encontrar uma razão. Mas a antepenúltima viga dessa estrutura frágil cai, quando Alice descobre que o marido tem um caso com a vizinha, uma menina de...14, 13... anos. A penúltima cai, quando é abandonada por Nilson e a última quando se descobre só, irremediavelmente.
O filme é realista. As falas naturais. Os personagens incrivelmente reais. A câmera treme e muitas vezes foca mais nas expressões corporais que na fala do personagem. Não há sentimentalismo barato. Não há recurso artificial algum (flashback, música, narrador…). Enfim, descubro nos extras do DVD uma entrevista ótima com o diretor Chico Teixeira. Descubro nesse meu xará um profissional, um ex-economista com pós-graduação, que chutou tudo para o alto para fazer o que queria, documentários. Pensei: tá explicado. Extremamente sincero e despido de intelectualismo barato, o diretor me convenceu que o filme é uma espécie de documentário sobre uma ficção. Quase como uma nova experiência de linguagem, tão ou mais importante quanto aquela experiência do grupo Dogma 95, sem a soda cáustica de seus roteiros sofríveis, com personagens intelecutalizados, afetados, inverossímeis, apesar das imagens inovadoras. E não é que só hoje pela manhã me veio a idéia que não há uma uma nota, uma trilha sonora no filme inteiro! Tremenda ironia. Nunca pensei que o realismo italiano pudesse se sustentar sem as notas do Nino Rota....
Quinta-feira, Setembro 03, 2009
Primer Amor

Vladimir Petrovich. 16 anos, ou seja, para bom entendedor pingo é letra. Exalando testosterona pelos poros vai passar umas férias no campo com a família. Lá conhece Zenaida Alexandrovna Zasyekina, uma moça de 21 anos que pertencente a uma família em franca decadência, com uma mãe divorciada, e que ainda mantém algum prestígio por pertencer à nobreza. Mas para Vladimir, que desconhece a palavra pindaíba em russo, isso não importa. O que importa é que mesmo Zenaida tendo um monte de pretendentes, que podem tirá-la da situação de pindaíba financeira, sua paixão arrebatadora, digo, a paixão arrebatadora de Vladimir é maior que tudo.
Não é preciso avançar muitas páginas para perceber que em Zenaida, digo, no ser de Zenaida é cheio de vitalidade e de beleza, e havia neste uma mescla de astúcia e despreocupação, de afetação e sensibilidade, de calma e vivacidade. Ou seja, Zenaida, para além de sua situação calamitante de pindaíba financeira, estava na flor da idade e queria flertar e amar sem preocupação. Pretendentes não faltavam. Belovsorov, a quem chamava de ‘meu animal’ – que para bom entendedor, pingo é letra -, era o que lhe ateva fogo... Maidanov era o poeta que tratava de convencê-la em versos que a adorava... Lushin era um médico, o mais mordaz de todos os pretendentes, o que tinha alguma ascendência sobre ela... e o conde de Malevskiy era o mais escorregadio, cheio de palavras doces e toques sedutores. Zenaida se esbaldava e o pobre do Vladimir sofria às pampas na mão da danada da lúbrica Zenaida que, mesmo tentando, falha na recipocidade do amor ao rapaz.
Falha de maneira brutal, pois usa com Vladimir os mesmo jogos de sedução que usa com os outros homens mais maduros. Usa-os de maneira a não refreá-los ou sublimá-los em tempo algum. Sem reservas de controle sobre si, deixa-se levar por uma paixão altamente combustível e até mesmo trágica.
Vladimir descobre com uma tremenda dor, dentro de sua própria casa, após uma discussão dos pais, que o objeto do desejo de Zenaida é nada mais nada menos que seu pai Pyotr Vasilyevich. A família então decide partir abruptamente de Kaluzhkaya Zastava, deixando para trás o escândalo que começava a se formar. Após um último passeio a cavalo com o pai, este desata numa carreira sumindo na poeira. Vladimir tenta segui-lo, mas não o alcança. Chega então a uma cabana, onde o pai se encontrava perto da janela. Na espreita, observa quem estava na cabana era nada menos que Zenaida. Pyotr a surra com seu chicote. Ela beija os entalhes avermelhados da pele. Não, não se iluda, esta não é uma estória de pornografia. Mais bem uma estória que prova como um enredo pouco construído pode tropeçar no óbvio - do que podería estar implícito no próprio desenrolar da estória e nas obsessões de Vladimir, Pyotr e da própria Zenaida.
Oito meses depois os Petrovich recebem uma carta ameaçadora pedindo alguma recompensa não bem explicada. A Providência faz com que Pyotr morra poucos dias depois de um ataque do coração. Três ou quatro anos depois, Vladimir encontra Maidanov na saída de um teatro. Este revelha que Zenaida casara-se com um tal de Monsieur Dolsky. Quando finalmente Vladimir decide procurá-la, descobre que ela morrera poucos dias antes ao dar a luz. Enfim, uma síntese didática dos males do amor jovem sem a complexidade, sem a força, sem aquela sensação de limite do intolerável, do inapropriado que Dostoievski nos deixa. Ou talvez não tenha ficado satisfeito pois no fundo, o livro - lido numa noite - encaminha uma estória que poderia ser densa em sua paixão destruidora, em sua deterioração, em seu esgaçamento de relações filiais, para um recuo visível e nos proporciona solução decerto conciliadora com a morte de Pyotr e Zenaida. Enfim, talvez eu não tenha entendido Turguenev.
Terça-feira, Setembro 01, 2009
Luz de Agosto

Um dos muitos méritos de William Faulkner foi o de ter a ousadia de penetrar seu cutelo no coração do puritanismo norte-americano. Mais, é como se Faulkner tivesse dito a Deus, ô cidadão, fica de fora que em Yoknapatawpha mando eu. Ou num sentido mais prosaico, nesse universo puritano, é como se o nome de Deus fosse evocado a todo o instante, mas qualquer idéia que o associasse aos atributos de generosidade e solidariedade ficasse de fora, deixando o papo para os mortais.
A construção da estória em vários eixos narrativos é talvez a inovação de Faulkner. Um destes eixos está centrado no personagem principal Joe Christmas, a princípio tido como homem um branco que acredita ter sangue negro. Atormentado ou motivado por tal crença, Joe, age de maneira alheia aos valores dos brancos e instiga a intolerância racial que campeia no sul dos Estados Unidos. Num segundo eixo, uma outra personagem importante é Lena Grove, uma adolescente grávida que vem do Alabama e chega a Jefferson, a cidade ficcional criada por Faulkner em Yoknapatawpha County, a procura de Lucas Burch, o rapaz que a deixou grávida. No exato momento de sua chegada, a casa de Joana Burden, mulher de quem Joe Christmas foi amante, esta em chamas. Um terceiro eixo encontra sentido no reverendo Hightower, que é o personagem que ata as narrativas esparsas.
Joe Christmas é um personagem à parte. Um homem sem passado específico, uma espécie de órfão, que pouco a pouco vai se tornando uma espécie de pária, sem destino específico, à procura de sua identidade a ponto de quase perder de vez a razão nessa procura. Para o bom leitor, é um personagem que carrega um estigma que o força a ser indiferente por seu semelhante. Este mesmo estigma é usado para justificar seus atos violentos. É um personagem trágico e altivo que não se dobra às circunstâncias. Joe chega a Jefferson três anos antes do início da novela, ou seja, da chegada de Lena à cidade, ou seja, do incêndio e assassinato de Joanna Burden. Assim que chega, começa a trabalhar na lavoura, e este trabalho cria uma cortina de fumaça para a sua real atividade que é a de distribuição de àlcool durante a Lei Seca. E notório na cidade que Christmas é um homem que fabrica bebida clandestinamente durante a Prohibition - que vigorara nos EUA durante toda a década de 1920. Suas atividades ilícitas não chegam a chocar, pois acaba fornecendo birita a muita gente na cidade. As coisas mudam quando este passa a ser suspeito do assassinato da velha solteirona, de quem fora amante por algum tempo, quandoBrown, seu cúmplice na destilaria clandestina, de olho nos negócios do sócio, interrogado e pressionado, delata o companheiro. O sangue negro encoberto de Christmas, delatado pelo o assecla, desperta o ódio da comunidade. No mesmo dia em que a casa arde, chega à cidade Lena Grove.
Lena, após a morte do pai, vai morar com um irmão casado e cheio de filhos. O irmão é um homem rude, ‘doçura, delicadeza e idade florescente e quase tudo mais – exceto uma espécie de inteireza tenaz e deseperada e uma triste herança de orgulho familiar – tinham desparecido com a dureza do trabalho’. Após sofrer humilhações e ser constantemente chamada de meretriz, Lena foge de casa a procura do pai de seu filho, Lucas Burch. Sem destino certo acaba vindo parar em Jefferson, mais precisamente na serralheria de Mr. Breads, onde Byron Bunch trabalha. As proximidades dos nomes de Bunch e Burch acabam gerando um certo mal entendido fonérico – impressionantemente possível com o sotaque sdo sul dos Estados Unidos - , prontamente preenchido e aumentado pelos locais. Para muitos Buch é o pai da criatura que Lena carrega. O problema é que algo está fora do lugar nessa estória, mesmo para os mais interessados em tocar com a aldraba a porta do chisme. Bunch é um homem que segue à risca a ética puritana. É um homem trabalhador que dedica-se, inclusive aos sábados, a carregar carroças de tábuas e aos domingos, e após a jornada de trabalho anda mais de trinta milhas para ensaiar o coro de uma igreja. Seu amigo Hightower é o único que sabe de sua dedicação e entrega ao trabalho e à fé, e portanto seria algo diacrônico ser o pai da criança. Byron Bunch é um homem de poucas palavras, não por expressão de sabedoria, mas por inabilidade em usá-las. E um homem inculto. Faulkner é sutil ao contornar os detalhes seu intelecto, finalizando seus diálogos sempre com alguma reticência e evocando várias vezes sua admiração pela eloquência de Hightower.
Gail Hightower, é um homem que tendo sido reverendo, era obrigado a viver uma vida de aparências ao lado da esposa. Um homem fanático pelo passado de seu avô Confederado, julgado sumariamente por ser pego roubando um frango numa granja, e que proclama sermões inflamados causando desconforto na cidade evocavando constantemente a saga e o infortúnio do avô. Entretanto, não por ser difuso tampouco por ser repetitivo que Hightower é preterido, mas por que foi abandonado pela mulher, encontada morta pouco tempo depois. Os rumores que se seguiram o fizeram perder não apenas a mulher, mas sua reputação e sua congregação. Este passado distante ainda reverbera em sua vida eremita pois as desconfianças da preconceituosa sociedade local de Jefferson, que lhe vira as costas, são um componente fundamental para entender o destino de Joe Christmas, personagem principal dessa obra monumental.
Byron Bunch é o único que rompe esse círculo de isolamento e o visita eventualmente. Numa destas visitas Bunch pede que Hightower sirva de álibi a Joe Christmas, que ao escapar da prisão pelo suposto assassinato de Joanna Burden, se refugia na casa do reverendo. Interessante pois em nenhum momento do livro - ao menos que me lembre - fica claro que foi realmente Joe Christmas o assassino de Joanna Burden e tampouco é muito bem explicado - talvez eu necessite de uma segunda leitura - esse pedido de Bunch a Hightower, salvo por vagas razões. Sabe-se que quando Christmas foge do posto policial e se refugia na casa de Hightower, este o aceita, ainda que já seja tarde demais pois Percy Grimm ja anda em sua cola. Sabe-se também que Bunch é visto nas redondezas da casa de Joanna Burden enquanto a mesma ardia, mas nada é afirmado categoriacamente.
Mais interessante ainda é a falta de certezas em que Faulkner imerge o leitor evitando ser categórico sobre a relação entre Joe Christmas e Joanna Burden. A princípio, aquela era uma relação conflituosa, pois ao passo que Burden se dizia defensora dos ideais abolicionistas e fazia vista grossa para os pequenos roubos que Christmas efetuava, entrava em conflito com os demais habitantes da cidade por protegê-lo. Joe Christmas, por sua vez passa a sentir desprezo por Burden, uma mulher já em idade de menopausa, sem possibilidade de ter filhos e por isso mesmo entregue ao fanatismo religioso. Joe, que era órfão, tinha sido criado e abusado, física e psicologicamente, por uma família religiosamente conservadora.
Faulkner se utiliza de um recurso absolutamente original. Em cima dos fluxos de consciência, sejam eles falsos ou verdadeiros, de um personagem, Faulkner cria outras direções. Assim, vai instaura enredos intermináveis sobre o que o preconceito cristalizado na fala de um personagem cria a respeito de outros. Tendo em vista que a novela não é organizada de maneira linear, e é interrompida contantemente por flashbacks, o foco narrativo muda de um personagem para outro. Mesmo que um personagem desconheça a verdade dos fatos, tem sua própria versão moral sobre os mesmos. Neste sentido, apenas resta ao leitor a dedução das pistas deixadas pelo autor.
Impressiona também como é possível encontrar ainda hoje, numa novela de 1932, elementos de uma América ainda presente naquele tempo. Afinal, muitos dos elementos de identidade do americano não mudaram desde então: os constantes dogmas puritanos resgatados para afirmar a crença no protestantismo; a prática constante da desconfiança contra a alteridade como subterfúgio para a busca da própria identidade; a divisão de uma sociedade de classes em raças... Enfim todos fios de uma espécie de destino do qual um povo todo não pode escapar. Sina? Não sei. Mas é nesse ambiente em que os derrotados de todo o tipo deixam aflorar o fanatismo religioso numa pasma tentativa de fugir ao que o destino, de trágico, reservou, que se passa Luz de Agosto - e é sobre ele que se tenta reconstruir uma América pós-Era Bush.
A falta de ar é apenas uma metáfora para mostrar o quanto se precisa de fôlego e sentido para ler a Faulkner.
(continua...)
Segunda-feira, Agosto 31, 2009
La Guerre est Finie
La guerra ha terminado, famosa frase de Franco dita em 1939, enquanto todavia existiam guerrilhas pelo interior da Espanha, serviu de mote a Resnais para executar este filme no qual faz um estudo profundo da luta revolucionária nos anos 1960. Na minha opinião um filme tão bom ou melhor que o clássico Hiroshima mon Amour, no que tange a desilusão de uma geração erudita e culta quanto aos destinos da Europa no pós-guerra, com o início da falência da esperança – um processo que demorou quase duas décadas para se concretizar. Resnais tem um papel importante nesse processo que se não me engano foi o Zuenir Ventura definiu como internacionalização de propostas contra-culturais.O histórico Yves Montand interpreta Diego Mora, um histórico lider do PCE que se vê obrigado ao exílio na França e que vive à risca uma vida de clandestinidade solitária, com sucessivos nome falsos, estudos doutrinários, conexões com vários movimentos de esquerda europeus, e os naturais questionamentos sobre os destinos revolucionários de uma Espanha sob a égide do Franquismo. Diego quer ajudar a organizar a reestruturação sindical espanhola em seu exílio francês. Nesse momento, a centrais sindicais começam a se organizar no Pais Basco e em Madrid com o reagrupamento das antigas UGT e a CNT que faziam frente a corporativa Central Nacional Sindicalista – sindicato oficial do regime. O roteiro de Jorge Semprum está absolutamente a par desse momento histórico na Espanha.
Após atravessar a fronteira com identidade falsa, Diego é retido numa barreira francesa, mas salvo quando os policiais decidem checar o endereço expresso no passaporte e falam ao telefone com Nadine Sallanches, filha do homem que empresta a identidade a Diego. Nadine confirma sua identidade e os policiais liberam sua passagem. Depois de cruzar a fronteira, descobre-se que Diego ja estivera exilado algumas vezes em França, e que inclusive possui algumas raizes, relações amorosas e amigos de militância. Uma dessas relações é com Marianne, interpretada por Ingrid Thulin – que por acaso, ou não, manteve em La Guerre est Finie o mesmo nome que tivera no road movie de Bergman, Morangos Selvagens. Ingrid é uma editora influente, bonita, sofisticada e independente que vive em Paris e que conhecera Diego quando este ainda usava outros nomes falsos. Ela estaria disposta a largar a vida confortável em Paris para voltar à Espanha com Diego. Este vacila em levá-la que apesar de amá-la não se sente seguro em levá-la consigoe assumir a paternidade do filho de Marianne. Além disso, Diego passa a se envolver com Nadine, que também milita num obscuro movimento de apoio a grupos espanhóis. O envolvimento acontece no mesmo momento em que o Comitê Central tem outros planos para Diego.
Resnais opta por mostrar o lado humano deste militante em suas indagações existenciais, suas dúvidas ideológicas, seu amor dividido e o progressivo cansaço das discussões teóricas e dos destinos que a esquerda ia tomando naquele momento. Um desses momentos é quando o Comitê Central adia seu retorno para a Espanha pois em Paris descobre-se que Diego se tornou uma figura conhecida das policias de ambos países. Ver-se como prescindível o inquieta e desencadeia uma série de questões sobre sua própria nacionalidade e seus parâmetros culturais. Num jantar com amigos de Marianne, por exemplo, choca a seus amigos intelectuais, para quem mente dizendo-se um tradutor da Unesco, quando diz que está cheio de Lorca e de suas mulheres camponesas e estéreis.
Interessante como Truffaut em The Films in my Life dedica uma importância apenas laudatória a Resnais e a Melville. Uma injustiça, pois cá pra nós, Resnais, obviamente auxiliado pelo time da pesada que seleciona para os seus roteiros (Duras, Semprum...), é melhor que muita gente do Nouvelle Vague. Neste filme ele consegue capturar a alma, o subconsciente de Diego. Antecipando as cenas das caidas de outros militantes mostra os medos subconsciente de Diego. E os pedantes que me desculpem, mas achei este filme mais rico e detalhado que Hiroshima, Mon Amour – apesar de ter gostado imenso deste também.
Sábado, Agosto 15, 2009
Ensaio sobre a Cegueira

Este, de forma geral é o enredo do livro. Sempre tive a impressão que os livros de Saramago seriam dificílimos de uma adaptação para o cinema, justamente por tratarem os temas abordados com um viés demasiado alegóricos. Transmitem, os livros, muito mais sentido do que a simples compreensão literal das imagens contidas em suas linhas. Mas depois do filme certifiquei-me de meu engano. Ledo engano.
Meireles é um grande diretor. Grande mesmo. Ainda que tenha algo que me incomoda um pouco ao aproximar a estética de seus filmes a um enquadramento comercial demais. Vide em Cidade de Deus, dentre inúmeras outras, a cena do menino matando o vigia de um motel, dando-lhe as costas, e sair gargalhando. Aquela violência, ou sugestão da mesma – já que o elemento sangue não é visível (?), - parece-me Hollywood de baixa qualidade. A cena me pareceu a mais desnecessária de todo o filme, exatamente pela violência – mesmo não explícita – desnecessária. Me lembro que numa entrevista Meireles tentou ainda se defender dizendo que a forma como vemos a violência é diferende daquela nos filmes americanos. Não comprei o argumento. Como tampouco não aceitei as supressões feitas pelo roteiro, na cena em que o marido se descobre traído. No filme ele “apenas” mata a mulher. A cena não aparece, como sequer aparece a menção ao assassitado da mulher a golpes de pá, e o consequente emparedamento do cadáver - como se existissem níveis distintos de violência. Nesse sentido, Meireles traçou um caminho oposto ao de um Billy Wilder, que recusava-se a abrandar certos elementos dramáticos e realçar elementos mais técnicos como a velocidade das cenas num estilo mais palatável para as grandes audiências.
Tanto o romance como o filme nos mostram como a humanidade perdeu o jogo e não se deu conta, pois as atitudes de individualismo, de falta de solidariedade, não passam de atitudes individuais e portanto impreceptíveis num plano mais geral. Ou seja, enquanto um indivíduo perde a visão, tudo não passa da infelicidade de um infeliz desgraçado que perde a visão. Mas quando a sociedade por completo que, por causa da cegueira, perde tudo aquilo que considerara como pacto civilizatório, imergindo numa crise epidêmica, os indivíduos passam a ser obrigados a confiar uns nos outros. Sem outra escolha, passam a ser obrigados a buscar, em meio a um ambiente caótico de todos contra todos, a dignidade esquecida. Pensando bem, Saramago é esse escritor que resgata esse sentimento de solidariedade esquecida, existente num certo século XX.
Segunda-feira, Agosto 10, 2009
Terça-feira, Julho 21, 2009
Sexta-feira, Julho 17, 2009
O Importante é que nossa emoção sobreviva
Se não te cuidares o corpo, cuida teu espirito torto, que teu corpo jaz perfeito
Se não te cuidares o peito cuida teu olho absurdo que teu peito tomba morto ante a tudo.
Se não te cuidares, cuidado, com armadilhas do ar, qualquer solto som pode dar tudo errrado.
Mordaça
Tudo o que mais nos uniu separou
Tudo que tudo exigiu renegou
Da mesma forma que quis recusou
O que torna essa luta impossível e passiva
O mesmo alento que nos conduziu debandou
Tudo que tudo assumiu desandou
Tudo que se construiu desabou
O que faz invencível a ação negativa
É provável que o tempo faça a ilusão recuar
Pois tudo é instável e irregular
E de repente o furor volta
O interior todo se revolta
E faz nossa força se agigantar
Mas só se a vida fluir sem se opor
Mas só se o tempo seguir sem se impor
Mas só se for seja lá como for
O importante é que a nossa emoção sobreviva
E a felicidade amordace essa dor secular
Pois tudo no fundo é tão singular
É resistir ao inexorável
O coração fica insuperável
E pode em vida imortalizar
Paulo Cesar Pinheiro
Nota. 14 - 15 - 16 de Julho
Domingo, Julho 05, 2009
O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro

Desconfio que deva haver algum problema de direito autoral envolvido com o título do filme que assiti. Pois, como anunciado nos créditos iniciais, a cópia master do filme, no Brasil, perdera-se num incêncio. Restara então essa tal cópia, que fora restaurada e digitalizada na França com o nome de Antônio das Mortes. Enfim, quem passar por aqui e vir essa mensagem na garrafa, me esclareça a dúvida por favor. Já sei que Antônio das Mortes era o mesmo de Deus e o Diabo na Terra do Sol...
Antônio das Mortes é um miliciano, um matador profissional, interpretado por Maurício do Vale, que é contratado pelo delegado Mattos (Hugo Carvana) para matar o cangaceiro Coirama, que anda espalhando pela localidade de Jardim das Piranhas umas idéias... de justiça social, reforma agrária, distribuição de riqueza e um monte de outras idéias estranhas nessa mesma linha. Isso, evidentemente, assuta ao velho Horácio, que apesar de civil, ostenta o apodo de Coronel Horácio (Jofre Soares). Das Mortes tem o laconismo do Gary Cooper em High Noon, e a pontaria do Franco Nero em Django portanto é o cabra mais indicado para fazer o serviço de limpar a àrea.
O que torna esse filme sensacional, e aumenta a mítica sobre a tal genialidade de Glauber é o fato de que a história principal se desdobra em alegorias atemporais baseadas em narrativas folclóricas, cantos de cordel, e evocações de árias de óperas. Na maior parte das vezes não se sabe se estamos dentro da estória principal, dentro do sonho ou da divagação de algum personagem, bem no estilo de Rashomon de Kurosawa, ou Memento, ou até mesmo forçando um pouco a barra em algum dos filmes de David Lynch. As estórias se confundem e se embricam numa metalinguagem com muito de alegórico, pois, Coirama vê de perto os cutelos da morte mas não morre. Agoniza. Este somente vem a ser assassinado pelo bando de Mata-Vacas. O que aumenta ainda mais a ira de Antônio das Mortes e o sentimento de injustiça que paira no sertão. Para tanto, uma cena emblemática para mim é a do Professor recolhendo os estandartes em meio aos corpos dos jagunços que o bando de Coirama massacrara. Ou seja, incorporando sua luta e se aliando à de Antônio das Mortes. A própria cena final do duelo entre os capangas de Mata-Vacas, a mando do Coronel Horácio, contra Antônio das Mortes e seu agora aliado o Professor de história, é digno dos melhores filmes de Sergio Leone. Tudo é apoteótico, como numa ópera. É fogo pra todo o lado, sol, sertão, bala pipocando, a chapa quente, mas Antônio das Mortes mata a todos do bando adversário, mas não consegue matar ao Coronel. Sua amante Laura (no filme, a deslumbrantemente gótica Odete Lara) é beijada já sangrando pelo Professor numa cena que seria dramática se não fosse tão caricata – aliás como quase tudo no filme . Finalmente, o Coronel é assassinado por um homem negro que chega sobre um cavalo branco, portando uma lança. A alegoria a São Jorge, o Santo Guerreiro, é clara. E o Dragão da Maldade, nem preciso dizer.
Música do dia. Desafio: Abertura do Auto da Catingueira e . Elomar. Cantoria 1. Quinta-feira, Julho 02, 2009
The Seventh Continent
Lembra da Rosana, uma cantora com cara de silicone que nos anos 80 cantava um troço mais ou menos assim... Como uma deusa você me mantém...? Aquilo era algum tema de novela, que ficava tocando insistentemente em qualquer rádio a qualquer hora do dia e da noite. Como diria o Assis Valente... Nem dá jeito de cantar, Dá vontade de chorar, E de morrer...Pois é, Georg, funcionário de uma grande empresa, e sua mulher Anna, oftamologista, são um casal de classe média. Ambos têm uma vida confortável, vivem numa boa casa, possuem um carro relativamente novo, consomem produtos de qualidade, sonham com férias numa paradisíaca praia na Austrália e vivem uma vida rotineira. O despertador toca todos os dias às 6 da manhã, Georg se banha, Anna acorda a filhinha para a escola, no aquário os peixes vegetam, no café da manhã quase não falam, ou seja, tudo parece perfeitamente ordenado, eles parecem se conformar com a utilidade funcional do cotidiano onde a repetição de determinados rituais passam a preencher e dar sentido a uma espécie de vazio. Tudo parece perfeitamente ordenado até o dia que a filha da oftamologista mente na escola dizendo que está cega. Aos poucos percebe-se que o casal vive uma vida um tanto miserável, pois a monotonia os torna prisioneiros de uma alienação auto-destrutiva. Passam a surgir sinais de depressão, a indiferença se torna patológica. Georg, um cara competitivo, ascende na empresa passando por cima dos caras ao seu lado. Anna se desespera com o distanciamento da filha. Essa é em linhas gerais o enredo de The Seventh Continent, um filme que definitivamente me fez perder a paciência com Michael Haneke.
Haneke decidiu filmar uma estória baseda em fatos reais de uma família austríaca que comete suicídio. Sim, tal como em 71 Fragments of a Chronology of Chance ou em La Pianiste – que até é um filmezinho máomeno -, Haneke tem gosto pelo tabu. Até aí tudo bem, Stanley Kubrick também tinha. O problema é que há uma distância quilométrica entre Kubrick e Haneke. Kubrick transforma o incômodo do distúrbio numa forma de arte. Haneke transforma o trágico numa simples exaperação de imagens. Numa das últimas cenas antes do suicídio, juro por todos os exús e deuses, com a casa completamente destruída, a família encontra-se na frente da tv assitindo uma mulher cantando em alemão... Como uma deusa você me mantém...
Com isso concluo com duas coisas. Primeiro, mal comparando, você pode até gostar de Heineken, mas a partir do momento que você prova uma Chymay, já não dá mais pra assitir os filmes do Haneke. Segundo, é evidente que sou péssimo em trocadilhos!
Música do dia. Fez Bobagem. Assis Valente/Marcos Sacramento. CD Modernidade da Tradição.
Whisky
O filme Whisky, de Pablo Stoll, lança uma dúvida bem prosaica. Que diabos de relação há entre o nome do filme e a estória dos protagonistas Marta, Jacobo Koller e Herman Koller?
Jacobo tem uma pequena confecção de meias no centro de Montevidéu. É um homem solitário, na faixa etária dos 50 anos, que cuidou da mãe doente até o falecimento desta. Na fábrica trabalham apenas 3 mulheres. Dentre elas Marta (interpretada pela ótima Mirella Pascual), a mais velha, é uma espécie de gerente das outras moças. A relação entre Jacobo e Marta é, antes que fria e distante, uma relação de respeito e cordialidade pautada nas pouquíssimas palavras que trocam no decorrer dos dias. Quando Jacobo chega à fabrica, Marta, pontualmente o espera diariamente. Assim como Jacobo, Marta também é uma mulher solitária que afugenta sua condição humana de isolamento numa sala de cinema após a jornada de trabalho. Na manhã seguinte, a cena dela esperando que o patrão chegue em frente a porta da fábrica se repete religiosamente.
Essa rotina quase mecânica muda na ocasião do Matzeiva da mãe de Jacobo pois seu irmão Herman, que vive no Brasil e também tem uma fábrica de meias, chegará para a celebração póstuma. Jacobo então propõe a Marta que ela fique em sua casa nos dias de estada do irmão, simulando que estão casados.
Nesse momento percebemos que o filme se trata de uma ótima comédia de humor seco e cortante, pois no momento da proposta o telefone toca. Jacobo vai atender. Retorna dizendo se tratar de um engano e prosseguindo a coversa. A presença providencial do telefone tocando em momentos centrais da trama se repete comicamente umas duas ou três vezes. Como por exemplo quando Jacobo com certa torpeza lhe dá uma aliança de “casados”. O anel fica grande e cai no chão. Ela imediatamente se abaixa para procurá-lo embaixo da mesa. Jacobo fica estático. Ela encontra o anel e pergunta se a aliança era de sua mãe. Jacobo responde desconcertado que sim. Providencialmente o telefone toca. Jacobo retorna e diz equivocado. E Marta responde como em outras ocasiões... Sí, a veces pasa.
Aos trinta minutos de filme, vem finalmente a resposta. Para que a presença de Marta não levante as suspeitas do irmão, Jacobo providencia que Marta passe uns dias em sua casa e a leva para que tirem uma foto como casados. Nesse momento o nome do filme faz sentido. No estúdio fotográfico eles estão sobre um fundo azul, bem vestidos e constrangidos. O fotógrafo diz, A ver una sonrisita... digan whiskyyyy.... Eles se abraçam de maneira torpe e repetem a palavra whiskyyy mostrando os dentes, simulando um sorriso, sem muito empenho.
Tudo pronto. So falta Herman chegar.
A presença de Herman torna tudo muito mais constrangedor. Os dois irmãos não se viam há anos, não tinham maiores intimidades. Herman é um tipo expansivo e auto-centrado, sua efusividade contrasta com a indiferença de Jacobo a tudo e a todos tornando o filme uma comédia com detalhes brilhantes. Como quando os irmãos, que não se viam há anos, se presenteiam meias. Ou quando vão assistir um jogo de futebol da segunda divisão, do time de Jacobo. Ou quando decidem ir passar uns dias num hotel no balneário de Piriápolis, um local onde os irmãos iam de criança e que se encontra decadente e vazio.
O roteiro do filme, assinado pelo diretor, por Juan Pablo Rebella e Gonzalo Delgado Galiana, tem diálogos econômicos e situações de inisitada originalidade. Eu diria que este é um roteiro muito bem amarrado. A frieza e a parsimônia com que os personagens são apresentados permite a revelação gradual de detalhes de suas personalidades através de pequenos gestos incorporando-os a um sentido mais universal de melancolia e solidão. Além disso é evidente um certo sabor das comédias do romeno Cristi Puiu e do finlandês Aki Kaurismäki em algumas situações do filme.
Uma curiosidade trágica: no dia 7 de julho fará 3 anos que o roteirista Juan Pablo Rebella se matou. Ao lado de seu corpo, em frente ao computador, foi encontrado um revólver calibre 32 e uma garrafa de whisky pela metade.
Quarta-feira, Julho 01, 2009
Pina Bausch
O mundo perde uma das grandes coreógrafas da dança moderna. Pina Bausch morreu ontem, cinco dias após ser diagnosticada com câncer. Nunca tive a oportunidade de assitir Bausch dançando, mas já assisti vários vídeos de suas performaces e coreografias. Muito antes de assistir ao filme de Almodovar Hable con Ella - onde Bausch faz uma breve aparição exibindo um fragmento do Café Müller - o que mais me atraía em seus movimentos era a inovação da linguagem corporal. Bausch (além de van Manen, Balanchine, Cunninghan e toda essa turma) recriou a expressão do corpo contemporâneo, desenhando movimentos repetitivos e fragmentados, quebradiços, e ao mesmo tempo sugerindo uma proximidade entre a dançarina e o público, como se convidasse-nos a um diálogo quase sussurrado. Havia muito de teatro em suas coreografias. A expressão corporal e a expressão facial eram elementos importantes em suas composições que sugeriam algo visual, algo narrativo e nem sempre harmônico ou pacificador.Quarta-feira, Junho 24, 2009
Neda Agha Soltan
http://ilusaodasemelhanca.blogspot.com/2008/12/golias-davi.html
A foto tinha sido retirada do jornal El Pais.
Não respondi.
Nesta semana, ainda titubeante, decidi não colocar o vídeo da morte de Neda Agha Soltan assassinada por um atirador de elite Basij, pois a brutalidade de imagens dolorosas como estas, apesar de longe dos olhos, povoam o mundo diariamente.
http://www.youtube.com/watch?v=Ej59UI5yyw8&feature=related
Os Basij são uma espécie de grupo paramilita surgido na época da revolução iraniana, e aparentemente tão brutais e corruptos quanto outras milícias próximas a nós.
Um Poema de Amor e Duas Canções Desesperadas
Crosby, Stills and Nash Suite: Judy Blue Eyes Woodstock 1969
Jethro Tull - Living In The Past 1969
Quinta-feira, Junho 18, 2009
SoBRe NOtíCiAs e ChIChas

Terça-feira, Junho 16, 2009
Casa de Bonecas

Toda a trama se passa em torno à família Helmer. Anthony Hopkins é Torvald Helmer, o diretor de um pequeno banco de investimentos, um businessman extremamente concentrado em seus negócios, casado com a delicada e confusa Nora Helmer. Torvald, em sua concepção, tem uma casa perfeita, com empregados conscienciosos que servem a filhos perfeitos, bem como à sua esposa perfeita. Nora Helmer, com seu toque feminino, esforça-se a nível da quase-insanidade para que este mundo construído por Torvald continue assim, como numa casa de bonecas. Lendo a peça, me pareceu vagamente que Torvald Helmer seria um homem autoritário. Impressão apagada pelo efeito desconstrutor que Anthony Hopkins imprime ao personagem, tirando-lhe o peso maniqueista que por vezes o leitor carrega da leitura e tranformando-o num tipo refinado, de gestos contidos, e um tanto edulcorado.
De certo que em toda a peça há um certo maniqueísmo nos diálogos, com uma forte dose de moralidade sobre qual seria o papel dos esposo e da esposa num casamento em moldes conservadores e (?) vitorianos – nem sei se o termo se aplica à Noruega. Curiosamente o Natal não é apresentado como uma festa religiosa e quando o celebram, o fazem com danças e fantasias fora de casa. Interessante, pois no ajuste das contas finais entre Nora e Torvald, no terceiro ato – da peça escrita - , ela evoca essa referência referindo-se a tudo a sua volta com uma ótica absolutamente material, querendo, mas sem poder, se distinguir da ótica do próprio Torvald.
Neva fora. Nora faz os últimos arranjos na decoração de natal. A neve que Ibsen evoca constrasta com o calor artificial do lar dos Helmer, por um motivo específico. Nora, anos atrás cometeu um crime de estelionato para cobrir uma dívida de Torvald, sem este saber que as promissórias tinham sido assinadas em seu nome pela própria esposa. No fim do primeiro ato, Nora é chantageada por Nils Krogstad, um empregado do banco onde Torvald ascende profissionalmente. A razão da dívida é um tanto obscura. Algo relacionado a uma viagem a Itália. Algo relacionado ao pai de Nora, que considerava Torvald um incapaz financeiro... enfim, algo que em hipótese alguma justificaria o crime. A razão da chantagem é a falta de confiança que Krogstad inspira em Torvald. Na corda bamba, tendo seu emprego em jogo, Krogstad decide chantagear a esposa do chefe.
Nesse momento, uma velha amiga de Nora, Mrs. Linde, retorna à cidade procurando emprego já que encontrando-se viúva e com filhos, procura no trabalho o preenchimento de seu vazio vital. Linde conversa com Nora, enquanto Dr. Rank conversa com Torvald no escritório deste. Linde pede para que Nora interceda por ela junto a seu marido com o intuito de conseguir-lhe um emprego no banco. Nora revela a Linde o episódio da falsificação da assinatura e do empréstimo e pede para que esta consiga as promissórias assinadas com Krogstad. Nesse momento, em que Rank e Torvald deixam o estúdio, enquanto Torvald comenta sobre a corrupção da sociedade, Krogstad chega e entra no estúdio para pedir que Torval d o mantenha em sua posição já que há fortes desconfianças de sua retidáo moral. Do lado de fora, Dr. Rank, que arrasta uma asa por Nora numa atitude que lhe causa a fascinação de algo semi-proibido, ousado, afirma que Krogstad e um dos seres mais corruptos do mundo. Dentro do escritório Torvald comunica a Krogstad que seu posto foi dado a Linde.
Nesse momento começa a triangulação que se desenrolará nos próximos atos. Krogstad procura Nora pressionando-a para que ela consiga seu posto de volta, com a condição de que caso não consiga revelará o crime ao seu marido. Linde, a pedido de Nora, procura Krogstad tentando convencê-lo de que volte atrás. No entanto, no momento em que Linde chega a casa do chantagista, a carta reveladora, escrita por ele, já havia sido enviada. Essa tensão se arrata pela noite de natal, com a carta enviada, já na caixa de correios, até que finalmente de volta da festividade, Torvald decide conferir sua correspondência. Encontra dois cartões de visita de Dr. Rank com cruzes negras. Torvald não entende a mensagem, mas Nora, ainda em estado de choque pelo seu destino iminente, revela que Rank – um homem absolutamente apaixonado poe Nora - se mataria naquela noite. Quando Torvald prepara-se para entrar em seu estúdio e conferir o resto de sua correspondência, Nora se retira e se prepara para deixar a casa. Nesse momento decisivo e dramático da peça, Torvald para-a agressivamente, desesperado, aturdido, dizendo coisas sem sentido, atacando-a verbalmente agitando a carta de Krogstad nas mãos. Torvald, desesperado, apenas preocupa-se com o abalo de sua carreira em ascensão. Culpa-a de maneira despropositada por qualquer iminente ameaça. Seu amor desesperado pela esposa se desfaz como numa onda que varre um castelo de areia. Ele a insulta sem que ela reaja, sem que ela se altere na condição humilhante em que se encontra naquela espécie de estágio de vigília inicial de um longo sono. Nesse momento a empregada entra com mais uma carta. É uma segunda carta de Krogstad se desculpando por tudo contendo as as letras de câmbio assinadas por ela. Torvald exultante abraça-a e tenta a reconciliação, após a série de palavras insensatas despejadas na discussão de instantes anteriores. Propõe a reconciliação e que tudo volte ao normal.
É tarde. Tarde demais. O diálogo final, é um dos grandes e memoráveis momentos da história do teatro. Ele compassivo, ela encarcerada em seu mimetismo. Eh comovente a força de uma mulher que não sabe exatamente para que direção partir, mas que não tem outra saída se não a de deixar para trás o passado, irreconciliavelmente.
Sexta-feira, Junho 12, 2009
Eugénie Grandet

É uma estória de trama simples, mas que retrata de maneira bem cinematográfica a escalada de um plebeu que nada mais vê a sua frente que o brilho enriquecedor do ouro. A ganância do senhor Grandet é inescrupulosa. Chega a ser caricata mas não de todo inverossímil, pois mostra bem a trajetória de um novo rico de província que coloca a ascensão social e financeira acima de sua própria família, da esposa, da filha única Eugénie, e da empregada Nanom - que de certa forma participa dos meticulosos gestos mesquinhos de seu senhor para salvar sua própria pele.
É nesse cenário de uma casa solitária, monótona e melancólica, que a introspectiva Eugenia habita, até que seu primo Charles chega de Paris. Nesse momento da chegada do sobrinho, o senhor Grandet recebe a trágica carta anunciando o suicídio do pai de Charles, seu irmão. Charles que chegara com hábitos cosmopolitas, roupas estranhas e extravagantes jamais vistos pelas mulheres, havia sido enviado a Saumur pois seu pai falira e não tendo mais condições de criar o filho, envia-o aos cuidados do tio. A monotonia em que Eugenia vivia logo se apaga. A jovem passa a querer agradar o rapaz a todo o custo, ordenando que a empregada preparasse pratos especiais, providenciando velas para que ele pudesse ler à noite... Tal mudança de comportamento é notada pelo avarento Grandet.
Charles ao saber da falência e suicídio do pai, entra em depressão profunda o que causa verdadeira comoção nas mulheres da casa. Eugénia, ainda abalada e compadecida pela notícia invade sorrateiramente o quarto de Charles que estava adormecido e lê algumas de suas missivas. Numa destas, pede a um amigo para vender seus pertences e pagar todas suas dívidas, já que irá tentar a vida nas Índias. Noutra, descobre que Charles tem uma namorada em Paris o a torna apreensiva. Entretanto, ignorando a dor do sobrinho, o senhor Grandet, articula sua ida às Indias com o intuito de se livrar de uma boca a mais na casa. O intuito avaro do homem contrasta com o sentimento de misericórdia e admiração da filha, Eugenia e da mãe desta. E percebendo as articulações do pai, Eugenia dá a Charles umas moedas de ouro, presente de seu pai, para que ele recomeçe a vida nas Indias.
Agora, do meio para o fim de um livro que é impossivel largar, a ironia fina de Balzac começa a operar. Charles, após anos nas Índias fica tal qual Grandet, com perdão da má palavra um somítico. Como se o individualismo e a escrotice de Grandet tivessem passado por osmose, ao passo que Eugenia passa a adquirir certos rasgos de personalidade do pai, Charles, distante, viajando por anos em mares das Indias e das Américas, se embrutece e esquece o amor que prometera a Eugenia. Nessas viagens faz dinheiro comercializando escravos negros e chineses e praticando a usura. O embrutecimento, talvez decorrente de suas atividades, torna a relação com a prima uma relação distante e meramente financeira, já que ela emprestara seu primeiro capital para iniciar a viagem.
Enquanto isso, Eugénia perde mãe e logo em seguida o pai. O espólio a torna tão quanto uma mulher rica, uma mulher em busca – continuando o legado da nossa miséria - da solidificação da fortuna do pai. De uma maneira mais branda, é verdade.
Alguns anos se passam até que recebe uma carta de Charles contando que se casaria com uma das herdeiras dos Aubrion, em Paris. Destruída toda a ilusão vê quão falsa foi sua espera e sua esperança. Descide então se casar por conveniências com o advogado Bonfons, não sem antes imbuí-lo de uma missão: ir a Paris e saldar as dívidas do primo. Porém, quis o destino que o rapaz morresse após breve trajetória política, revelando que este, não o destino, mas Bonfons não fosse o homem tão respeitoso que ela pensava se tratar. O rapaz tinha, como dizia-se no tempos antigos “amigas”.
Um romance simples, mas Balzac possui uma capacidade de descrição psicológica e corrosiva do endurecimento da alma diante das ascensões materiais. O livro termina num tom um tanto melancólico, nem tanto pela aura de contorno romântico com a qual Balzac envolve a jovem, mas pela forma com que Balzac optou por conduzir a estória em dois campos sem tramas paralelas ou zonas cinzentas. Balzac nos faz viajar em dois continentes isolados, um mundo da ambição patriarcal e um mundo de ingenuidade onde a protagonista, Eugenia, gradualmente se anula, e que raramente se cruzam.
Terça-feira, Junho 09, 2009
Little Boxes
Versão do Randy Newman
Segunda-feira, Junho 01, 2009
Garrincha

Não sei exatamente o porquê deste fracasso mas em relação ao filme em questão, Garrincha – estrela solitária, dirigido por Milton Alencar e com roteiro de Rodrigo Campos, me parece que o ator principal, André Gonçalves, não entendeu bem as duas faces do espírito de Garrincha, a alegria da juventude e a decepção do fim da vida – optando por interpretá-lo o tempo todo com uma expressão apática e distanciada dos anos de alcoolismo. Além disso, o roteiro, assinado Rodrigo Campos, me pareceu extremamente formal, optando por iniciar o filme exatamente pelo fim da vida, quando Garrincha, empobrecido, cheio de filhos, cheio de amantes e entregue à bebida, não era a sombra que foi, dando assim um aspecto decrépito ao mito. O filme mostra que a opção do flashback é sempre perigosa no cinema. Se não for bem feita, resulta e trabalho mal acabado e até desrespeitoso.
Decepção. Não cheguei a ver Garrincha jogar, mas acho que a transposição da biografia do cidadão para a tela grande deveria ter sido um pouco mais cuidadosa. E olha que sou flamenguista, se eu fosse botafoguense escrevia um desagravo!
Sexta-feira, Maio 29, 2009
Pá de Palavras
Os depoimentos sustentam com certa credibilidade uma tese até certo ponto incômoda para quem trabalha ou vive da escrita. A tese de que a produção musical brasileira evoca a tradição medieval da oralidade, da trova provençal, da estória cantada pelos menestréis, que veio se transformando em cinco séculos, cadenciadamente desabilitando colonizadores que tentavam perpetuar nossa cultura por meio da palavra escrita. O filme é cronologicamente linear, começando pela influência da poesia na canção clássica da Era do Rádio, passando por Dorival Caymmi, a Bossa Nova, o Tropicalismo e chegando ao rap. A tese, se de certa forma incomoda pela frágilidade sazonal, de certa forma também derruba a velha idéia elitista de gente como o poeta Bruno Tolentino, que antes de morrer bateu-se claramente, de maneira reativa, no marco divisório entre poesia e música. A idéia central do doc, dá conta que a tradição se transforma, mas não se perde pois se retro-alimenta. Enfim, tem uns caroços pelo caminho, como o hip-hop que não foi ainda absorvido pelos artistas que fazem música para classe média e que é original, mas distante daqueles que controlam a logomarca MPB.
Basicamente, Helena reuniu um time da pesada da música como Chico Buarque de Hollanda, Maria Bethânia, Adriana Calcanhotto, Arnaldo Antunes, Lenine, Antônio Cícero, Tom Zé, Luiz Tatit, e um rapaz que confesso não conhecia por eu já ter mais de 32 dentes e há tempos alguns cabelos brancos, chamado Lirinha - cara impressionante que musicou as poesias de João Cabral de Melo Neto. Reuniu toda essa gente para refletir a relação entre a música popular, poesia e literatura. Além dos depoimentos, o doc mostra imagens emocionantes, como a de Dorival Caymmi jovenzinho com seu bigode Errol Flynn-canastrão, cantando O Mar; e as da encenação da peça Morte e Vida Severina, de João Cabral de Mello Neto, no Festival de Teatro Universitário de Nancy, na França, em 1966.

Outro imperdível, numa linha diametral, é o documentário de Pedro Cezar Só Dez Por Cento é Mentira, sobre a vida e obra do poeta sulmatogrossense que um dia disse “As coisas que não levam a nada tem grande importância,” Manoel de Barros. Aos 91 anos, com mais de vinte livros publicados e vivendo atualmente em Campo Grande, Manoel de Barros é um cidadão meio arredio às entrevistas, dificilmente biografável ou rotulável. O diretor Pedro Cezar ousou em filmar poesia com poesia no melhor estilo de um Andrei Tarkovsky. Exagero? Pode ser, pois ao filmar ou narrar o que é poético pode-se cair facilmente na imprecisão de adaptar a palavras escrita para a tela, mas isso é pecado original da sétima arte. Já nasceu com ele e não dá para fugir nem com muita àgua benta, nem com todos os sacramentos. Fato é que a dificuldade não implica necessariamente na impossibilidade da tentativa e por isso mesmo, o documentário todo é de uma beleza plástica impressionante. Alternando seqüências de entrevistas com o escritor e com outros poetas, versos de sua obra e depoimentos de especialistas em sua poesia, Pedro Cezar intercala-os de maneira calma com imagens de objetos do cotidiano que só outro poeta como Aldir Blanc poderia definir... “soro poluído de pilha e folha morta, de aborto criminoso, de caco de garrafa, de prego enferrujado, dos versos do poeta, pneu de bicicleta.” Enfim, glosando o homem, só que tem esse soro nas veias pode sentir tudo aquilo que nossa civilização rejeita , pisa e mija em cima, e que serve para a poesia. Pedro Cezar, ousou em tentar fazer e se saiu bem ao imprimir aquelas texturas de tom ferruginoso à sua narrativa documental.
Eu conheci a poesia de Manoel de Barros há uns 15 anos através do saudoso Caderno Idéias do Jornal do Brasil, por uma entrevista absolutamente displicente do poeta, que quando perguntado sobre o que lia, simplemente respondeu que havia lido há muitos anos o Baudelaire, o Benjamin, mas que aquilo tudo era muito complicado para sua cabeça... Achei engraçadíssimo o homem responder daquela forma, pois alguns eus líricos de poetas têm personae tão arrogantes que é melhor mesmo não topar com seus egos. Fui ler o homem exatamente por esse descompromisso com a complexidade e fiquei mesmo impressionado com aquela coisa de misturar prosa de Rosa com existencialismo de Sartre, objetos em si complexos, com um monte de coisas de roceiro (como passarinho, lagartixa, cuspe, mulher prenha...). Desde então, nunca mais parei de ler e o Gramática Expositiva do Chão que passou a ser um desses livros que volta e meia folheio, por trechos como este:
“Faz muito calor durante o dia. Sobre a tarde as cigarras destarracham. De noite ninguém consegue parar. Chuva que anda por vir está se arrumando no bojo das nuvens. Passarinho ja compreendeu, está quieto no galho. Os bichos de luz assanharam. Mariposas cobrem as lâmpadas. Entram na roupa. Batem tontas nos móveis. Suor escorre no rosto.
Todos sentem um pouco na pele os prelúdios da chuva. Um homem foi recolher a carne estendida no tempo e na volta falou: “Do lado da Bolívia tem um barrado preto. Hoje ele chove!”
Para terminar, o documetário tem depoimentos do grande Fausto Wolff, de um guia turístico de “deslugares” da poesia de Manoel em Corumbá, de uns acadêmicos e poetas como Bianca Ramoneda e Elisa Lucinda, e para mim, o mais interessante de todos, de um cara que faz que faz geringonças, tipo um esticador de horizonte, com sucata e as nomeia com trechos da poesia de Manuel. Esse documetário é fantástico, e bem diferente do primeiro, por que justamente não tenta definir nada na universo de Manuel de Barros - pois reparando bem é um universo composto de 90% invenção e só 10% mentira, que não tem a menor importância, que, cá pra nós, não serve pra nada, e só quem desiste de entendê-lo pode realmente ter o gozo de contemplá-lo! Otimo! Melhor doc disparado da mostra.
Nota. Entrei no cinema com 3 minutos de atraso. Breu total. Tateio e encontro uma cadeira. Faltando meia hora para o final a fita começa a dar problema. Um cara levanta e sai correndo para trás do cinema. A fita volta a funcionar. O cidadão volta ao assento onde tinha deixado a mochila. Conclusão: tive a honra de assistir tudo ao lado do Pedro Cezar. Pior: como sou um tremendo arredio que beira a otarice, não falei com ele. Deveria.
Sexta-feira, Maio 22, 2009
O Alçapão de Marcelino

«O senhor Grandet desfruta em Samur de uma reputação cujas causas e efeitos não podem ser totalmente compreendidos por pessoas que não tenham vivido muito ou pouco numa província»,
imagino que o livro Marcelino, de Godofredo de Oliveira Neto, talvez deva ser compreendido com esse olhar de quem tem parentes na roça e que ao mesmo tempo vê tudo aquilo com a devida familiaridade e a matuta estranheza.
Na costa do litoral de Santa Catarina vive Marcelino Alves Nanmbrá dos Santos, o herói do romance e um jovem pescador, neto da mistura de uma avó índia, com um escravo e um açoriano. Marcelino pilota um barco de pesca, o Divíno Espírito Santo, presente se sua avó a quem dedica toda sua memória e agradecimento. A embarcação, que aos 15 anos recebera de presente, é uma baleeira de onde tira seu ganha-pão e que que seria razão de sua vida e, diga-se de passagem, do início de sua desgraça.
Eventualmente, Marcelino, trabalha para o ex-senador da República e alto funcionário do governo federal Nazareno Correa da Veiga di Montibello quando este passa férias na praia do Negro Forro. Os Di Montibello são uma família politicamente poderosa. Usufruem da coisa pública de uma maneira semelhante com que admnistram a casa: o aconchego e as formas emotivas, falsamente próximas, com que tratam os empregados são levadas à esfera do Estado com naturalidade sem maiores dramas quanto à reserva do que é privado ou público. Além dessa ascendência baseada no patrimonialismo, no poder baseado na imbricação política, e na grana, os Di Montibello tem dois outros tesouros. As filhas Sibila e Martinha. Sibila é uma menina que, na flor da puberdade, insinua-se para Marcelino. Não que aos 18 anos o rapaz não sentisse falta de uma mulher. Sentia. Obvio que sentia. Imagine, você leitor, os hectolitros. Próprios dos 18 anos. De testosterona. Projetados em Sibila andando por ali pela praia do Negro Forro. Mesmo em seu silêncio, Marcelino, um jovem de vida simples, que cuida de pássaros e vive em harmonia com a natureza e com os vizinhos, tem seus momentos de reflexão e divagação romântica. Nego Tião, que o instiga para conhecer as mulheres do “L’Amore”, onde segundo Tião, Rosália lhe ensinaria tudo, não consegue convencer a um Marcelino que dispensava no “Amore” tanto quanto tudo aquilo que poderia encontrar em Sibila. Enquanto no “L’Amore”, segundo reflexões de Marcelino, estavam as mulheres de todos, e portanto nenhuma que se encaixasse em seu universo idílico; a filha do senador mostra-se sempre superiora, elitista, cosmopolita, caso se pudesse dizer isso de alguém do Rio de Janeiro. Mas de fato, sempre quando Sibila passava férias na Villa Faial, era esse o sentimento de Marcelino.
Mesmo sem dar muito ouvidos ao Nego Tião, é só junto aos seus do colégio Luis Delfino era feliz. Seus como Martinha, filha de Ézio, da venda de Praia do Nego Forro, menina sonhadora que queria casar. Talvez com Marcelino. Ou seus, como o próprio Tião do Luiz Delfino, um amigo próximo, que é o responsável por desvendar a razão do estoicismo de Marcelino. Tião é quem afirma ter sido Marcelino embruxado pela alemoa Eve, a governanta dos Di Montibello, a mulher que pelo apodo de “potranca polonesa” devia mesmo ter nada de metafísico e muito de colossal. No fundo, Marcelino só tem olhos para Eve, governanta do doutor Nazareno Correa. Sendo mais claro, Marcelino só tem olhos para butique da alemoa.
E justamente no momento em que se apaixona por Eve, sua vida parece virar de ponta a cabeça. O jovem tem seu destino mudado a partir de uma tempestade no mar que causa grandes estragos a sua embarcação e pior que isso, resulta na morte de um de seus ajudantes, um menino aprendiz de nome Edinho. De volta à Praia do Negro Forro (vizinha de Santo Antônio de Lisboa, Ilha de Santa Catarina – só ir ao Google Earth), atormentado pela perda, Marcelino Nanmbrá, ou simplesmente Lino Voador, está desnorteado, remoído pelo arrependimento, ferido gravemente na mão. Quando gravemente ferido, deprimido, Eve aparece em sua casa. Ele interepreta a visita como algo mais que solidariedade. Dá-se um diálogo de surdos. Ele, ainda atormentado pelo infortúnio, e a polonesa falando de planos mirabolantes que consistiam em Marcelino salvar o Brasil. Percebendo que suas palavras não surtiam efeito nos pensamentos ausentes do pescador, Eve começa a insinuar-se, o que faz com que Tião, um tipo digamos mais sagaz para esse tipo de coisa, dias mais tarde comente que a polaca anda com calor nas partes.
As férias acabam. Os Di Montibello retornam ao Rio. A mão ferida piora por falta de tratamento. A febre toma conta de seu corpo. A gangrena é inevitável e a amputação da mão uma consequência natural. Tudo podia ser trágico, mas o autor estanca aqui o calamitoso.
Aqui, Godofredo começa com suas investidas no triller de espionagem. A série de acontecimentos e infortúnios em torno ao acidente de Marcelino desencadeiam uma manipulação política de bastidores. Eve e o Senador convencem Lino a passar uns tempos no Rio para se recuperar e cuidar dos pássaros do Senador, entretanto, o que está em jogo é uma ação muito mais ambiciosa. A casa dos senador é frequentada por políticos, empresários, agricultores, exportadores, banqueiros e toda uma gama de gente d andar de cima, simpatizante ou não do governo. O próprio senador é homem que tem livre acesso ao Palácio do Catete. Estamos mais ou menos nos inícios dos anos 1940, época da política das barganhas de Vargas. Anos antes, Karl Ritter é declarado persona non grata, pelo governo brasileiro, o Wilhemstrasse paga com a mesma moeda expulsando Moniz Aragão da Alemanha, o Eximbank manda dinheiro para a constução da CSN e por trás desses grande acontecimentos pendulares internacionais entre os pró-americanos e os simpatizantes do Eixo, existe a política palaciana no Catete muito mais local e realista como foi o governo Vargas. Claudionor, um dos assessores políticos de Vargas é visto por Eve e seu grupo como a figura nefasta que interferiu na opção de Getúlio romper relações com o Eixo e consequentemente contra a Alemanha. Em seus diálogos internos, Eve sonha com ver Lino matando-o a tiros. E Lino, aos poucos passa a acreditar nos sonhos megalomaníacos da amante, e entende em sua maneira peculiar de entender, que ele salvaria o Brasil eliminando Claudionor.
Bom, eu também paro por aqui, respeitando o clímax da estória, e dou um salto de algumas páginas para o final reconciliador. Marcelino regressa a Santa Catarina num cargueiro sujo e infestados de arganazes. Esquecido e “perdoado” pela família dos patrões grã-finos. Um farrapo humano. Chega irreconhecível. Os Di Montibello acharam por bem melhor dizer que pobre coitado fora enganado pelos nazistas. No dia seguinte, todos correm para a àrvore onde Marcelino pendura suas gaiolas em galhos altíssimos. Anda de galho em galho, vago nos princípios e impreciso em suas desilusões, levando as memórias absolutamente enigmáticas, para os que o viam do pé da árvore, do que ocorrera no Rio. Estes, pensam que se jogará. Martinha murmura de amor. Tião sobe para tentar socorrê-lo. A professora chama-o manumisso. Talvez fosse. Talvez não. Fato é que todos os personagens desconhecem sua intenção, e inclui-se aí o leitor, já que Godofredo Neto, habilmente segreda o foco narrativo de Marcelino, calando-o nos momentos decisivos da trama. O alçapão de Marcelino, ou melhor, a gaiola de Godofredo de Oliveira Neto não é feita para pegar trouxas.
Um muito trouxa como eu, tem a impressão errônea, ao fechar o livro, de que Marcelino figura como um títere. Um objeto de mofa utilizado pela família do senador, por Eve, e pelos amigos. Mas essa idéia vai se desfazendo aos poucos, ao se perceber que do ponto de vista da construção do personagem, Godofredo de Oliveira Neto rompe logo de cara com duas idéias genéricas contidas no Modernismo. Primeiro, seu livro se encaixa talvez muito de longe na proposta Regionalista. Há ali obviamente essa tal tensão entre o idílico e o realista, o vinco entre a oralidade e a língua culta (inclusive atentando para as idiossincrasias do português falado na Negro Forro e no Rio de Janeiro) , entre o campo bucólico e cidade perversa. Mas pára por aí e não se prolonga nisso de maneira lá muito exaustiva. Segundo, o autor, mantendo a estrutura narrativas de tempo, respeitando a separação muitas vezes irreconciliável entre o culto e o popular – clara quando Marcelino trauteia uma ària de ópera ouvida na casa dos Di Montibello - , vincando um profundo respeito com a linguagem , não assume o texto como um relato e o narrador como seu relator onipresente. Nesse ponto, rompe e ultrapassa a herança modernista e meio tosca de herói. Aquele... herói..., que sem nenhum caráter, que racionalmente se posiciona acima do bem e do mal, que por isso mesmo isenta-se da moral, é um herói que por malabarismos linguísticos transformou-se no herói a procura de um caráter.
A pretensão de Godofredo de Oliveira Neto é clara, ao menos para mim. O autor tenta fugir da retórica do Modernismo, que a reboque de tanto academicismo, tanta bobagem criou, e tenta refundar seu Marcelino claramente como um herói pré-moderno, nos moldes dos heróis vencidos bem próprios da obra de Lima Barreto - o mais visionário e avançado dos modernos. Na verdade, pra ser sincero, nem sei se Godofredo de Oliveira queria criar heróis literários ou prender no visgo do seu alçapão os ainda restantes.
Quarta-feira, Maio 20, 2009
Les Amants

Jeanne, enquando o marido trabalha, dá umas escapadas para Paris durante o dia para passear tempo com a amiga Maggy com Raoul, seu amante jogador de pólo. Numa dessas escapadas, o carro de Jeanne quebra no meio do caminho, e então a providencial ajuda de um jovem estudante, Bernard, chega. O problema é que o favor se torna um estorvo, pois Bernard tinha uma série de visitas a fazer na cidade e não poderia levá-la a seus compromissos com Maggy. Conclusão, Jeanne chega atrasada para o jantar em sua casa, onde estão a sua espera Maggy e Raoul. No fim das contas, descobre-se que Bernard é filho de um amigo do marido de Maggy. Durante a noite em que todos dormem na casa, ainda no jantar, o marido pergunta qual são os planes de Jeanne para o dia seguinte. Ela, evasiva e sem cuidado, diz que são de estar com ele. Raoul tenta por todos os meios estar com Jeanne em sua própria casa, entretanto ela diz que é perigoso. Desce à bilbioteca, onde todos deixaram Bernard escutado uma sonata. Chegando lá, nesta cena decisiva, não o encontra. Desliga, então o disco da turntable, recolhe sua gravata e seu paletó, pousados numa gaveta e vai ao bar misturar à guisa de um bom rabo de galo, uns drinques. Encosta o copo com gelo na testa à guisa de esfriar a cabeça, vai até a porta em estilo francês, cheia de janelinhas quadriculadas. Olha para fora. Está impaciente. Tenta matar uma mosca sem sucesso. Abre a porta e começa a caminhar lentamente pelo exterior da casa, divagando em pensamentos - nestes momentos, ela fala em terceira pessoa, como se Jeanne fosse uma outra - , quando Bernard lentamente a segue. Ela se assusta. A câmera foca no rosto de Jeanne mostrando que ela se excita com a inesperada presença de Bernard. Ri nervosa e dissimula. Ela passa a andar de maneira teatral, como se o instigasse a seguí-la. Olha levemente para trás para certificar-se que ele segue. Ela esta confusa, passa a mão pelo rosto como limpando-o da dúvida. Bernard inicia um diálogo pueril sobre como deve ser om viver numa casa daquelas. Um diálogo dispensável, mas que quebra tensão da cena, mas que termina com um poema declamado por ambos, a noite é bela, a noite é uma mulher. Passam a noite num pequeno barco o resto da noite juntos. Toda a sequência, com seus silêncios, crises e diálogos internos de Jeanne, os dois na pequena canoa a deriva no meio de um lago, é de uma beleza impressionante. Na manhã seguinte, cansada do marido autoritário, e do ridículo amante, Jeanne parte com Bernard para uma nova vida, chocando a todos.
Louis Malle não é bem considerado um fruto da Nouvelle Vague, exatamente por que não é lá muito intransigente com os modelos do cinema estabelecido, tampouco usa diálogos inesperados ou rompe com a linearidade narrativa. Mas nesse seu segundo filme mais comercial, apelando para algum erotismo velado, feito diga-se de passagem quando ele tinha 25 anos, a parsonagem Jeanne é uma espécie de Madame Bovary pós-moderna, uma Capitolina sem véu e sem olhos de ressaca, sem o benefício da dúvida. De alguma maneira, Malle fez desse filme, um ponto fora da curva revolucionária da Nouvelle Vague, uma obra clássica, elegante e impressionantemente moderna sobre a frustração ou ao menos o desejo inancançável da verdade entre dois amantes. Usando da escandalização moral, tentou mostrar a verdade como uma virtude ambígua, especialmente no final quando o carro de Bernard e Jeanne deixa a cidade, e ela, num de seus diálogos internos, já não está certa de seu passo, mas nem por isso se arrepende.
Segunda-feira, Maio 18, 2009
Nota Fúnebre
Quién de nosotros é uma obra de geração sobre um triângulo amoroso existencial. Nessa primeira novela, Benedetti já lança uma técnica que mais tarde outros autores iríam utilizar, que é a de dar voz a todos os personagens envolvidos na trama. Nesta, “Miguel”, entre aspas, é na verdade o diário de Miguel, marido de Alícia. No diário, Alícia, decide deixar a casa e sua filha pequena para viver com Lucas, um amigo de juventude de ambos, Alicia e Miguel.
Todos os fantasmas que assolam Miguel passam pelo dilema de que Alícia, mesmo o tendo escolhido para casar, sempre fora apaixonada por Lucas. De alguna forma, ele, secretamente, convivia com a paradoxal situação de que a mulher com quem dividia a vida não era para ele. Ou seja, qualquer semelhança entre Jules et Jim pode ser ilusão, já que a novela é de 1953, nove anos antes do filme.
E como a novela se divide em três partes, a segunda parte é exatamente uma longa carta de Alícia a Miguel, explicando que sua atração por Lucas era decorrente dos próprios silêncios de Miguel, de sua ambiguidade em aproximá-la de Lucas alimentando uma amizade dos tempos de faculdade. Constata-se que Alícia desejava o diálogo, que Miguel, em seu laconismo, nunca correspondeu. Já na terceira parte, e exatamente na terceira parte, o título do livro começa a fazer sentido. Lucas, um escritor imaginativo e fabuloso, tem então voz ativa na estória. Seus personagens são extremamente ficcionais e percebe-se que o cidadão muitoas vezes não fala cois com coisa. Numa dessas aberturas, deixa transparecer que Alícia o abandonara novamente. E nesse finzinho, percebemos... quem deles... ou... qual deles... tem a verdadeira razão....
Ray Bradbury se esqueceu de nós
Num futuro, numa certa América, as pessoas vivem numa circunstância de ações pragmáticas ao extremo. Hedonismo e ignorância levam ao Estado punir qualquer um que seja pego lendo livros, enclausulando-os num sanatório. Os livros ilegais encontrados (por exemplo, Whitman, Faulkner e Ortega y Gasset), são queimados por bombeiros. Guy Montag, é um bombeiro que queima livros, mas um bombeiro diferente. No dia seguinte em que encontra a esposa prostrada ao lado de um frasco de comprimidos, vai para mais um dia de labuta. Furtivamente, ainda perturbado com o suicídio da mulher, numa das casas subversivasa, acaba folheando uma revista. Sente-se atraído pel conteúdo e passa a roubar livros para ler. Daí em diante, a estória toma outro rumo e ele vai descobrindo, agora com simpatia, que cada vez mais pessoas tem esse hábito subversivo.
Ou seja, de alguma forma, pensar numa sociedade que não lê, pode ser algo assutador. E ontem, revidando o blog de Galeno Amorim, me deparei com essa notícia.
Norte tem 92 cidades sem bibliotecas
A região Norte do Brasil apresenta um dos maiores déficits de bibliotecas do País. Uma, entre cada cinco cidades que ainda não possuem esse equipamento, está em um dos estados da área. Ao todo, são 92 cidades sem bibliotecas: Acre (6), Amazonas (36), Roraima (7), Rondônia (3), Pará (10), Amapá (4) e Tocantis (26).O Ministério da Cultura pretende zerar o número de municípios sem acesso público e gratuito aos livros até o mês de julho.
De alguma forma, até julho ainda corremos o risco de que a realidade possa ser muito mais perigosa e cruel que a ficção científica de Bradbury.
Imaginem se até julho, por falta de recursos públicos, essas bibliotecas não chegam à região Norte e as crianças que não tiveram acesso a esta biblioteca - que de fato nunca existiu - , se tornem adultos sem leitura e cheguem a conclusão que bibliotecas são prescindíveis, na mesma medida que a pobreza espiritual, àquela que desliga os olhos com que lemos ao sentimento, seja algo normal, e que os edifícios prisionais, lotados de pessoas que geralmente nunca puderam ler, sejam mais importantes que escolas, e que um policial seja tão desrespeitado quanto um professor, exatamente por aceleradamente perder a função social, mas isso não impede que as pessoas tenham uma idéia idílica do país como um lugar muito agradável de viver, mesmo sem saber ao certo como se irá sentir dignidade depois.
Pronto, botei um fim fabuloso, cabuloso e moralista.
Quinta-feira, Maio 14, 2009
Deixando para trás os nomes que vão mudando

Tive a oportunidade de reler recentemente (Sapa)teia Americana, livro de Onésimo Teotónio de Almeida. Antes de tratar do título, atento para o fato de algo que quase nunca me chama a atenção, e que nesse livro capturou meus olhos e minha alma: a dedicatória singela endereçada aos pais. «A meus pais, que de e/imigração entendem mais do que eu».
Mas tratando do título, o título. Pelo que verifiquei sofre ligeira influência do livro de um poeta português pouco conhecido no Brasil, que viveu por anos em Nova Iorque, chamado Vitorino Nemésio. O Sapateia Açoriana de Nemésio, sem dúvida, tem influência nos contos de Onésimo Teotónio de Almeida, mas não através dos poemas do livro em si. A influência verdadeiramente vem de uma outra obra de forte influência romanesca, que ainda não tive a oportunidade de concluir, chamada Mau tempo no Canal. Sente-se de Mau tempo a influência das idéias ali contidas. Os protagonistas da estória de Nemésio, João Garcia e Margarida Clark Dulmo estão apaixonados. Querem se casar. Entretanto, pertencem a classes distintas. João é um novo rico que pela sua descendência não oculta certo sentido de ostentação da riqueza em dispendiosas exibições. Já Margarida Clark Dulmo vem de uma família abastada, com raízes estrangeiras, mas em decadência.
O romance, aparentemente inconcluso, entre João e Margarida é uma grande metáfora que Nemésio cria para a condição de seu Açores, um arquipélago a meio caminho entre o velho e o novo continente. Isso fica claro nos sonhos de Margarida, quando procura os significados oníricos na décima ilha - Açores, só para constar, tem 9 ilhas -, justamente na chamada Ilha da Felicidade, um tipo de mito heliodrômico que povoa o imaginário dos açorianos há pelo menos... não sei quanto tempo. Certamente, a crença de que a civilização, assim como o sol, caminha para o ocidente está lá, latejando na cabeça dos insulares desde que Platão e Swift decidiram localizar suas Atlântidas a oeste do arquipélago. Pelo pouco que li, Nemésio aponta para esse caminho.
Certamente , tal paradoxo percorre todo o (Sapa)teia Americana - com os parenteses nas duas primeiras sílabas - em virtude, talvez não muito bem clara para muitos, de certa lógica de harmonização entre a idéia original de Nemésio, e o enredo e contextualização dos personagens com o próprio título. Há esse diálogo sem dúvida, que autor do (Sapa)teia Americana, entretanto, como todo o bom autor contemporâneo, transforma o mito e o sonho numa realidade nem sempre palatável, deslocando o eixo imaginário de Margarida, fragmentando-o em vários personagens, que vivenciam a dura realidade de imigrantes nos Estados Unidos, seja na California, NY ou Rhode Island.
Em linhas gerais (Sapa)teia Americana é um livro sobre imigração e a perda das raízes, que pode converter-se até certo ponto na perda da alma. Nesse ponto, dito assim, tudo poderia ser dramático. Poderia nos trazer a projeção sombria e lúcida do protagonista de Mephisto no filme de Szabó. Entretanto, em (Sapa)teia, um livro a meio caminho do conto e da crônica, há o componente – para o bem e para o mal - que Sergio Buarque definira ( não me lembro bem se em Cobra de Vidro ou Raízes do Brasil) como predominantemente aventureiro e semeador do colonizador tanto ibérico quanto luso.
No Brasil de quatrocentos anos atrás, dizia Sergio Buarque, o português chegara transpondo a cultura da metrópole para a colônia, recriando sua arquitetura e urbanismo, e adaptando-os, com improviso e com a mistura com as culturas nativas e africanas, à realidade da nova terra. Os lusitanos, isso sim, teriam sido mais semeadores do que ladrilhadores. Seu enraizamento era de certa forma orgânico e não planejado. Diferente do projeto ladrilhador norte-americano que, reza a lenda, já chegara com o espírito protestante, com o moralismo proveniente da natureza puritana, e o espírito da acumulação capitalista.
Transpondo essas características para os dias de hoje, (Sapa)teia Americana é um livro sério que rompe com a visão dramática de um Hendrik Höfgen versando com muito sarcasmo e bom humor em torno ao tema central da imigração. E os personagens dos contos, que são em grande medida imigrantes de língua portuguesa, na sua maioria portugueses ou açorianos, mas que também vez por outra atravessa ali por trás da tela principal, um brasileiro ou africano, são de uma riqueza interessante. Carregam ainda essa alma aventureira, sem dúvida. Mas a projetam num país anglo-saxão. O resultado em certos termos, trágico, realista, resulta na aceitação da vida, por parte dos personagens, como ela é, sem formar grandes ilusões nem imaginar grandes expectativas.
O que particularmente me chama atenção nesses contos são dois pontos. Primero, é a riqueza de detalhes cotidianos que o autor incorpora de forma lúcida a seus personagens. Segundo, o trabalho com a linguagem que o autor elabora, inclusive com um glossário do slang anglo-português, aproximando-nos da linguagem prosaica de seus personagens, e que ao fechar o livro, paramos e dizemos... É isso mesmo! Ainakin é Cerveja Heineken. Ame sóri é obséquio. Obvio. Obvio é o que vejo e não consigo expressar por palavras.
Interessante para mim, um reles mau leitor, falpórrias e consumidor de literatura, é nem tanto a profundidade psicológica dos personagens, que de certo o autor ocultou de maneira proposital, mas a naturalidade com que o autor dá voz a tipos prosaicos, deterrados, emprestados em terras estranhas, que sentem-se seduzidos mas ao mesmo vivenciam uma relação problemática com o cotidiano da cultura americana. Tais personagens, como começando com o primeiro conto, que se passa numa escola mas que aponta para as experiências fora da sala de aula onde Antônio, que dirige seu Buick, estuda inglês sem empenho, e inveja os parentes que concretizam o adágio de que mais vale a necessidade que a universidade, evidenciando que a maior experiência para ele, Antônio, está fora de sala de aula; ou Marianinho do conto A Amér(d)ica do Mariano, um tipo sem lapidação, um tipo que vai deixando a paixão pela música em vitrude das agruras da vida e da quantidade de filhos que vai acumulando; ou o padre Melo preocupadíssimo com os destinos dos carismáticos com suas falácias rituais que tomavam sua Igreja de assalto, mas que no fundo inquitava-se mesmo é com os institntos acasalatórios dos miúdos que andam pelos quintais de sua paróquia. Outros personagens, como o Jorge de O Dever de Homem, com seu laconismo desconfortável, num bar com os amigos a falar das agruras vida, das chatices da existência e evidentemente, como sempre, de cópulas com exaltações a natureza fodedora dos portugueses. Interessante, pois Jorge, tão português e tão macho quanto os companheiros de mesa, passa-nos a impresssão de que até poderia falar de mulheres nos termos colocados pelos companheiros, se estivesse num outro lugar, talvez com amigos mais chegados. Mas, como transparece um alto grau de pudor, apenas deixa entrever a extensão moral de sua solidão preferindo prescindir do nacional-fodismo dos amigos. Enfim, dessa estreita relação entre as personagens e o seu meio, surge uma simbiose interessante entre os protagonistas, geralmente inábeis expressar verbalmente coisas como solidão e saudade, e seu Outro. Esta relação, aliás, problemática desde o princípio em que pisam na terra, altera-lhes a aceitação da vida, torna-os céticos sem grandes ilusões se não àquela de um dia retornar.
De certa forma, interessante é como estes pisam e sapateiam essa terra de forma a reincorporar a alma prescrita de imigrante. Pois quem há de dizer que ainda são o que eram em suas aldeias , ou já são o que serão na nova terra. Esse vácuo, depois de atravessarem o mar de chão liquido do Atlântico, entre o que se deixaram de ser e o que nunca serão, é o paradoxo que acompanha os protagonistas imigrantes. E talvez aí esteja o verdadeiro sentido do título que me intrigou desde que pus os olhos sobre o livro.
Onésimo joga bem com esse paradoxo do Portugee na Amérida em forma de duas metáforas: primeiro, com o verbo sapatear - que vem a ser também uma dança típica dos Açores e que nos traz à lembrança a muñeira - ; segundo com o substantivo teia. Ao mesmo tempo que sapateiam e esconjuram a terra, em momentos de desespero, criam teias, pois vão deixando pelo caminho mulheres, amantes, filhos, saudades e raizes.
Poesia do dia: De Apolinário a Poço Fundo - João Cabral de Melo Neto
[...]
Deixando vou as terras
de minha primeira infância.
Deixando para trás
os nomes que vão mudando.
Terras que eu abandono
porque é de rio estar passando.
Vou com passo de rio,
que é de barco navegando.
Deixando para trás
as fazendas que vão ficando.
Vendo-as, enquanto vou,
parece que estão desfilando.
Vou andando lado a lado
de gente que vai retirando;
vou levando comigo
os rios que vou encontrando.
Sexta-feira, Maio 01, 2009
Linha do tempo
1822. A Independência Política de portugal foi feita por um príncipe português, que se tornaria rei de Portugal.
1838. 30 mil mortos é o saldo da Balaiada, que teve como herói um homem com codinome de O Pacificador.
1850. A lei da proibição do tráfico intercontinental de escravos veio no mesmo ano que a lei de terras. Ou seja, torna-se a terra cativa, na iminência da mão-de-obra passar a ser livre.
1864. A Guerra do Paraguai foi a única guerra em toda a América Latina a usar armas biológicas (Decepava-se a cabeca da vítima de varíola e deixava-se o corpo na cabeceira do rio, contaminando a água)
1861. O maior romancista brasileiro, Machado de Assis, trabalhou com censor no Conservatório Dramático Brasileiro.
1888. A abolição da escravidão foi assinada por uma senhora de escravos.
1889. A República foi proclamada por um monarquista.
1889. As eleições do Império, com voto era censitário, havia mais votantes que a da República onde mulher e analfabeto não votava.
1896. Um dos maiores massacres de um movimento igualitário foi liderado por um fanático religioso moralizante e conservador.
1922. O herói nacional do Modernismo é um tipo sem caráter.
1930. A Revolução Burguesa foi feita pelas oligarquias. A Revolução de 1930 não foi uma revolução.
1937. Um presidente ditador criou mais garantias trabalhistas que todos os presidentes democratas até então.
1954. O mais marcante feito de um presidente foi um suicídio.
1964. Ditadores eram estatistas. Democratas financistas.
1982. A redemocratização foi encabeçada por um general Sorbonne e um lider da UDN Bossa Nova.
1990. O único presidente que sofreu impeachment por corrupção foi o único que prometeu eliminá-la.
1995. O maior plano de privatização foi feito por um intelectual esquerdista.
2003. Os maiores lucros bancários da história da República foram alcançados na gestão de um presidente filiado a um partido trabalhista/socialista. O adágio de Celso Furtado é incômodo. Na bonança o Brasil concentra os lucros e e na crise socializa as perdas.
Quarta-feira, Abril 22, 2009
Waiting for Godô

Dirigido por Michael Lindsay-Hogg e tendo Barry McGovern no papel de Vladimir, Johnny Murphy no papel de Estragon e Stephen Brennan no papel de Lucky; a peça é dividida em dois atos onde contracenam dois personagens principais Vladimir, chamado de Didi, e Estragon, chamado de Gogo - e no decorrer da estória aparecem Pozzo, Lucky (uma espécie de escravo de Pozzo) e na cena final entra um menino, suposto mensageiro de Godot. A peça começa com ambos, Didi e Gogo, num lugar ermo, uma espécie de estrada, com uma àrvore seca ao fundo e um tempo indefinido entre o dia e a noite. Estragon tenta tirar sua botina, sem muito sucesso até desistir e murmurar... Nothing to be done, não há nada a fazer. Os dois então iniciam um diálogo trivial com uma série de referências bíblicas, tais como quando bem no começo, Vladimir citando o livro de Lucas, começa a falar da crucificação de Jesus e da salvação de dois dos quatro crucificados, se não me engano no fim da pirambeira da via Apia. Vladimir se sente frustado com a limitação de seu interlocutor e essa relação de superioridade impera nos dois atos. Mas os diálogos são triviais que chegam a ser absurdos, sim.
No vazio em que se encontram, Estragon sugere que se suicidem. O efeito é cômico pois rapidamente abandonam a idéia ao se darem conta que talvez um sobrevivesse deixando o outro solitário, hipótese absolutamente imponderável para ambos.
A certa altura passam dois desconhecidos. Um segurando uma longa corda que está amarrada ao pescoço do segundo. Pozzo segura a corda que amarra o pescoço de Lucky, que carrega uma pesada mala. Didi e Gogo, eles que estão esperando alguém que nem sequer conhecem, se sentem assustados com o absurdo da cena. Pozzo decide descansar um pouco e puxar dois dedos de prosa com a dupla Didi e Gogo, que a princípio pensam se tratar de Godot. Pozzo come um frango, toma uma taça de vinho e assim que termina lança os ossos a Lucky que Estragon prontamente tenta alcançar, para embaraço de Vladimir.
Antes de partir Pozzo pergunta se ele poderia fazer algo pelos dois. Estragon tenta perdir algum dinheiro, porém Vladimir corta-o imediatamente, mas aceitam que Lucky dance e filosofe na frente deles. Na peça como se pode ver não há ação, não há profundos sentimentos que liguem os personagens, não há sequer uma trama que amarre a todos, chegou-se a dizer que nas peças de Beckett nada acontece. De fato, nada acontece. Não há a ação que encontramos, por exemplo, nas peças de outros dramaturgos contemporâneos comoEugene O’Neill ou Wilde, ou a profundidade psicológica de um Treplev de Tchekov. Então o que nos torna reféns da poltrona frente à peça?
Os paradoxos para espectador são muitos, nem tanto pelo absurdo das cenas e dos diálogos desconexos, mas pelas consequências dos mesmos. A peça é surpreendentemente instigante exatamente pelos fragmentos de diálogos e da narrativa, quase na forma de esquetes que ficam cutucando e incomodando de alguma forma nosso parcimonioso inconsciente sonolento e preguiçoso.
Efemérides e quinquilharias
Não se sabe ao certo se sabia-se ou não da existência de Pindorama, mas já havia indícios de que havia algo do lado de cá do Atlântico, já que em Novembro de 1493 Cristóvão Colombo escrevera em carta ao Rei sobre o achado as supostas Índias Orientais.
http://www.wdl.org/en/item/2962/
Há indícios que Alonso Ojeda, acompanhado de Américo Vaspúcio teria descido pela Venezuela e tocado a Terra dos Papagaios no litoral do Rio Grande do Norte, antes de Cabral. Quem sugere isso é Varnhaguen, que acabou sendo contestado por Capistrano de Abreu e Rio Branco - que diga-se de passagem era homem de Estado e dependente da arte psicotrópico-cartográfica. Dizem que, tendo casado com uma dançarina francesa, não lhe restava outra coisa que dormir sobre os mapas espalhados na mesa do palácio Itamaraty.
Corre outra lenda que Vicente Yánez Pinzón havia tocado o litoral de Pernambuco, ou a ponta do Mucuripe no Ceará, tomado posse e chegado ao chamado Mar Dulce, que viria a ser a foz do Amazonas, mas resolveu seguir para o Norte. Os historiadores Duarte Leite, Capistrano e o Visconde de Porto Seguro a contestam, com o argumento baseado na preexistência conhecida do Tratado de Tordesilhas, mas escondendo a opinião de que no fundo pai é quem cria.
Embora o descobrimento tenha sido de fato feito por Pinzón, o descobrimento oficialmente válido foi feito pelo seu Cabral.
Em 1852, no IHGB - aquela arcádia olissiponense de gente inteligente mas chata para dedéu, iniciou-se uma peleja das mais tiranicídias, com direito a dedos no olho, cuspidas na cara e envolvimentos de nomes de mães no meio. O tema do acaso ou da intencionalidade do descobrimento, ou como diziam, a questão da prioridade e da intencionalidade, veio à tona. Gonçalves Dias - aquele... do... Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá... - sustentando a tese de Norberto de Sousa sobre a prioridade da posse, afirma que D. Manuel, em carta aos reis da Espanha, comunicava a descoberta 'milagrosa' da terra.
Referia-se o Rei que Cabral "chegou a uma terra que novamente descobriu". Esse novamente virou objeto de discórdia entre a velharada do IHGB por anos. Foi resolvido apenas por Capistrano de Abreu, que retoricamente afirmou tratar-se a carta de viagens feitas à região sententrional, onde havia estado outros navegantes portugueses, e a palavra novamente, poderia ter bem o sentido de recentemente - mas essa é uma questão que de fato apenas uma pessoa pode resolver: Zé Saramago.
Nota do dia.
Lançamento da World Digital Library.
http://www.wdl.org/pt/
Segunda-feira, Abril 20, 2009
Little Children
Sarah Pierce (Kate Winslet), casada com Richard (Gregg Edelman), vive no monótono e impressionantemente interiorano subúrbio americano. Ex-feminista e militante, sem em ter mais o que fazer com suas horas livres do dia, leva sua filhinha Lucy a uma pequena pracinha perto de sua casa para que a menina possa brincar com as outras ciranças. Sarah nunca consegue aderir plenamente à conversa com outras mães que falam de filhos, dos utensílios domésticos que incluem seus maridos gordos, da dedicação heróica aos filhos e das insatisfações sexuais decorrentes de fazerem sexo com a mesma pessoa por anos. Bom, certo dia, surge no parquinho Brad Adamson (Patrick Wilson) e seu filho Aaron. Brad que já estivera no parque anteriormente, mas Sarah não o vira, e tinha sido apelidado pelas mulheres como "rei do baile de formatura".
A ‘comissão suspiradora de mães frustradas’, nem sequer sabe o nome do homem, mas ficam alimentando uma esperança que ele apareça. Belo dia Brad aparece e fica empurrando o seu guri no balanço como quem não quer nada. Sara vai até o balanço e fica empurrando sua menina como quem não que nada, mas puxa uma conversa com Brad. Resumindo a estória. Brad é frustrado por ter terminado a faculdade de Direito e não ser capaz de passar em duas tentativas no BAR Examination – sem esse exame o cara não pode exercer a profissão. Ele fica o dia todo em casa, cuidando do filho, enquanto e mulher, infeliz com o casamento e com a vida, trabalha como diretora de documentários paraa rede pública de televisão, PBS. Ou seja, a Amélia sustenta a casa.
Sarah não trabalha, mas é frustrada com o casamento e a própria vida em comum. Ela que fora uma estudante feminista militante, encontra-se agora casda com um marido workaholic que nas horas vagas frequenta sites de muita sacanagem pornográfica, comprando calcinhas usadas – sim, o capitalismo chegou a tal ponto que é ou não é muita sacanagem esse negócio de vender calcinha usada. Certo dia é inevitável. Ela pega o malandro, eufemisticamente com a boca na botija, na frente do computador, ou melhor, onanisticamente com as mãos na botija. Fica p... diz poucas e boas, mas continua casada...
Nesse meio tempo, Ronald "Ronnie" James McGorvey, que havia sido preso exibindo suas ‘coisas’ para um menor, retorna para o bairro, deixando todos os moradores apavorados. Brad é convidado por Larry Hedges, um ex-policial, para fazer parte da comissão de moradores contra a presença de "Ronnie". "Ronnie" é um cara tão anormal que consegue sair com uma outra mulher, assim como ele cheia de problemas, e põe por terra o velho adágio de que há sempre um sapato velho para um pé doente, e acaba se masturbando dentro do carro, na frente dela, que desconsolada, chora.
Sarah Pierce e Brad Adamson, então começam um romance, num dia de chuva, os filhos molhados, vão dormir na casa de Sara, no meio do dia. No basement o casal começa os movimentos iniciais de lesco-lesco. Daí par a frente...
Como uma estória dessas termina? Nada bem, apesar do final ser surpreendente e conciliador para todos, menos para Brad Adamson que leva realmente a pior nisso tudo. O filme foi baseado no livro homônimo de Tom Perrota. Não li este livro especificamente, mas o filme me lembrou o Mystic River de Dennis Lehane.
Sentimentos

Recentemente, lendo L'Éducation Sentimentale, onde Flaubert narra de maneira inviolavelmente distanciada as circunstâncias da Revolução de 1848 e o nascimento, em plena chapa quente, do "Manifesto Comunista", percebi que a tese de Meyer pode não ser de todo errática.
A força da tradição a qual Mayer se refere trata fundamentalmente da persistência que a classes aristocráticas, encalacradas nas esferas de poder do Estado, tiveram na deflagração da I Grande Guerra. Com o fim da Guerra, era necessário uma nova diplomacia que não cometesse os mesmo erros de Versailles - bom com a guerra dos Balcãs, vimos que o buraco seria mais embaixo. Fato é que a Velha Diplomacia, dos tratados secretos, das viradas de mesa dos bastidores cedeu lugar à Nova Diplomacia pautada na teses de Lênin e de Woodrow Wilson.
A falência desse, digamos assim, antigo regime, criou uma certa ilusão nas classes médias contemporâneas de que viveriam felizes para sempre no mundo dourado da meritocracia. O cidadão então pensou que bastava ganhar dinheiro para os comprar para se tornar um incluído no seleto grupo aristocrático, absorvendo assim seus valores. O"self-made men" burguês, incluto e iletrado, cedeu ao bosta, pois passou a frequentar o tal do shopis centis e incorreu num erro mais grave. Passou a viver ignorando ou em alguns casos pensando ilududamente que procedência, sobrenome, proveniência e todas as metáforas do antigo regime cairíam totalemente. Pensou, erroneamente, que podia ser igual ao cara que vem de berço. Com o fim da Primeira Guerra Mundial, e o enterro do Velho Mundo que o conflito arrastou consigo, quase tudo mudou, mas ter nascido em bom berço - e no caso brasileiro, ter um nome com mais de 6 sobrenomes - ainda ajudou muito para abrir portas.
Um dos grandes intelectuais do Século XX a desvendar essa face cruel da sociedade, foi o Pierre Bourdieu. Desmascarando a "ideologia da igualdade de oportunidades" - ideia que tem que ser dita bem baixinho, com muita delicadeza, quase sussurrando para não ferir os brios dos marxistas – Bourdieu marotamente substituiu a idéia que determina um burguês. O poder de uma classe social, ao menos no campo literário, para Bourdieu, não é determinado pela posse material da propriedade privada ou voilá pela posse dos meios de produção, mas sim pelo uso de um poder subjetivo que vai se construindo pouco a pouco. O poder simbólico. Um poder permeado pelas idéias de esferas de valor, influência, ascendência, autonomia. Ou seja, o que determina a importância literária de um livro, não seria produção material do objeto livro em si, mas a produção de seu valor. Em outras palavras, escrever todo mundo é capaz, publicar um livro talvez seja fácil também pois te um monte de palha no mercado, mas então se escrever é, com algumas regras básicas, aparentemente possível, e se publicar também, o que determina o sucesso de um livro? Para Bourdieu o que definiria isso seria o tal valor agragado que está para além da produção material da obra.
Boa parte da teoria em torno ao que ele chama de habitus, vem sendo trabalhada por Bourdieu desde os anos 1960, quando o sociólogo, que era na verdade antropólogo, estudava a dinâmica de matrimônios arranjados e seu impacto na dinâmica econômica das tribos de Kabyla, no norte da Argélia. No livro Les règles de l’art. Genèse et struture du champ litéraire, Bourdieu estuda exatamente o L'Éducation Sentimentale de Gustave Flaubert.
Depois de quase 3 meses de idas e vindas, anotações e leituras paralelas... terminei o livro L'Éducation Sentimentale de Gustave Flaubert e o Las Reglas del Arte, já que mon frances est tres bizarre pa podê lê nu orriginale.
Por que tanto tempo? Este não é um livro de fácil leitura, tampouco um livro como qualquer outro. São pelo menos 25 personagens medíocres que aparecem e desaparecem no contexto de dois grande grupos. Primeiro, os personagens que orbitam o universo do protagonista, Frederic Moreau. Segundo, os personagens que giram em torno da familia Arnoux, com quem Frederic trava contato ainda nos tempos de universidade.
Frédéric Moreau. O protagonista e o nosso jovem herói. Um provinciano francês que em seus altos e baixos termina como um dos membros da classe média francesa.
Jacques Arnoux. Editor, industrial do ramo de porcelanas, especulador, avalista, conquistador e principalmente chavelho.
Mme. Arnoux. Mãe de dois, Marthe Arnoux e Eugène Arnoux, meio Capitú, consorte, sem sorte, por querer esquentar seus pés justamente com Frédéric Moreau.
M. Roque. Um mediano prorietário de terras e espécie de guarda-livros (essa palavra ainda existe?) de M. Dambreuse. Pai da adorável Louise Roque, que tem o terrível defeito de só pensar em uma coisa na vida: casar.
Louise Roque. Adorável filha de M. Roque, que por só pensar em casar, apaixona-se por Frederic, mas casa-se com Deslauriers, um dos elhores amigos de Frederic.
M. Dambreuse. Banqueiro, aristocrata, provavelmente gordo e hipertenso. Casado com Mme Dambreuse, mulher mais jovem e cheia de fugor, com quem Frederic tem um caso e parte de suas dívidas pagas.
Mme Dambreuse. Esposa do banqueiro provavelmente gordo, diabético ou hipertenso Dambreuse. Jovem e cheia de fugor, a viuva tem um caso com Frederic.
Charles Deslauriers. Estudante de direito e melhor amigo de Frederic. O oposto de outros amigos de Frederic tal como Cisy. E ambicioso e inteligente. Tem ambição mas carece das relações sociais que possam catalisar suas ambições. Pela falta delas, vive num universo de inocência colegial pois ao mesmo tempo que tem ambições estéticas, ignora determiandos mecanismos sociais tais como o esnobismo. Flaubert é cruel com nosso amigo: “Por ser pobre, ambicionava o luxo em suas formas mais transparentes”
Baptiste Martinon. Estudante de direito. Tem berço pois é filho de um fazendeiro. Mesmo tendo berço e dinheiro, é retratado com workaholic e talvez por isso, ou apesar disso, termina como Senador, no fim da novela.
Marques de Cisy. Um nobre que nas horas vagas é estudante de direito. Flaubert o retrata como um personagem bonito, co boas relações e com dinheiro, mas pouco inteligente.
Sénécal. Professor de matemática, puritano, provavelmente careca e um Republicano dogmático.
Dussardier. Comerciante dono de um pequeno comércio. Um republicano idealista, mas sem muita fundamentação teórica.
Hussonet. Jornalista e crítico teatral, que com as manifestações do 1848 acaba por controlar a impensa e os teatros.
Regimbart, O Cidadão padrão. O revolucionario que de tão revolucionário se tornou um chuavinista. Com seu discurso tão revolucionário, se tornou uma sombra patética e incosistente do que foi.
Pellerin, um pintor com mais teorias que talento e que passa a ser fotógrafo - possso estar iludido como sempre, ams Luiz Antônio Assis Brasil escreveu recentemente um livro ( O pintor de Retratos) ondeseu portagonista Sandro Lanari, lembra vagamente Pellerin.
Mlle Vatnaz, quase feminista, quase escritora, quase atriz, e competente cortesã.
M. e Mme Oudry, e Dittmer, conviva de Arnoux
Delmar, ator, cantor e nada mais.
Catherine, governanta de M. Roque.
Eléonore, mãe de Louise Roque.
Tio Barthélemy, o tio que Frédéric mais ama e que quer que morra logo, para herdar a herança prometida.
Rosanette Bron, "A Marechala" courtesã, última esposa e viúva de M. Audry.
Clémence. Amante de Deslauriers.
Marquês Aulnays. Padrinho de Cisy; M. de Forchambeaux, seu amigo, Barão de Comaing, outro amigo; M. Vezou, o tutor.
Cécile. "sobrinha" de M. Dambreuse. Na verdade filha ilegítima.
Mas sua complexidade e corrosiva sutileza não residem na quantidade de personagens, mas na interseção destes, e na magistral maneira como Flaubert conduz a obra mostrando como o personagem principal refuta paulatinamente a realidade deixando quase que exclusivamente os outros personagens da novela tomarem das principais decisões e diratem os rumos da novela. Bourdieu chega a dizer que “Frederic não consegue comprometer-se nem com o mundo dos jogos da arte tampouco com o mundo do dinheiro, como propõe sua realidade social. Refuta a Illusio como ilusão de realidade, se refugia na ilusão verdadeira, cuja a form por excelência é a ilusão novelesca em suas formas mais extremas".
Esta novela é uma obra-prima. Talvez não tão rica em termos de adultérios e reviravoltas como Madame Bovary, mas talvez mais interessante para um leitor contemporâneo e urbano, pois não há nela a tentativa da protagonista de fugir de sua condição banal e vazia da vida provinciana vivida por Emma Bovary, em Rouen, na Normandia. Não há um marido como o entediante marido de Bovary. Não há, entre conquistas e decaídas, a série de amantes que Bovary vai colecionando ao longo de sua vida. O que há em L'Éducation Sentimentale, uma novela não menos polêmica mas totalmente diferente da publicada doze anos antes, é a visão sobre o fracasso de uma geração inteira que vê pela primeira vez seus ideais fundados na Revolução Francesa, rumarem ralo abaixo. De certa forma, incitou a literatura realista com a criação de personagens percebem a sua vida medíocre e lutam para se ver finalmente “livres”.
O tema do aultério é sem dúvida recorrente em suas páginas. A novela de tom irônico e pessimista, retrata vinte e sete anos da vida de Frederic Moreau e de sua paixão por uma mulher mais velha, Madame Arnoux. No início da novela, Frederic Moreau, um jovem provinciano, estudante de direito, passa parte de sua juventude de estudos em Paris da década de 1840. Certo dia conhece Mme. Arnoux, esposa de um editor de uma revista de arte e um comerciante de quadros com uma loja em Montmartre. E se apaixona por ela.
Frederic é um jovem sonhador e indeciso sobre que carreira seguir, dentre as muitas que se abririam na burocracia estatal, assim que terminasse a faculdade de Direito. O problema é que é um jovem sonhador, com algumas veleidades literárias, artísticas e mundanas. Outro porblema, por ter tido tudo tão fácil, nunca se esforçou para alcançar nenhum de seus objetivos. Por uma capacidade intuitiva, pensava que poderia ter tudo que quisesse, bastava que para isso fosse para Paris e se relacionasse com a burguesia e a aristocracia. E nesse ponto cabe uma observação no que tange à oposição social na amizade de Frederic e Deslauriers. Frederic é tão pobre quando Deslauriers, porém tem a possibilidade de se tornar um herdeiro, e isso os diferencia, da mesma forma que diferencia os que herdam e os que apenas tem a aspiração de possuir. Bourdieu, em sua análise estruturalista, diz que essa é a diferença essencial entre os burguês e o pequeno burguês.
Para penetrar nesse estreito mundo, tenta se oncluir no círculos dos Dambreuse, banqueiro, aristocrata, provavelmente gordo e hipertenso, casado com Mme Dambreuse, mulher mais jovem e cheia de fugor. Ledo engano. Mesmo atado às formalidades típicas de um provinciano, Frederic, em sua cordialidade, tenta estreitar as distâncias pessoais que o separam de outros parisienses, priorizando os laços afetivos, criando uma intimidade com aqueles com quem se relaciona. Essa busca pela intimidade com seus pares, alheia aos fatos e às diferenças que os distanciam, poderia possibilitar sua ascendência, não fosse sua tendência à mediocridade. Com a acolhida fria que recebe nos altos círculos, volta a desaparecer na incerteza, em seu ócio e em sua solidão. Paralelamente, frequenta outros grupo de jovens estudantes e boêmios: Martinon, Cisy, Sénécal, Dussardier e Hussonnet. No contexto desse grupo é convidado a ir à casa dos Arnoux, onde reencontra a Madame Arnoux e demosntra sua atração. Entretanto, ela aparentemente não corresponde à suas iniciativas.
Parte então de férias para sua Nogent natal. De sua mãe, recebe a notícia de que a situação finaceira da família é delicada, mas há uma luz: a morte de um tio velho e cheio da grana. A situação precária, não o abala, especialmente por que conhece a Louise Roque, que se apaixona por ele. Mas o dândi já frequentava a cidade, e agora com a possibilidade dos bolsos cheios de dinheiro, não havia muito espaço para Louise.
De volta a Paris, passa a frequentar mais e mais a casa dos Arnoux. Torna-se tão íntimo que passa a dividir segredos com Arnoux. De fato, Flaubert dá um pontapé na idéia de moralidade dos românticos por considerá-la um ultraje, mais do que um modelo a seguir. Frederic conhece a amante de Arnoux, a cortesã Rosanette. E nesse contexto de noitadas e cafés, aproveitando-se da derrocada econômica e de suas dívidas,algumas das quais Frederic fora avalista, este aproveita-se da situação para tornar-se amante de Rosanette e dos encantos da vida luxuosa.
(CONTINUA)
Quinta-feira, Abril 16, 2009
Krapp’s Last Tape
O livro trata desta temática da indefinição, justamente no período mais instável da vida. Trata das cartas da juventude, justamente o período em que Beckett não era o Beckett que conhecemos em Krapp’s Last Tape, Waiting for Godot ou Act Without Words I e II. Segundo Coetzee, mostra-se nessas cartas todas as angústias do jovem escritor frente a indefinição do futuro, frente a sua fragilidade e insegurança como jovem professor de literatura, procurando saídas para a vida sísifica de um profissional que deve viver de ensinar àqueles que não querem aprender.
Isso fica claro com algumas passagens, como a da consternação que Beckett sentia com a possibilidade de se tornar escravo do magistério. Após terminar sua licenciatura em italiano e francês com uma tese sobre Proust, em 1931, Beckett passaria a sentir calafrios com a possibilidade de ser professor. Dia após dia, o introspectivo, taciturno e jovem homem, confrontava-se na sala de aula com os filhos irlandeses de classe média protestante. A experiência é traumática mesmo, só que já enfrentou uma sala cheia de alunos sabe do peso da cruz que Beckett carregou. Além dos fatores psicológicos do enfrentamento, com seu modesto salário de professor se viu obrigado a cuidar da mãe, após a morte do pai. Nesse contexto, passou a publicar short-stories como More Pricks Than Kicks (1934) e a pequena novela Murphy (1938). A falta de grana, a ambição de se tornar escritor e a convivência com a mãe, o tornaram um cara meio amargo. Sobre a mãe escreve ao amigo Thomas McGreevy, "to keep me tight so that I may be goaded into salaried employment. Which reads more bitterly than it is intended."
No entanto persistia na escrita. Continuava trabalhando como professor de línguas no Berlitz school na Suiça e na Rodésia, com propaganda em Londres, e até mesmo como piloto de aviões. Mas, das artes, a carreira que o fascinava era o cinema. Eisenstein, o cineasta preferido. Chegou a escrever para ele pedindo uma vaga para ingressar na Moscow State School of Cinematography. Isso aí foi no final dos anos 30. Coetzee se pergunta, com alguma malícia, como Beckett poderia ter tão olímpico desisteresse por política, num momento em que Stalin, Mussolini e Hitler estavam no poder. […] breathtaking naiveté or as serene indifference to politics? Bem, a pergunta procede, vindo de quem vem, pois pouca gente sabe, mas muita gente desconfia que Coetzee participou dos primórdios da Weatherman – um dos grupos mais radicais da política americana e ao qual Philip Roth dedica o enredo de American Pastoral.
Coetzee sentencia que o pai do Teatro do Absurso, tinha o coração na direita por sua formação protestante. E podia até ser, mas as justificativas para a assertiva, não são explicitadas por Coetzee. Ele lança a questão e desvia dela no paragrafo seguinte, retornando maliciosamente para o aspecto literário de Beckett. Bem, acho estranho que um camarada que tenha participado da resistência francesa fosse um cara tão de direita assim. Mas também concordo com a velha piada que depois da guerra não havia um francês que tivesse apoiado Vichy... Não estaria Coetzee criando uma cortina de fumaça para que esta sua face misteriosa acadêmico-ex-Weatherman, viesse à tona?

No frigir dos ovos... na sanha de assistir todas as peças da série de Beckett on Film http://www.beckettonfilm.com/ , ontem assisti ao Krapp’s Last Tape, um peça escrita em 1958. John Hurt interpreta Krapp nesta peça dirigida por Atom Egoyan.
Uma peça de cenário simples. Uma mesa, uma cadeira, estantes com livros e cadernos de anotação por toda a parte. Sobre a mesa, o elemento principal, um gravador de rolo. Krapp passa a maior parte do tempo sentado à frente do gravador, sob um foco de luz, e um cenário bem definido entre escuridão e luz, passado e presente, história e memória.
Na peça, Krapp é um homem envelhecido que costumava a gravar suas falas num gravador de rolo. Aleatoriamente, encontra a caixa número três, fita número cinco. Na gravação antiga, a princípio, não se sabe ao certo do que se trata, pois há uma série de fragmentos de falas do próprio Krapp. Aos poucos percebemos que Krapp, ao escutar sua voz juvenil, se impacienta com seu passado. Parece-lhe que quando jovem era extremamente arrogante, ególatra e descentrado com a realidade. Em algumas partes, torna-se até mesmo doloroso Krapp escutar sua voz falando de sua relação com uma mulher que visivelmente não se sentia atraida por ele, mas que ele insistia em tocá-la.
“I said again I thought it was hopeless and no good going on, and she agreed, without opening her eyes. (Pause.) I asked her to look at me and after a few moments--(pause)--after a few moments she did, but the eyes just slits, because of the glare. I bent over her to get them in the shadow and they opened. (Pause. Low.) Let me in. (Pause.) We drifted in among the flags and stuck. The way they went down, sighing, before the stem! (Pause.) I lay down across her with my face in her breasts and my hand on her. We lay there without moving. But under us all moved, and moved us, gently, up and down, and from side to side.”
Ao final, ele, talvez, tentando modificar ou amenizar sua história e seu passado, grava uma nova fita sobre sua experiência em escutar suas narrativas e constatar que seu presente de velhice amarga e carente de esperança poderia talvez ser mudado para a posteridade.
“Pause. Krapp's lips move. No sound.
Past midnight. Never knew such silence. The earth might be uninhabited.
Pause.
Here I end this reel. Box--(pause)--three, spool--(pause)--five. (Pause). Perhaps my best years are gone. When there was a chance of happiness. But I wouldn't want them back. Not with the fire in me now. No, I wouldn't want them back.
Krapp motionless staring before him. The tape runs on in silence.”
Um peça que muito faz pensar nessa coisa de ter um blog...
Terça-feira, Abril 14, 2009
La grande illusion

Ontem, Stella e eu assitimos o La Grande Illusion, um filme de 1937, dirigido por Jean Renoir. Durante a I Guerra Mundial, dois aviadores franceses, Capitão de Boeldieu e Maréchal, caem prisioneiros na Alemanha. Capitão de Boeldieu é um aristocrata enquanto Maréchal era um mecânico nos tempos de civil. Na prisão, encontram outros prisioneiros de diferentes patentes e estratos sociais, tais como Rosenthal, filho de um banqueiro judeu. Presos, Maréchal e Rosenthal só pensam numa coisa: escapar. Para isso, começam um túnel. No entanto antes de sua conclusão, os dois são transferidos de prisão e pelas barreirsa linguisticas não conseguem comunicar aos novos ocupantes britânicos da cela que havia ali um túnel a ser concluído. Alguns meses depois, reencontram Rosenthal, na prisão de Wintersborn admnistrada pelo Capitão von Rauffenstein (interpretado pelo grande Erich von Stroheim). Wintersborn é uma espécie de Bangu 25 – versão de máxima segurança de prisões de segurança máxima. Mas os três prisioneiros conspiram pela fuga.
O dilema dos prisioneiros passa longe da teoria dos jogos, pois todos os envolvidos são movidos pela Grande Ilusão dos grandes sentimentos. Boeldieu tem um plano que consiste em chamar a atenção dos guardas alemães, para que os outros dois Maréchal e Rosenthal escapem. Uma assembléia é organizada e uma espécie de rebelião, com todos tocando uma espécie de flautas doces improvisadas, começa uma baderna generalizada. Na contagem do presos, Boeldieu, que não está presente, começa chamar atenção no telhado. Os guardas se dirigem ao telhado enquanto Maréchal e Rosenthal escapam por uma corda confeccionada por meses.
A hombridade de Boeldieu não se deve especificamente a uma grandeza de ânimo metafísica acima do humano, ainda que haja uma boa dose de humanismo em sua personalidade. Boeldieu é humano, mas não é isso que o faz ser respeitado por von Rauffenstein. O que o faz ser respeitado por von Rauffenstein é sua natureza aristocrática, que o permitiu frequentar as mesmas mesas no Maxim's em Paris ou cortejando as mesmas mulheres, sorvendo os mesmos licores. Prova disso é que, enquanto todos usam uniformes, e muitas vezes possuem a mesma patente, o que os distingue dos demais militares é sua origem e o uso de diferentes idiomas. Para isso, ambos conversam tanto em alemão, quanto em francês e até mesmo em inglês quando não querem ter suas conversas ouvidas pela malta da caserna. O detalhe do que o Bourdieu chamaria um dos componentes do poder simbólico está aqui, talvez insignificante para muitos, mas está ali, firme e forte. Está na conversa de von Rauffenstein e Boeldieu, quando o primeiro lamenta-se da derrocada final da classe aristocrática – que o historiador Arno Mayer definirá brilhantemente seu grande livro The Persistence of the Old Regime: Europe to the Great War, sustenta que na Europa do século XIX.
Na sequência da fuga de Maréchal e Rosenthal, esse vínculo entre o Capitão von Rauffenstein e Boeldieu torna-se claro e dramático. Von Rauffenstein, vendo a resistência de Boeldieu em se render, é obrigado relutantemente a atirar no amigo.
A partir desse momento, o filme prova que, ao menos em termos de narrativa, é um dos melhores filmes de todos os tempos (com sequências que na minha modesta opinião, iriam influenciar Billy Wilder em Stalag 17 e até mesmo Tarkovsky. Como? Um filme de Guerra, sem sequências de batalhas).
Maréchal e Rosenthal escapam pelos cantões alemães enquanto Boeldieu definha ferido na prisão. Rosenthal, machucado, não consegue acompanhar o ritmo de Maréchal, apesar de persistirem na caminhada pela neve, enfrentando o frio, exaustos, tentando chegar à fronteira da França. Decidem então refigiarem-se numa casa. Chegam a casa de Elsa, uma das viúvas da guerra, que cuida dos dois por alguns dias de véspera de Natal. Em meio ao frio, a incerteza, à solidão de Elsa e sua filha, Rosenthal e Maréchal, então, preparam uma festa de natal para a filha de Elsa. Na mesma noite
Maréchal e Elsa inicia um romance, que duraria pouco, pois prontamente Maréchal e Rosenthal deveriam escapar pela fronteira da Suiça. Apesar de Maréchal prometer que se sobreviver voltará. A cena da despedida é triste, como todas as profundas e sem esperanças despedidas. Ele não olha para trás, pois sabe que se o fizer, não partirá. Na fronteira, ainda são alvejados por soldados alemães, mas que impotentes já não os podem capturar. Enquanto isso o Capitão von Rauffenstein acompanha com unção os últimos momentos de vida de Boeldieu, lamentando-se por ter atirado no amigo. Consternado, quando já não há mais nada a fazer, fecha os olhos de Boeldieu.
Para terminar, umas curiosidades cercam o filme que foi censurado por anos na Bélgica – que tem um aeroporto chamado Chaleroi - e foi terminantemente proibido por Goebbels na Alemanha. Outra curiosidade interessante é quando Elsa mostra as fotos do marido e dos irmãos, mortos nas batalhas de Verdun, Liège, Charleroi, e Tannenberg, exatamente as vitórias mais decisivas da Alemanha na I Guerra. O Jean Renoir escreveu em sua autobiografía, Ma Vie et mes films, que Erich von Stroheim, apesar de austríaco, não falava alemão, e teve de aprender o idioma como um menino de escola para interpretar o oficial de coluna esculhambada, Capitão von Rauffenstein.
Se eu pudesse definir esse filme em poucas palavras diria, sem incorrer em filosofia banca de jornal, que este é um filme que fala da esperança perdida nas relações humanas. Não é nada, não é nada, após assitir o filme, olhe para os lados, ponha a mão na consciência, e me diga, primeiro, se o mundo não está cheio de escrotidão, e segundo se o nome do filme não é perfeito? Stella, de emocionada que ficou, diz que ainda é cedo para falar. Acho que entendo o porquê.
Quinta-feira, Abril 09, 2009
The Brief Wondrous Life of Oscar Wao

Deixe-me ser claro: Um livro que tem como protagonista um adolescente, obeso, mulato, dominicano, onanista, vivendo em Nova Iorque, ruim de jogo comas as mulheres e ainda por cima nerd viciado em ficção científica, tinha tudo para ser um desastre editorial. Brief wondrous life of Oscar Wao de Junot Diaz, não é. Ao contrário. Apesar de não ser uma obra prima, é um livro bem legal. Um livro bacana e cheio de humor, pois o protagonista Oscar carrega consigo uma maldição, o fukú, que afeta a maioria dos dominicanos do sexo macho e que precisam conquistar e ter muitas mulheres para poder conquistar para ter mais mulheres, e assim ter mais mulheres para poder conquistar. O rapaz é simplesmente um fracasso não apenas com as meninas, mas em quase tudo que faz. Uma espécie de inútil na familia. Tão inútil, tão inútil, que, por pena, o deixam em paz.
Ele é um tipo de garoto que treme nas aulas de educação física, não gosta de esportes, mas que usa palavras incrivelmente sofisticadas em conversas com amigos que ele sabe, mal terminarão o estudo secundário - isso o torna estranho até mesmo dentro de seu habitat natural. Uma das máculas em seu curriculum de jovem suburbano de Paterson, New Jersey, é o fato que terminou o High School sem ter nunca tido sexo. Para piorar, até seus amigos mais nerd, tinha conseguido sair com alguma menina. E ele, virgem...
No College, sua irmã Lola e seu namorado Yunior, fazem de tudo para por o pobre Oscar na linha. Pressionam de todo o lado para que ele faça ginástica, coma menos e melhor, se entrose com as meninas.... Yunior é o camarada que finalmente vaticina que Oscar sofre de “a high-level fukú”, ou seja ziquizira da brava e que precisa reverter essa maldita situação que se arrasta em sua família. O problema é que Oscar é um cara tão introspectivo que, ao contrário de lutar, acaba se refugiando na sua solidão e ainda mais em seus livros e em seu universo paralelo.
Mas enganam-se, entretanto, aqueles que pensam ser o livro uma versão latina dos filmes de adolescentes idiotizados nos Colleges. Junot, dá vários cortes na história de Oscar e amplia o foco para as origens da família do jovem, ainda sobre o regime do sanguinário Trujillo.
Junot Diaz contrabalança bem o humor com o drama, especialmente por que por trás da vida dos irmãos Oscar e Lola, há uma mãe latina, autoritária, violenta e compassiva, que aos poucos vai sendo devorada por um câncer e que usa a doença para submeter mais e mais aos filhos – seu único elo com a vida. Aos poucos descobrimos os meandros psicológicos da vida da mãe, Belícia de León, mulher trabalhadora e sempre ausente, e descobrimos mais sobre o pai que nunca apareceu. O pai, que tinha sido torturado pelos algozes de Trujillo enquanto a mãe tinha tivera um caso amoroso justamente com um dos homens próximos de Trujillo, o tal de Gangster, até finalmente ser resgatada por um primo da familia e levada aos Estados Unidos. Descobrimos, então, mesmo que não diretamente, por que Oscar se refugia em seu mundo de ficção científica e sua irmã no universo gótico das letras e da estética do Robert Smith, The Cure - aquele cara esquisitão que nos 80 cantava Boys Don't Cry.
O livro ganhou o Pulitzer de 2008 com uma linguagem que para o nativo americano sem uma noção mínima do espanhol caribenho poderia emperrar a leitura em vários momentos. Poderia, salvo pela habilidade narrativa de Junot. Não deixa de ser surpreendente a subjetividade dessas bancas de jurados - como o Barros apontou bem. E pelo que li pela internet, Junot demorou uns oito anos para terminar o livro. Cheguei ao final do livro com a forte impressão de que o tal do fuku, foi uma sacada genial de Junot Diaz para reinventar uma narrativa romântica. Fuku, uma espécie de revigoramento do mito de Eros e Psique. Ou seja, para ter o amor de Eros, Psique jamais poderia ver seu rosto. Oscar, o protagonista, de certa forma, passando às secas o largo estío da adolescência, sem nunca poder ter visto a cara do amor na sua forma erótica, diga-se de passagem, calejando suas pobres mãos - se é que me faço entender com uso de tão calhorda metáfora - , foi o único que pôde entender de fato que peso os raios do tal de fuku tiveram em sua vida. Enfim, é um livro bem legal, apesar de ser milimetricamente comercial, com todas as questões conceituais que fazem do multi-culturalismo americano babar nas gravatas - e mais importante que tudo, não é uma obra-prima.
Quarta-feira, Abril 08, 2009
Distâncias
Sábado, 4 de abril de 2009.
O nome Pretória invoca algo poderoso, romano, germânico, quase fascista. A cidade é, na verdade, uma grande fazenda, povoada pelos afrikaners, descendentes dos holandeses que vieram tentar a sorte por aqui a partir do século XVII. Os edifícios são germânicos, imponentes. Não posso afirmar exatamente como era no tempo do apartheid mas hoje, 15 anos depois, posso dizer que a separação racial ainda é total. Posso dizer isso, porque vi, com estes olhos que a terra há de comer, que os brancos têm carrão e os negros pegam ônibus, ou melhor, vans, porque os ônibus demoram muito a passar, sobretudo nos fins de semana. E que se você é branca, sendo ou não afrikaner, tem que pegar táxi. Só que não há táxis. Então você fica com uma sensação de vazio, no meio do caminho.
Nunca parei muito para pensar que eu era branca.
Os negros parecem sentir-se incomodados com uma branquela com cara de afrikanner, mas com um sotaque estranho, que pega a van ou o ônibus deles. Os brancos ficam alarmados com essa gringa com cara de afrikanner que parece querer queimar o filme deles e insiste em demorar a comprar carro próprio. Por que você não pegou um táxi para conhecer o centro da cidade?
- Por que não tem táxi por aqui...
- Então por que você quer conhecer downtown se não há táxi? Espere comprar um carro, ou alguém que leve você. Há muitos estupros na cidade para uma mulher andar sozinha. Onde é que já se viu querer pegar ônibus?
Minha aventura de conhecer o centro da cidade sozinha teve a inestimável ajuda do Lonely Planet e de uma moça de nome Johanna, que trabalha como caixa no supermercado Pick-and-Pay, em frente ao hotel guesthouse de cinco estrelas onde me hospedaram (é melhor você pagar um pouco mais e ficar perto do trabalho, afinal é perigoso andar sozinha à noite, você ainda não tem carro...). Tampouco posso deixar de agradecer ao senhor cowboy “flanelinha branco”, o “car taker”, com cinto e chapéu estilo texanos, que cuida dos carrões dos afrikaners que estacionam em frente ao mall. O car taker também foi útil para que eu aprendesse duas coisas: há brancos classe média baixa por aqui, poucos mas há. E definitivamente não há taxis disponíveis.
- Para ir ao Centro a senhora deve pegar um táxi.
- Aonde?
- Não há nenhum à vista, mas pode ser que apareça algum do outro lado da avenida.
- E se não aparecer nenhum?
Alguns segundos de silêncio.
- Então a senhora vai ter que pegar um ônibus.
Com o estímulo do cowboy cartaker branco afrikaner, dirigi-me à parada de ônibus, onde já estava Johanna, uma negra mais ou menos jovem que trabalhava como caixa no supermercado Pick-and-Pay do outro lado da rua, no bairro mais caro de Pretória. Desconfiada e algo distante, ela me disse que era ali mesmo que passava o ônibus. Tentei ser simpática e fazer algumas perguntas, num inglês não muito claro. Após algum tempo de espera ela me disse que talvez fosse melhor pegar uma van para ir ao centro. Era a primeira vez que ela propunha algo, em nosso curto contato. Até então eu havia perguntado e ela só respondera, respeitosa e desconfiadamente. Entrei com ela na van. Vi que me respeitavam porque eu estava com ela e que fizeram a ela algumas perguntas sobre mim. Perguntei que idioma ela falava com o cobrador. Disse que falava um pouco de afrikaner, mas não muito bem, e tswane. Com o Lonely Planet na mão, perguntei como se lia o nome de Pretória em tswane.
- Tisuana.
Não era difícil de pronunciar. Mostrando o meu mapa de Pretória, perguntei onde ela morava. Não me lembro o nome do local, mas era longe, não estava dentro do mapa.
Passamos por vários bairros caros. Em função das obras para a Copa do Mundo em 2010, a cidade está passando por muitas obras. Ao ver que eu tentava seguir o caminho pelo mapa, Johanna se preocupou em me explicar que estávamos fazendo outros caminhos por conta das obras, mas estávamos indo para o lugar certo, uma linha reta à esquerda no mapa, onde ficava downtown. Vi que ela estava preocupada, cuidando de mim e que a situação era estranha de uma branca na van. Expliquei de onde eu era e ela explicou ao motorista e ao cobrador da van de onde eu era. Paguei a passagem dela, como cortesia. Fiquei com a sensação ruim de que estava comprando os serviços de guia da moça por uma miséria de passagem. Não que ela estivesse me fazendo um favor, ou será que estava me fazendo o favor? Ao chegarmos em Church Square ela desceu comigo, disse que iria tomar outra van para o lugar onde morava. Agradeci, disse que a partir de agora me virava sozinha. Uma última pergunta? Onde está a church, da Church Square? Ela pensou, olhou para os lados, não tinha igreja na Church Square. Fiquei achando que de repente ela havia descido da van só para me acompanhar, ou será que ela teria que trocar de condução mesmo?
Munida do meu guia, andei pelas ruas mais antigas, retíssimas, longas do centro de Pretória. A Church Street, que sai da Church Square, é uma das mais extensas do mundo. Os museus da rua Paul Kruger, líder afrikaner da guerra vermelha – quando mataram 12 mil Zulus e o rio ficou vermelho de sangue– estavam fechados. O antigo Parlamento da Africa do Sul afrikaner estava semi-aberto, a moça que era um misto de segurança e guia me deixou entrar. Perguntei algumas coisas que ela não sabia responder. Disse que aquele edifício fora o primeiro Parlamento da Africa do Sul. Mas a Africa do Sul não existia ainda como país naquela época. As fotos dos parlamentares na paredes são de brancos holandeses afrikaners, sem negros. Mas a guia negra diz que aquele foi o primeiro Parlamento de seu país. Não tinha muita consciência histórica. Tampouco há muitos turistas por ali. Após uma rápida passagem pelo primeiro e segundo andares, pedi para sentar na varanda para ler meu guia e ver para onde teria que me dirigir depois.
- Ok, disse ela, do you have something for me?
Eu não havia pago ingresso para entrar no antigo Parlamento, hoje sede da Prefeitura, mas deveria dar algo a ela. O Lonely Planet não falava nada sobre o velho Parlamento mas dizia quanto custava a entrada para outros museus. Bobeira minha querer visitar algo que não estava indicado no guia, nem era tão bonito assim esse velho Parlamento. A moça tinha feito o favor de abrir o Parlamento que hoje é prefeitura só para mim e eu tinha que pagar a ela alguma coisa. Dei 20 rands, uns dois dólares e meio, e fui atrás dos museus indicados no livro. Queria achar algo que não fosse puro afrikanner. Acabei topando com a Igreja anglicana reformada, que estava em outra rua perto da Church Square. O Lonely Planet explicava: a Igreja havia sido incendidada e reconstruída duas vezes, por isso tinha ido parar em outra rua que não era a Church Square. Fiquei com pena de a Johanna não ter sabido me explicar isso. Dois museus estavam fechados, o African View (parece ser um conjunto de centros culturais interessantes) e o Museu da Polícia (sobre a história do apartheid e da repressão policial). Fechados. Em frente à entrada do Museu da Polícia, com uma sede mais ou menos bonita, havia um montão de caixas de papelão, como se algum mendigo estivesse acampando ali em frente. Tentei entrar por uma lateral mas estava claro que estava fechado. Olhei de novo no guia: from Monday to Saturday, 9pm to 17pm. Eram 2pm ainda. Estranho estar fechado! Seria feriado ainda? Continuei andando tentando achar algo que não fosse só afrikanner. Tomei uma Coca-Cola light, depois um sorvete. Não havia almoçado tampouco tinha fome, devia ser o jet lag.
Fui andando. Não estava lá muito animada com a cidade. Era bonita, praticamente de primeiro mundo, sólida, monumental. Não havia branco algum em volta downtown. Na parte das lojas mais populares da Church Square vi um ou dois, estacionando o carro. São lojas boas, para padrão brasileiro, mas não suficientemente boas para os afrikaners, que têm vida de primeiro mundo. O centrão é Madureira, pra eles. Tentei achar um banheiro, entrei numa loja de roupas, não havia banheiro, saí em seguida. O negro da segurança pediu para olhar minha bolsa. Entrei noutra loja, a mesma coisa. Legal acharem que branco também rouba. Procurei o Mc Donald’s porque lá eu sabia que havia banheiro. A globalização tem lá as suas vantagens.
Continuei andando, tentando seguir o mapa. Pensei que se não conseguisse achar nada legal aberto, pelo menos faria exercício, o sapato não estava machucando, tomava sol, que não estava forte demais, e aprenderia a olhar mapas um pouco mais rápido. Sempre tive um péssimo sentido de orientação. Para saber realmente para onde tinha que ir, eu precisava torcer o livro na direção da rua. Tinha uma visão de mim mesma, nesse dia, especialmente patética: uma branquela no meio de negros, sozinha, em ruas de um centro antigo pouco povoado num dia de sábado, fazendo turismo onde não havia turistas, dando voltas sozinha para posicionar um mapa como se fosse um celular atrás de cobertura, de cabeça pra baixo, de um lado, para outro. Não me perdi muito, porém mais de uma vez desci a rua quando deveria ter subido, e demorei para achar a indicação da Oficina de Turismo que, aliás, foi onde me disseram para visitar o Parlamento, desviando-me do sábio Lonely Planet.
Andando e andando, agora o sapato já começava a machucar um pouco e estava com sede e um pouquinho de fome, cheguei ao Transvaal Museum, que na verdade é um museu antropológico, mas para crianças, com um esqueleto enorme de baleia do lado de fora. Fiquei vendo os diferentes tipos de baleia, a metade do crânio da Mrs. Peels, encontrada nos anos 50 e com mais de 3 milhões de anos de existência, e fiz algumas anotações bizarras:
“Um réptil que retira o seu calor diretamente do sol pode viver só com 10% da comida necessária para um mamífero de tamanho similar. Por essa razão, os répteis podem sobreviver em desertos onde os mamíferos morreriam de fome”.
“Cerca de 80% das calorias que ingerimos são empregadas na manutenção da nossa temperatura corporal em um nível constante”.
“As baleias humpacks produzem os mais longos e variados sons do mundo animal. Pesquisas provaram que essas músicas evoluem com o tempo e todas as baleias na área aprendem as novas seqüências conforme elas vão surgindo. Não se sabe o propósito dessas canções. Essas baleias são muito ativas e podem saltar fora d’ água caindo para trás com um grande splash. A população original de centenas de milhares ficou reduzida a somente 6.000 espécies, devido à caça às baleias.”
Descansei um pouco no museu. Lá só havia crianças e adultos branquinhos alourados de olhos claros, com pais inteligentes e bem-informados. Os negros serviam na portaria, na segurança e no restaurante. Encontrei, sobre uma mesinha, um papel brilhoso com o hino da África do Sul impresso em braille. Ao lado, a biografia do francês Braille, com sua triste história de ter ferido seu próprio olho, aos 3 anos, com uma faca quando queria cortar uma fruta ou algo assim. A ferida infectou e ele ficou cego. Ia para a escola com a irmã, mas como não sabia ler nem escrever, tinha que aprender tudo de cor. Ainda assim era o melhor aluno do colégio. Os pais resolveram mandá-lo para o único colégio de cegos da França. Lá, travou contato com um método militar de leitura cujo objetivo era permitir que os soldados lessem no escuro. Braille aperfeiçoou o método, reduziu-o, se não me engano, a 26 letras e passou a dar aula na escola onde estudava. Com 24 anos adquriu tuberculose – comum naqueles tempos, sobretudo numa escola superlotada, com gentes de todo o país-, e morreu muito cedo.
Fiquei pensando na beleza do hino da Africa do Sul e que o texto do hino em Braille ficaria bonito num quadro emoldurado, como lembrança não sei muito bem do quê. Fiquei pensando que talvez Braille fosse um espírito iluminado que tivesse vindo a este mundo somente para inventar o método de leitura. Fez isso e foi embora. Viver mais para quê, se já tinha cumprido sua missão?
Não sei porque fiz anotações sobre baleias. Talvez porque nunca tenha visto uma. Talvez porque espero ver alguma dia uma. Porque são impressionantes. Porque estava cansada de andar e precisava escrever alguma coisa. Porque as baleias não são afrikanners. Então tomei nota sobre as baleias.
Nota. Tenho muitas vezes a certeza de que sou um cabotino. Mas tenho bons amigos dos quais me orgulho. Estes, vez por outra, me escrevem. Ao mesmo tempo que isso me salva, revela minha personalidade falporria e biltre ao publicar sem atorização suas cartas aqui. Esta por exemplo, foi recebida hoje. Vem de Pretória, Africa do Sul.
Terça-feira, Abril 07, 2009
Entre Portinari e Spellbound

Mister Buddwing, interpretado pelo canastrão James Garner, evoca o mesmo tema da perda da memória que Gregory Peck imprimiu, com muito mais força e talento, em Spellbound. Mister Buddwing desperta certa manhã num banco de praça, no meio do Central Park. Acorda, olha para o céu e percebe que não tem idéia quem é. Está bem vestido, portanto não é um mendigo. Não está de ressaca, portanto não é manguaça. Simplesmente, o homem acorda sem memória. Encontra em seu bolso algumas, diríamos, drageas e um número de telefone. Na mão direita um anel com as iniciais “de G.V.” Vaga desorientado pelas ruas de Manhattan em meio a uma trilha sonora povoada de jazz. Perdido, cria um nome Sam Buddwing inspirado nas asas de um avião e na cerveja, agora brasileira (!), Budweiser. Durante todo o filme, buscando sua identidade, Mister Buddwing acaba encontrando vários tipos esquisitos que alimentam um certo voyeurismo de princípio do espectador. Enfim, o filme é um melodrama meio vulgar sobre um cara com amnésia em meio a uma sociedade mediatizada e massificada, que nem valeria a nota, mas veio a calhar exatamente na mesma noite que terminei um livrinho interessante de Godofredo de Oliveira Neto chamado O Menino Oculto.
Um livrinho interessante e experimental na linguagem, na trama e na forma de narrar. De forma leve, mas sem perder o pulso da linguagem, concilía uma estrutura narrativa de planos múltiplos, mas sem uma cronologia muito bem definida - o que por vezes acaba confundindo o leitor. Mas também não é pra menos... O protagonista Aimoré Seixas é um português que ainda jovem foi morar em Santa Catarina. Aimoré é um pintor de quadros. Mais exatamente: um falsificador de quadros perturbado por delírios e ziquiziras mentais. Com uma suposta inteligência acima da média é capaz de só numa olhadela, absorver os detalhes e copiar telas de grandes pintores brasileiros. Meio que por acaso, acaba se envolvendo com negociantes de quadros falsos, que lhe encomendam uma cópia do Menino Morto, de Portinari. Além dos dotes visuais e perceptivos o cara, que usa as guias de Clio e deve ter batido cabeça para Mnemosine, é capaz de recitar trechos inteiros de autores clássicos do cânone brasileiro. Porém, entretanto, todavia, Aimoré tem um problema. Ele perde a memória num acidente e passa a viver o dilema de identidade... a mesma perda de identidade presente em famosos duplos literários como os de Borges em Borges; como Goliádkin no Duplo ou Pávlovitch em O Eterno Marido Dostoievski; como Mr. Blank nas Viagens do Scriptorium de Paul Auster; ou como recentemente o Indigitado do Cony.
A trama toda se passa numa espécie de hospital, que por vezes se assemelha a um hospital psiquiátrico, onde Aimoré é interrogado - diga-se de passagem, sem reconhecer seus interrogadores - e grava suas inúmeras versões em fitas. No depoimento a um tal de professor Albano, percebe-se certa excêntricidades em Aimoré, que lá pelas tantas já não se sabe se são decorrentes de sua amnésia ou de sua malandragem narrativa, pois o protagonista precisa acima de tudo encobrir o fato de que, malandramente falando, copiou, o mesmo quadro de Portinari para duas quadrilhas de negociantes de obras falsas, embolsando as respectivas granas e pinturas importadas do Doutor Dárdano e do Doutor Orestes.
Aimoré passa a ser ameaçado pelas quadrilhas. Uma delas tenta, usando a cópia do Menino Morto, forjar a documentação referente ao quadro num escritório de Advogados em Boston, pondo em dúvida a autenticidade da obra exposta no Museu de São Paulo. Nesse meio tempo, resistindo à perda de memória e lutando para encontrar sua prórpia identidade, Aimoré deixa a obra encomendada inacabada, gerando toda a procura do livro... pelo quadro, pela identidade, pela memória, pela Ana Perena....
Num fluxo desordenado, nessa procura aleatória, com níveis de memória que dariam um nó na cabecinha do pobre William James, há espaços onde Aimoré preenche com sua consciência seletiva aquilo que a tal memória secundária deixou à deriva. Nesse caminho, Aimoré remonta 3 eixos. Primeiro, a estória do cego Baltazar, na baía da Babitonga, em Santa Catarina, que o conheceu durante a juventude apresentando-lhe um mundo mitológico e cheio de lorotas. Segundo, o encontro com um travesti, a quem assassina violentamente. Terceiro e talvez mais importante na retomada da memória, a relação digamos erótico-horizontal com Ana Perena, cujo desaparecimento o transtorna.
Certamente há uma linha que separa a loucura da sanidade nos depoimentos de Aimoré. Mas ao final do livro percebe-se que, de perto, o cara não é tão anormal e tampouco tão pacada assim. Ele, mesmo que por vezes se perca em suas versões, não apenas as cria de maneira intencional, como nos faz viajar nelas. E nos faz viajar de maneira que tão céticos e perdidos quanto o Albano, que grava os depoimentos, nos quedamos perdidos como leitores, sem saber que desvio tomamos. Pós-moderno? Meio pós-moderno, sim, se essa é a pergunta. Godofredo Neto usa e abusa tanto dos meandros do fluxo de consciência na forma de narrar quanto da cronologia aleatória, da linguagem coloquial e sem meneios, e do sexo (componente mercadológico fundamental para reconquistar a classe média leitora iletrada), pois é disso que o povo gosta. Foi sim uma dupla jogada crítica de Godofredo Neto, pois nas palavras de Aimoré, que se recusa a definir seu trabalho como cópia - mas sim uma recriação -, Godofredo, criando um protagonista, imerso em seu individualismo, assumindo uma personalidade esquizofrênica, rejeitando a definição de falsário ao introduzir pequenas modificações em suas telas, cria paradigmas para a própria auto-afirmação do artista (pintor,escultor ou escritor) num mundo onde Harold Bloom e o pós-modernismo decretaram a falência da originalidade.
Ou seja, John Ballantine tem tudo que Mister Buddwing tem, mas o papel de Aimoré no papel é melhor que o de ambos na telona. Fazer o quê?
Quarta-feira, Abril 01, 2009
Stella
Peace, I thinke that some giue eare;
Come no more, least I get anger.
Blisse, I will my blisse forbeare;
Fearing, sweete, you to endanger;
But my soule shall harbour there.
Philip Sidney
Quarta-feira, Março 18, 2009
Enquanto isso, no Oriente Médio...

A edição da Wired deste mês traz uma reportagem fantática e chocante sobre as fotos dos arquivos do The National Museum of Health and Medicine, em Washington DC, relacionadas à II Guerra Mundial. Nesta ai de cima, o cidadão que degusta seu Captain Black pulveriza uma casa na Itália com DDT e querosene em fevereiro de 1945 - esta foi a imagem mais levinha que consegui, já que há outras muito melhores, ou piores, dependendo do ponto de vista.
http://www.wired.com/science/discoveries/multimedia/2009/03/gallery_WWII_photos
Música do dia. Inferno. Nação Zumbi. Disco: Fome de Tudo.
Quarta-feira, Fevereiro 25, 2009
Allegare sine probare et non allegare paria sunt

Inúmeros filmes existem por existir. Rashomon de Akira Kurosawa, não, transcende. Nele há a dimensão de uma grande obra de arte que engloba vários formatos narrativos. O melhor de tudo está contido nele. Cinema, Literatura e História.
A dimensão literária está no argumento já que o filme é baseado em dois contos de Ryunosuke Akutagawa: Rashomon e In a Grove. A estrutura narrativa, absolutamente fantástica e original, na medida que várias testemunhas de um assassinato depõem numa espécie de juízo sobre o crime, sugerindo impossibilidade de obter a verdade sobre o evento da morte do samurai expondo os conflitantes pontos de vista do assassino, da viúva do samurai, e do lenhador que encontrou o corpo. A rara e precisa economia de cenários e a interpretação, ora no local do crime, ora nesta espécie de tribunal, onde as testemunhas falam diretamente para a camera, nos remete a uma peça de teatro transplantada para a tela grande.
A dimensão histórica é um caso a parte, e talvez mais clara em Os Sete Samurais onde o tm alegórico é menos presente que aqui, mas o fato é que o desenvolvimento do Capitalismo na Europa foi totalmente diferente ao do Japão. Enquanto na Europa a construção dos Estados Nacionais fortalece os laços comerciais e capitalistas e o sistema feudal se enfraquece. No Japão a coisa toda foi muito diferente. Em 1600 e alguma coisa, o Clã dos Tokugawas toma o poder feudal no Japão e reinstaura o shogunato concentrado o poder local nas mãos dos Daimiôs. Quando os Shoguns tomam o poder, não só não destituem os Damiôs tradicionais, como fortalecem seus laços com o poder imperial e distribuem terras. O Shogum vive em Edo e o Imperador em Kioto. E pode parecer contaditório para um ocidental, bicho homi e cabra macho pensar que a mulher mais velha de cada Daimiô, reside exatamente em Kioto, no castelo do Imperador, onde periodicamente os Daimiôs, vão ao castelo visitar suas mulheres, pagar os impostos e honrar com os laços feudais, as tais porras de laços sinalagmáticos, aos quais o Hilário Franco Junior sempre se referia e eu nunca entendera.
O Clã dos Tokugawas perdura até a Revolução Meiji – mas isso é outra história. O fato é que em Rashomon, o contexto de honra do shogum, fundamentado historicamente, é posto em jogo quando bandoleiro Tajomaru intercepta o samurai Kanazawa-no-Takehiro que conduzia sua esposa, montada num cavalo branco. A história se desvela em flashbacks em três dimensões a partir do momento em que Tajomaru convence ao samurai que deixe sua rota e vá com ele verificar a localização do esconderijo de espadas ancenstrais. No caminho Tajomaru imobiliza e amarra Kanazawa-no-Takehiro. Tajomaru, bandido safado, pilantra e ignóbil planejava estuprar a patroa do samurai. A princípio, ela tenta se defender, mas quando capturada, submete-se ao malandro na frente do marido. Esses são os elementos genéricos. Agora as dimensões em flashbacks de como tudo aconteceu:
Primeiro, sob uma chuva torrencial de verão, dois homens conversam olhando desolados para a destruição das pagodas a sua volta. Lamentam um acontecimento terrível ao qual ambos estavam ligados. O lenhador conta ao sacerdote a estória sobre como encontrou , três dias atrás, o corpo de um samurai e o chapéu de sua esposa abandonado no caminho. Enquanto o sacerdote conta-lhe que na estrada de Sekiama para Yamashina, vê uma mulher com um chapéu que corresponde a descrição feita pelo lenhador.
A segunda dimesão se dá pela ação dos fatos em si – se é que eles existiram num estado puro.... O filme descreve um estupro da mulher e o assassinato e Kanazawa-no-Takehiro pelo bandoleiro Tajomaru. Através dos relatos contraditórios e divergentes das quatro testemunhas, incluindo o próprio morto através de um médium, a história vai tomando forma. O problema é que cada um tem uma versão para o assassinato.
Finalmente, a terceira dimensão da narrativa está na sacada de Kurosawa em botar um flashback dentro de outro flashback, partindo do princípio que algumas das testemunhas mentem deliberadamente.
As versões sobre o crime.
Após o suposto estupro, coberta de vergonha, Masago, a esposa do samurai, implora ao bandido para duelar até a morte com seu esposo, para que a salve da vergonha. O bandido safado, pilantra e ignóbil, com grandeza de ânimo libertou o samurai para que então ambos pudessem duelar. No depoimento de Tajumaru eles duelam hábil e ferozmente, mas a mulher fugiu. No final da história, Tajumaru é perguntado sobre a adaga possuida pela esposa do samurai. Ele diz que, durante o combate e a fuga esqueceu completamente e que fora uma tolice deixar para trás tão precioso objeto. Mas isso é a versão de Tajumaru.
Masago, alega que depois que depois de estuprada implora a seu marido para que a perdoasse. Ela então o libertou e implorou para que ele a matasse, de modo que ela pudesse ficar em paz. Este simplesmente a olhou com frieza. A expressão penetrou em sua alma e ela implorou mais uma vez para que a matasse, sem prejuízo, e então ela desmaia com a adaga na mão. Ao depertar, encontrou seu marido morto com a adaga cravada no peito. . Mas isso é a versão de Masago.
Kanazawa-no-Takehiro, já morto, então incorpora, no jargão das ciências ocultas, num cavalo. Na cena de alta macumbaria, o samurai alega que após ter sido capturado por Tajumaru, assistir ao estupro e ao pedido de Masago para fugir com Tajumaru, presenciou o pedido de Masago para que Tajumaru matasse o matasse. Tajumaru podia ser bandido safado, pilantra e ignóbil, mas tinha hombridade. Chocado pelo pedido, agarrou-a, deu-a ao samurai para que a julgasse. A mulher fuge. Então Tajumaru liberta o samurai. O samurai então se suicida com sua própria adaga. Mas essa é a versão do cavalo que incorporou o caboclo Kanazawa-no-Takehiro.
Lá pelas tantas, o caboclo Kanazawa-no-Takehiro menciona que alguém removeu a adaga de seu peito. Ao ouvir isso o lenhador fica assustado e alega que o morto estava mentindo, porque ele foi morto por uma espada. Eventualmente, o lenhador volta a depor e afirma que ele mentiu por não queria se envolver, quando de fato, ao vencer o duelo, Tajumaru matou o samurai, uma vez que este tentava fugir para os arbustos. Ao avistar a morte de seu marido, a mulher grita aterrorizada enquento Tajumaru pega a a espada do samurai e saiu da cena mancando. Ou seja, a adaga, a arma do crime, estava lá. E alguém a levou.
Volta-se para a cena final, onde estão o lenhador, o plebeu e o monge. Ouve-se o choro de uma criança. O plebeu então, pega o quimono o rubi que serve de proteção para o bebê na cesta. O lenhador repreende-o, e o plebeu pergunta sobre a adaga da mulher. Este guarda silêncio. O plebeu, sacananmente faz pouco caso da bondade do lenhador e alega que todos os homens são egoístas, agem em proveito próprio e que a mentira e o falso testemunho faz parte da razão humana. Ao pegar o bebê nos braços e prontificar-se a levá-lo para junto dos seus outros seis, o lenhador adquire o beneplácito do monge, mas como diziam os latinos, a moral da história do alegar e não provar é o mesmo que não alegar, fica pairando no ar... pois no fim das contas, quem matou a porra do mané do maldito samurai?!
Terça-feira, Fevereiro 24, 2009
East of Eden

O português chamou East of Eden, se não me engano de Vidas amargas. O filme de Elia Kazan, a quem já dediquei amargas linhas, é fenomenal. Um novelão da mais alta qualidade. Também não é para menos. O filme é baseado no livro de Steinbeck, A Leste do Eden. Um filme de espírito bem protestante e uma ética do capitalismo manca de uma perna.
Ambientado na região de Monterey, Califórnia, o filme mostra as desavenças de dois irmãos pelo afeto e a atenção de um pai sentimental e hard worker. Os Trask são uma família pecliar composta pelo pai - Adam Trask (Raymond Massey) - e os dois filhos, Aaron (Richard Davalos) e Cal – Caleb - ( James Dean). Adam é um homem religioso e profundamente justo com seus empregados e com os filhos. Aaron é o filho predileto que a exemplo do pai pauta sua vida na devoção fraternal e no senso de resposabilidade herdado do pai.
Os negócios de Adam Trask não vão bem. Após a perda de toda uma colheita numa fracassada tentativa de escoamento, o patriarca perde milhares de dólares. Para ganhar o amor de seu pai e ajudar a fazenda que ameaçada de falir, Cal faz um empréstimo. Cal, um tipo sagaz e meio selvagem, sabe que se os Estados Unidos entrassem na I Guerra Mundial, o preço do feijão subiria. Então, conhecedor de um segredo, que nem pai sem irmão sabiam, Cal procura a mãe, Kate, em seu trabalho. Perdão pelo trocadilho, mas Kate é quenga. Quenga velha. Dona do pedaço, a meretriz e tem o dinheiro que Cal precisa para investir nos mercado de futuros. Apesar de relutante Kate dá, a grana a Cal, pois se sente culpada de ter deixado o marido e os filhos para se tornar empresária.
No meio tempo em que os negócios de Cal vão bem, Abra, namorada de Aaron, começa a se sentir atraída por Cal e o ajuda a preparar uma festa de aniversário para o patriarca. O presente de aniversário é exatamente o pacote de dinheiro que Cal ganhou especulando na bolsa.
E agora uma das cenas entre muitas caras, mais marcantes do cinema. Após Cal explicar a origem do dinheiro, o pai se recusa a recebê-lo justificando que aquele dinheiro havia sido ganho em cima da desgraça de trabalhadores e produtores como ele. Cal não entende e começa a chorar acreditando que esta recusa é mais uma das humilhações que o pai lhe impõe por seu temperamento irascível. James Dean simplesmente mata a pau nessa interpretação. Uma daquelas cenas onde se tem a certeza que aquele cidadão é um grande ator.
O que se segue, é novelão. Cal vai chorar no quintal. Abra o segue e o consola. Quando Aaron chega e a proíbe de falar com Cal, este, tomado de ira, pede que Aaron o siga. Ambos vão ao bordel, onde Cal apresenta a Aaron sua mãe. O choque leva Aaron a beber e se alistar no exército. O pai, vendo a ruína iminente do filho, tem um ataque cardíaco. De volta a casa, Cal visita o pai no seu quarto. Cal, sem obter reação do pai, pensa que é mais uma vez recusado, mas logo em seguida, com a intervenção de Abra, volta ao quarto e consegue ouvir as palavras do pai pedindo para que o filho dispensasse a enfermeira intransigente e cuidasse dele. Um novelão bíblico sim, mas um filme emocionante.
Musica do dia: Lucas - Marco Antonio Araujo(Melhor guitarrista brasileiro de todos os tempos)
Segunda-feira, Fevereiro 23, 2009
Os Vencedores
Slumdog Millionaire
Christian Colson
Best Foreign Language Film
Departures - Japan
Yojiro Takita
Best Documentary Feature
Man on Wire
Simon Chinn
Directing
Best Director
Danny Boyle
Slumdog Millionaire
Acting
Best Actor in a Leading Role
Sean Penn
Milk
Best Actress in a Leading Role
Kate Winslet
The Reader
Best Actor in a Supporting Role
Heath Ledger
The Dark Knight
Best Actress in a Supporting Role
Penélope Cruz
Vicky Cristina Barcelona
Writing
Best Writing - Original Screenplay
Dustin Lance Black
Milk
Best Writing - Adapted Screenplay
Simon Beaufoy
Slumdog Millionaire
Nota 1: Perdi várias oportunidade de assitir Slumdog Millionaire. Pensei que fosse Bollywood... pelo que vi ontem, minha intuição pode não estar enganada.
Nota 2: Man on Wire. Melhor, sem dúvida.
Nota 3: Sean Penn. Melhor ator. Para mim sempre o melhor, desde Mystic River. Mas neste ano quem deveria ter levado era Richard Jenkins no papel de Walter Vale em The Visitor.
Nota 4:
Zebra, Slumdog Millionaire. Indicado para 10 estatuas, levou 8.
Decepção, The Curious Case of Benjamin Button. Indicado para 13, levou 3.
Música do dia:
Un español habla de su tierra
Las playas, parameras
al rubio sol durmiendo,
los oteros, las vegas
en paz, a solas, lejos;
los castillos, ermitas,
cortijos y conventos,
la vida con la historia,
tan dulces al recuerdo.
Ellos, los vencedores
caínes sempiternos,
de todo me arrancaron.
Me dejan el destierro.
Una mano divina
tu tierra alzó en mi cuerpo
y allí la voz dispuso
que hablase tu silencio.
Contigo solo estaba,
en ti sola creyendo;
pensar tu nombre ahora
envenena mis sueños.
Amargos son los días
de la vida, viviendo,
sólo una larga espera
a fuerza de recuerdos.
Un día, tú ya libre
de la mentira de ellos,
me buscarás. Entonces
¿qué ha de decir un muerto?
Luis Cernuda
Versión de Paco Ibáñez
Quinta-feira, Fevereiro 19, 2009
Quarta-feira, Fevereiro 18, 2009
La Fleur du Mal
François Vasseur retorna de anos de estudos em Chicago para sua casa em Bourdaux, e percebe que desde sua partida pouca coisa mudou. Seu pai continua administrando sua farmácia e sua madrasta, Anne Charpin-Vasseur, decide concorrer às eleições municipais.
Vista de fora, uma família repeitável. Anne Charpin-Vasseuré viúva com uma filha e uma tia. Gérard Vasseur é igualmente viúvo, com um filho pródigo que estuda em Chigago. Ambos viúvos e desepedidos. Michèle e François são jovens e com coisas mal resolvidas no passado, portanto logo quando chega, François já reiniciam a relação adormecida com sua meia irmã, Michèle, sob a proteção ou negligência da velha tia de Michèle, Line. Incesto? Na cabeça de Nelson Rodrigues, Michèle e François estariam num joguinho de amarelinha.
Enfim, vista de fora, uma família repeitável. Mas, como sempre, não é bem assim, não. Por trás desta fotografia de uma moderna família burguesa há esqueletos bem guardados no armário que no decorrer da narrativa a velha tia de Michèle, vai desvendando em fragmentos de flashbacks que remontam a Vichy e ao assassinato do pai.
Para arruinar a trajetória política de Anne, alguém circula um panfleto indicando um escândalo familiar dos bravos. Tia Line estará arrependida de ter matado seu pai, um simpatizante Nazi, que fora responsável pela morte de seu único irmão? Havia sido prudente que Anne e Gérard tivessem se casado tão rápido após a morte de ambos consortes?
Estas são apenas duas perguntas chaves com que Chabrol abre La Fleur du Mal, seu filme de número, sei lá... 230... 395... Fato é que aos qause oitenta anos, o homem anda afiado, fazendo filmes tão bons quanto aqueles da New Wave. Nomeadamente, Le Beau Serge, Les Cousin, La Femme infidèle, La Ceremonie, La Rupture, Les Biches.
Todos os elementos de um filme policial estão ai: a chantagem, uma carta, um autor desconhecido, uma mulher política e ambiciosa, uma velha guardiã de segredos, dois jovens cheios de tesão... mas fica faltando algo no final. O climax da narrativa é meio fraco, uma espécie de vício cartesiano impede que a cena da morte acidental do padrasto flua. Gérard Vasseur, após a vitória política da consorte, chega a casa só e embiritado. Cabeça inchada, libido solta, decide molestar a enteada. Esta saca de um abajour e dá-lhe uma p... na cabeça do manguaça. Este cai no chão morto. Michèle, deseperada, corre para pedir ajuda a tia. Esta, por sua vez, ajuda à sobrinha a ocultar o cadáver no quarto de cima – a cena das duas arrastando o cadáver escada acima, não é original, não é sequer verossimil, mas guarda algo de cômico, sem dúvida. Daí para os dez minutos finais, o filme se perde num non-sense absoluto. O filho chega e recebe a morte do pai como se nada tivesse acontecido, a velha decide assumir a cupla do assassinato, quando a polícia chegar, enquanto os convivas, festejando a vitória de Anne chegam aos gritos de alegria.
Música do dia. Cavalo Ferro. Ednardo. Disco: Meu Corpo Minha Embalagem, Todo Gasto na Viagem
Sexta-feira, Fevereiro 13, 2009
Mirror
O filme não tem um roteiro aparente. Aliás, não recomendo este filme para os habituados ao cinema padrão calcado nas poucas noções de Syd Field e muito voluntarismo. Mirror não esta pautado numa história linear, na ação,nos personagens de contorno digerível e de final redondo, conclusivo e satisfatório. Ou seja, um filme para quem aprecia poesia. Um filme para quem aprecia a poesia sem palavras. Na razão inversa da poesia contruida de images, nesse filme, a poesia surge das palavras.
Todo ele é recortado por reminiscências, imagens oníricas e a costura recorrente dos poemas de seu pai, o poeta Arseni Tarkovski. Em Mirror o narrador vê sua mulher como a continuação de sua mãe, porque os erros se repetem. A repetição dos erros pessoais é uma lei, e a experiência não se transmite. Sabe-se que nele interagem três tempos. Um tempo pretérito pré-guerra, provavelmente ao redor dos anos 30, um tempo que se passa na Guerra, e um tempo do pós-guerra, já nos anos 1960. Além disso o filme se divide em quinze segmentos.
Da colcha de retalhos, fiz um exercício execrável. Tentei alinhavar as 15 sequências do filme. Eu sei que ao racionalizá-lo cometo algo bárbaro...
i.
O filme começa com uma sequência de um jovem num treinamento com uma fonoaudióloga, já numa insinuação de que a falta de palavras contidas na frase "I can speak," revela uma quebra, ausência ou a prescindívelnecessidade de uma narrativa linear, já que ao longo da história tudo se revela como um sonho, uma espécie de memória fragmentada do passado. (cenas em preto e branco)
Música: J. S. Bach, Das Orgelbüchlein No. 16, "Das alte Jahr vergangen ist."
ii.
Pré-guerra nos anos 30 (cenas coloridas)
Maria está sentada numa cerca de madeira. Olha o horizonte. Está de costas para a câmera. Fuma. Um homem se aproxima. O narrador anuncia em off que alí naquela casa costumava a passar as férias de verão com a família. O homem que se aproxima é um médico. Pede um cigarro, senta na cerca junto a Maria e emenda uma conversa um tanto aleatória. A cerca se rompe e os dois caem no chão. O homem começa a rir do absurdo daquela situação o que leva Maria a desconfiar de sua sanidade. Ela cita o Ward 6, uma estória de Checkov, onde um médico, Ragin, investiga as causas da loucura na própria prática violenta de tratar a loucura. Na verdade, ela pergunta indiretamente se o médico é são. Ele rebate dizendo que Checkov inventou aquilo tudo, implicando que o sofrimento de Ragin e a ambição de Khobotov, em provar que o primeiro sofria de distúrbios mentais era pura ficcção. O médico então a deixa e Maria o vê partir.
iii. pre-guerra
Noite. Interior: uma criança na cama. Maria lava seu cabelo com a ajuda de seu marido. Ela se encaminha para o espelho e se vê como uma ansiã.
iv.
O telephone toca. A camera focaliza um apartamento na cidade. Alexei conversa com sua mãe. Liza, com quem ela trabalhou na casa editorial acaba de morrer.
v.
pre-guerra
Maria tem pressa. Sob a chuva, caminha para a editorta para conferir as provas de um erro que havia cometido. Em sua mesa ela conversa com sua colega Liza, a quem confidencia que suspeita de ter cometido um erro e se riem do episódio. Nesse momento, chega um homem, supostamente o supervisor. Maria se levanta e vai tomar um banho. Antes de partir, Liza diz a Maria que esta se parece com Maria Timofeyeva, irmã do capitão Lebyadkin, dos Demônios de Dostoievski.
Continua...
O Homem do Ano

Talvez pouca gente tenha percebido que Érica (viúva de Suel), depois de ir viver com Máiquel (assassino de Suel), ao abandoná-lo pela primeira vez deixa na mesa da sala, sobre o bilhete de despedida, uma capa de dvd do filme Wild at Heart - capa esta que é filmada de cabeça para baixo. Ninguém precisa saber que Nicolas Cage sempre teve uma fixação mórbida por Elvis. Disso todo mundo sabe. Chegou a casar com a filha do homem. Mas isso é o que menos importa. No filme, Sailor e Lula, fogem da perseguição da mãe dela e iniciam uma viagem pelo sul dos Estados Unidos. No bilhete, Érica deixa claro que Cledir, esposa de Máiquel, tem de sair da vida deles. Como? Se você já leu Rubão Fonseca, suspeitará como Cledir desaparece da vida dos dois.
O Homem do Ano é um filme bom, sem intelectualismos. Funciona na tela. Talvez melhor que o livro o Matador, de Patricia Melo. Talvez por ter roteiro chancelado pelo velho Rubem Fonseca. Talvez. O filme tenta mostrar de maneira didática a realidade das milícias, da privatização da segurança pública, dos currais eleitorais, da irracionalidade da violência, e da ascenção de um Zé Mané burro, psicótico e semi-analfabeto à categoria de anti-herói. Até aí, tudo bem, um filme convincente. O problema é que com esses elementos, podia ter sido um filme perturbador, mas não foi, pois a narrativa original do livro é muito linear - isso eu já tinha percebido em outros dois livros de Patricia Melo, Elogio da Mentira e Inferno.
Entretanto, o roteiro é bem amarrado e a atuação de Murilo Benício e Claudia Abreu exemplares. Máiquel, personagem interpretado por Benício, é um camarada atormentado com sua Moira. Tenta mudar seu destino o tempo todo, mas após ter tido o cabelo descolorado, cada vez se afunda mais e mais na sua sina de matador. Aliás, Murilo Benício, incorporou perfeitamente o personagem. Abstêmio com Síndrome de Tourette, anti-evangélico, cabelo oxigenado, moralista e bebedor de coca-cola quente - Rubão só bebe Coca quente - , com um porco de estimação no sobrado de Caxias e desovando seus corpos em Campos Elísios - pelo menos pelas cenas externas da passarela da estação de trem, e pelo lugar da desova ali perto da parte de trás da Reduc em Jardim Primavera. Enfim, Máiquel é tipo complexo, contraditório e irracional. Porém, me passou a impressão de um criminoso dos anos 70.
Pois no fundo, acho que falar tanto de violência, arrancá-la das páginas do O Dia e do Extra e estilizá-la na tela, banalizou tudo. Tudo mesmo. Quando Fonseca escrevia sobre isso nos anos 70, era tudo ainda meio pitoresco. A polícia era pública, a segurança privada, mas com outro nome: milícia tinha nome de Scuderie Le Cocq, Mariel Moryscotte e Mão Branca. E Hannah Arendt não estava brincando quando em "Eichmann em Jerusalém" cunhou o conceito de Banalidade do Mal. Pois veja bem, dê uma arma e poder a um bunda mole, coloque-o agindo individualmente dentro das regras corrompidas e imorais, mas impedindo-o que racionalize sobre seus atos, e você terá o superlativo de um Máiquel, ou seja, um Eichmann. Ou melhor, o Minimo Múltiplo Comum do Eichmann, o Máiquel. A morte hoje já não é mais como aquela da Patrulha da Cidade, da Rádio Tupi, apesar de mórbida, era divertida. Hoje não. Banalizou tudo. Tudo mesmo. Perdeu a graça.
Mas voltando ao filme, a 'sacada' rapidíssima do filme do David Lynch, sobre o bilhete de despedida, naquele sobrado da Baixada, ficaria totalmente sem sentido - já que Máiquel não fala inglês e mal lê português - se o Herique Fonseca não tivesse dado à cena a velocidade que merece tonando o detalhe imperceptível quase imperceptível. Talvez pouca gente tenha percebido. Se não percebeu o detalhe, deixa estar. Melhor assim. Pois os diretor contornou bem o fato de que uma das melhores coisas na contrução psicológica dos personagens criados por seu pai, Rubem Fonseca, é a imersão do personagem na sua circunstância social. Imagina se alguém mais percebe esse detalhe...um cara suburbano, da Baixada, ou uma namorada evangélica e viciada em Almanaque Abril assitindo filme de David Lynch... puf...
http://ilusaodasemelhanca.blogspot.com/2006/04/melhores-frases-do-rubem-fonseca.html
Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009
Cabaret Mineiro
dança e redança na sala mestiça.
Cem olhos morenos estão despindo
seu corpo gordo picado de mosquito.
Tem um sinal de bala na coxa direita,
o riso postiço de um dente de ouro,
mas é linda, linda, gorda e satisfeita.
Como rebola as nádegas amarelas!
Cem olhos brasileiros estão seguindo
o balanço doce e mole de suas tetas...
De todos os poemas inesquecíveis do Drummond, eu poderia citar vários: Poema das sete faces (Vai, Carlos - seu imprestável e biriteiro! Ser gauche na vida), Congresso Internacional do Medo, Atriz (sosbre a morte da Cacilda Becker), Procura da Poesia...
Mas, Cabaret Mineiro, é simples, mundano, poético e sem firulas. So o Drummond poderia, na equação perfeita que soma William Burroughs, Herberto Helder e T. S. Eliot - dar-nos ( como diz o Alfredo Bosi ) o coeficiente de solidão.
Segunda-feira, Fevereiro 02, 2009
Je t'aime John Wayne
O ator Kris Marshall tenta ser Jean Paul Belmondo – o ator de Breathless. No filme de Godard Belmondo é Michel, um cara fora da lei que atira em dois policiais e tenta ser um espécie de Humphrey Bogart, imitando seus trejeitos e modos de falar. Fugitivo e sem dinheiro, vagando pelas ruas de Paris, pede ajuda a Patricia, sua namorada americana, estudante de jornalismo e vendedora do jornal New York Herald Tribune. Enquanto Michel pensa o tempo todo em fugir para a Itália, Patricia tem sonhos românticos e por isso o denuncia à polícia com medo que ele se fosse deixando-a grávida.
No curta de Toby MacDonald, Kris Marshall se define como Belmondo vivendo em Paris. Se vê como Belmondo desde a primeira cena, quando sonha com um beijo e é despertado pelo relógio. Na frente do espelho, escovando os dentes e fumando, se auto-define como um desviado, hipócrita, sujo, imoral e irracional. Por fim, quando se vê à frente do espelho, finalmente, como John Wayne, o telefone toca. A mensagem é uma frase de John Wayne: “Monte nessa merda de cavalo ou eu o expulsarei da cidade.” Após o bip a mensagem. É sua mãe deixando uma embaraçosa mensagem de mãe na secretária eletrônica: “Meu filhinho, tire essa mensagem da secretária. Isso é um pouco estranho.” (cena impagável). Tal como o dentista Nuno de Auto dos Danados, que na Revolução dos Cravos, prestes a fugir com a família pela fronteira da Espanha tem alucinações com o ator Edward G. Robinson. O protagonista pensa ser o ator francês Belmondo, incorporando ora sua cafajestice - de maneira engraçadíssima – ora a dureza do John Wayne.
Outra cena impagável quando ele, esperando a irmã mais nova para levá-la ao cinema, encontra-a com namorado. Quando indagado pela irmã se a mãe não lhe dissera, ele desconversa mantendo a face de durão em direção ao menino. Na saída do cinema vê um casal. O britânico acha o filme detestável. Belmondo o puxa. Olha-o de cima abaixo. Dá-lhe um soco. Vira-se para a moça e diz que ela teria de vir com ele, pois ele tem um Alfa-Romeo! A narrativa escrita não comporta o peso das imagens do filme ou a expressão do ator Marshall, com sua cara de quelônio cômicamente fumando todo o filme... enfim, um bom curta. Cowboy por cowboy sou mais o Gary Cooper em High Noon, muito mais o Clint Eastwood em Man with no Name.
Todos os Nomes

Certa noite, por puro acaso, Sr. José decide entrar na nave principal – ele adquire a chave da nave principal pervertendo as regras da Conservatória. Encontra a ficha de uma mulher desconhecida e decide investigar algo mais de sua vida. Descobre que a ficha que cai-lhe nas mãos é de uma mulher de trinta e seis anos. Nos averbamentos somente constam um casamento e um divórcio. Os motivos para investigar a vida daquela mulher específica não são óbvios, mas em se tratando de um tipo de personalidade tão peculiar, não nos atrevemos a perguntar, ainda que a pergunta permaneça incomodando o leitor atento o tempo todo. Munido de dados básicos, José passa a investigar por conta própria a vida da tal mulher, abandonando as fichas das celebridades. Tal como um detetive, a investigação de José transgride as regras básicas do respeito ao anonimato da mulher, rompendo as rígidas normas da Conservatória.
O senhor José é um homem de 52 anos. Suas semelhanças com o Raimundo Silva, do História do Cerco de Lisboa, não param por ai. Se por um lado o revisor dos textos, Raimundo, decide, a partir de um NÃO adicionado no documento, mudar toda a história de Portugal, o nosso José, a seu modo, passa também a mostrar o absurdo da burocracia que nos devora lentamente, imperceptívelmente, a partir do verbete sobre a vida de uma mulher desconhecida cujo nome consta nos registros da Conservatória. Um simples verbete.
A princípio percebe-se que no trabalho, assim como na vida, José é um tipo introspectivo e solitário, com algo de crédulo. Sua submissão não é apenas à grande estrutura burocrática imposta pela Conservatória, mas a sua própria ética de trabalho: interna e vocacional. Com tal propensão, Sr. José chega a ponto de nunca ficar doente, nunca faltar e principalmente, nunca desobedecer as ordens de superiores. Ou seja, um homem que tem tudo para chegar longe, ou nunca sair do lugar, pois essa assiduidade não se traduz em adulação. Não foi o outro Chico que disse, vence na vida quem diz sim?
Tal como dito, o Sr. José, amanuense e auxiliar de escrita, parte à procura de uma mulher desconhecida de maneira peculiar. Homem das antigas, prefere começar pelas beiras, por baixo, desde o local de nascimento, passando pela escola, passando por uma madrinha ansiã. Seu roteiro de busca começa pelo endereço que consta na certidão de nascimento da mulher. Sem sucesso, vai ao endereço contido em sua ficha de dados, indaga os vizinhos sobre o possível paradeiro da antiga moradora. Chega até a madrinha da mulher desconhecida, chamada apenas "a senhora do rés-do-chão", que lhe sugere o óbvio: procurar na lista telefônica. José rejeita tal opinião e decide procurar na escola onde ela estudara.
Como dito, a narrativa percorre quatro grandes espaços: a Conservatória, a cidade, a escola e o cemitério. Ou labirintos. No último, José constata que o objeto que o levou à tamanha transformação não existe. A mulher desconhecida está morta. Suicidara-se poucos dias antes. A procura por ela, então, tornaria-se inútil, caso José fosse um conformista e Saramago um escritor qualquer. Ao contrário, a insistência na procura torna-se insana, pois decide continuar procurando elementos de sua vida e de sua morte, esquecendo-se ou ignorando volutariamente a rigorosa obediência às normas da Conservatória. Deixa a barba por fazer, descuida-se da limpeza do seu quarto e cogita até uma possível paixão imaginária e irreal pela mulher que sabe-se agora ser professora de matemática, funcionária da escola onde José fora procurá-la como aluna e suicida.
O tom alegórico de boa parte destes espaços percorridos por José está em sua estrutura labiríntica, no tom pesado de uma cidade onde sempre chove, no jogo de desvelamento e ocultamento, no absurdo do cotidiano, no uso de imagens do inconsciente que perpassam pesadelos e monstros mitológicos jogando com a temerária idéia não da morte em si, mas com a idéia cruel que a morte traz a iminência do desaparecimento, do esquecimento. Alegorias como as de que uma vez dentro do recinto da Conservatoria Geral, apenas é possível retornar à sua saída ou ao presente com o fio de Ariadne amarrado ao pé. A idéia do labirinto transcorre em todo o romance. A Conservatória é um labirinto de arquivos e gavetas onde, para penetrar nos seus corredores, é necessário desenrolar um fio de Ariadne. Outro labirinto maior é o cemitério onde o Sr. José vai procurar, quase no final da estória, o túmulo da mulher desconhecida. É absurdo cogitar isso, mas Saramago nos induz a pensar que enquanto o cemitério é o labirinto dos mortos, a Conservatória é o labirinto dos vivos e dos mortos. Nos induz de maneira um tanto estranha, mas eficiente, do ponto de vista narrativo. No cemitério, o maior dos labirintos, o Sr. José caminha por longas horas em sua solitária busca. Cansa-se e adormece. Tem um sonho. "sonho estranho, enigmático." Desperta "angustiado, alagado de suor." Sonha com um pastor de ovelhas que zela pelos mortos, uma espécie de Omulu, que eventualmente muda os números das tumbas.
Chega-se ao fim do livro sem saber específicamete os motivos que levaram José a investigar a vida daquela mulher. Mas, a essa altura pouco importa, pois já estamos perdidos no meio do labirinto contruído por Saramago. Após a experiência surreal, de volta à Conservatória Geral tenta retomar suas atividades. Ali, constata a cumplicidade do Conservador Geral às suas aventuras. Este lhe devolve a chave que permite o livre acesso ao grande prédio. O chefe reconhecia o absurdo onde estavam ambos imersos e talvez por isso, recentemente, sem explicações maiores, tal como no Livro de Areia de Borges, o Conservador ordenou aos funcionários a junção dos arquivos dos mortos e dos vivos, sem qualquer distinção. O chefe sabia de tudo, das visitas à casa da “senhora do rés-do-chão", à casa dos pais da moça, das investigações.... Nesse ponto o chefe da Conservatória e o pastor agem de maneira semelhante... José então pega a sua lanterna, ata o fio de Ariadne ao tornozelo e dirige-se para a escuridão dos arquivos.
Sexta-feira, Janeiro 30, 2009
Achado
A gaivota determinada mergulha na água
Verde. Há um tempo para o peixe
E um tempo para o pássaro
E dentro e fora do homem
Um tempo eterno de solidão.
Muitas vezes, fixando o meu olhar no morto,
Vi espaços claros, bosques, igapós,
O sumidouro de um tempo subterrâneo
(Patético, mesmo às almas menos presentes)
Vi, como se vê de um avião,
Cidades conjugadas pelo sopro do homem,
A estrada amarela, o rio barrento e torturado,
Tudo tempos de homem, vibrações de tempo,
[ vertigens.
Senti o hálito do tempo doando melancolia
Aos que envelhecem no escuro das boîtes,
Vi máscaras tendidas para o copo e para o tempo.
Com uma tensão de nervos feridos
E corações espedaçados.
Se acordamos, e ainda não é madrugada,
Sentimos o invisível fender do silêncio,
Um tempo que se ergue ríspido na escuridão.
Cascos leves de cavalos cruzam a aurora.
O tempo goteja
Como o sangue.
Os cães discursam nos quintais, e o vento,
Grande cão infeliz,
Investe contra a sombra.
O tempo é audível; também se pode ouvir a
[ eternidade.
Revirando velhos discos descobri um sem data. A capa de Athos Bulcão e poesias declamadas por Vinicius de Moraes e Paulo Mendes Campos. O achado da semana. O resto é cotidiano, contas, pressas, despedidas, OSs, nas palavras do próprio Mendes Campos... "O mundo, companheiro, de certo, não é um desenho de metafísicas magníficas, como imaginei outrora, mas um desencontro de frustrações em combate."
Quarta-feira, Janeiro 28, 2009
Agora falando sério, preferia não falar nada que distraísse o sono difícil...
Qual não foi minha surpresa ontem ao receber no correio um pequeno livrinho com a chancela da The Economist chamado “Pocket World in Figures. 2009 Edition.” Um livrinho cheio de estatísticas inúteis, frias e algumas, vez por outra, incômodas.
Maior Economia do Mundo
Estados Unidos
Japão
Alemanha
China
Reino Unido
10. Brasil
Qualidade de Vida (Desenvolvimento Humano)
Noruega
Australia
Canada
Irlanda
Brasil não aparece entre os 60 seguites
Balança de Pagamentos
Maiores ‘surpluses’
1. China
2. Japão
3. Alemanha
4. Arábia Saudita
5. Rússia
6. Noruega
23. Brasil
Agricultura
Maiores Produtores
Cereais
1. China
2. Estados Unidos
3. India
4. Brasil
Carne
1. China
2. Estados Unidos
3. Brasil
Trigo
1. União Européia
2. China
3. India
4. Estados Unidos
Açúcar
1. Brasil
2. India
3. União Européia
Sementes Oleaginosas
1. Estados Unidos
2. Brasil
3. Argentina
Consumidor de Petróleo
1. Estados Unidos
2. China
3. Rússia
4. India
11. Brasil
Maiores Reservas de Petróleo
1. Arábia Saudita
2. Irã
3. Iraque
4. Kwait
5. Emirados Àrabes
6. Rússia
7. Venezuela
8. Líbia
Educação
Primária (porcentagem). Números que excedem 100% são computados para crianças crianças fora do grupo de Educação Primária, que ainda patinam na fase primária.
1. Gabão 152
2. Serra Leoa 147
3. Ruanda 140
4. Madagascar 139
5. Brasil 137
Highest Tertiary Enrolment. Este item inclui o investimento global em educação incluindo formação técnica e Universidade.
1. Grécia
2. Finlandia
3. Coréia do Sul
4. Cuba
5. Eslovênia
6. Estados Unidos
7. Dinamarca
Performace dos Estudantes
Nível de leitura
1. Coréia do Sul
2. Finlândia
3. Hong Kong
4. Canada
Matemática
1. Finlândia
2. Hong Kong
3. Coréia do Sul
Ciências
1. Finlândia
2. Hong Kong
3. Canada
Nóbeis
Paz
1. Estados Unidos 18
2. Reino Unidos 11
3. França 9
Economia
1. Estados Unidos
2. Reino Unido
3. Noruega
Medicina
1. Estados Unidos
2. Reino Unido
3. Alemanha
Literatura
1. França
2. Estados Unidos
3. Reino Unido
4. Alemanha
5. Suécia
6. Italia e Espanha
8. Noruega Polonia Russia
Consumidores de Cinema. Total de visitantes.
1. India
2. China
3. Estados Unidos
20. Brasil
Ben-Hur, Titatic e Lord of the Rings foram os filmes que ganharam mais Oscáres na história da Academia.
Poema Didático. Paulo Mendes Campos
[...]
Sem compreender que pelo simples teorema do egoísmo a vida enganou a vida, o homem enganou o homem. Por isso, agora, organizei o meu sofrimento ao sofrimento de todos. Se multipliquei minha dor, também multipliquei minha esperança.
[...]
Sexta-feira, Janeiro 23, 2009
O piloto japonês preparava-se para o seu vôo derradeiro; ao contrário do que muitos haviam feito, despediu-se da família com estreitos abraços e lágrimas japonesas e visíveis. Crê-se que chegou a dizer:
Bem, é certo que não voltarão a ver-me!
A filha mais nova, a que menos chorava, respondeu:
Em sonhos hei-de sempre voltar a ver-te, pai.
O piloto japonês sorriu.
Ondjaki, E se Amanhã o Medo.
Carlos e Onésimo já tinham me falado dele, mas grata foi a descoberta. O escritor angolano Ondjaki deve andar pela casa dos trinta e poucos, e já tem uma penca de bons livros publicados. Grande parte de suas referências e epígrafes são de escritores, poetas e letristas de música brasileiros. Seus contos, no livro "E se Amanhã o Medo," mescla algo de fábula com hiperrealismo, como no caso do protagonista do conto "A Confissão do Acendedor de Candeeiros," um velho, que acende os lampiões da cidade e que por sua idade avançada sabe que não durará muito, mas lá pelas tantas diz...
"Durante minha vida acendi candeeiros pela simples poesia desse gesto, sendo, cada chama, um poema que eu escrevia para quem passava."
"Quando olho o céu, lhe vejo assim pintalgado de brilhos, indago-me: e eu, quem me acendeu sempre, enquanto acendi estrelas aqui na terra?"
Música do dia. Zé Inácio - por Paulo Flores
Sábado, Janeiro 17, 2009
O homem de palavras
Pode ser ilusão, mas em termos de discursos, as semelhanças entre Obama e Kennedy foram comentadas durante as eleições americanas. O poder da retórica dos dois foi alvo de comparações e, justamente, por esta capacidade de argumentar não necessariamente se tornaram presidentes, mas sem dúvida políticos notórios. Tenho 4 sisos há quase 20 anos, e não sou ingenuo em afirmar presidentes se sustentam simplesmente pela força da retórica até por que as biografias pesam e pesam muito. Há diferenças. Kennedy era filho de um especulador imobiliário em NYC, de um prevaricador que por tráfico de influências fechava negócios milionários e lavava a grana em ramos da metalurgia, importação de àlcool durante a Prohibition, e filmes para Hollywood. Quando Jack assumiu o poder, estima-se que a fortuna do pai beirava os 400 milhões de dólares. Obama é filho de universitários, um queniano e uma americana. Isso explicaria muito de sua trajetória se ele continuasse sendo apenas um advogado de direitos civis, ou apenas um brilhante e dedicado presidente de Harvard. Mas não, o camarada tornou-se aos 34 anos escritor sensível com Dreams of My Father, presidente e mito aos quarenta e poucos anos.
No nível retórico, estou sinceramente curioso para ouvir as palavras de Obama em seu discurso de posse já que os discursos de posse imprimem as marcas pessoais dos presidentes. Como se fossem os selos que suas administrações mostrarão. Portanto, são diferentes dos discuros de camapanha. Até por que o discurso de campanha é um, o discurso inaugural é outro, e os discursos no poder são outros – estes sim diametralmente diferentes dos dois anteriores. Analisar os discursos de posse dos presidentes pode ser diletantismo mas é um exercício interessante. Kennedy disse em 1961:
“[...] não perguntem o que o seu país pode fazer por vocês, perguntem o que vocês podem fazer por seu país. Cidadãos do mundo, não perguntem o que os Estados Unidos podem fazer por vocês, e sim o que podemos fazer juntos pela liberdade"
Estes eram tempos de Eisenhower, da Guerra Fria, da neurose anti-comunista. Os americanos ainda não tinham ido para o Vietnã e a política da Détente nem era sonho.
Eu ainda podia citar mais dois exemplos de discursos clássicos recentes. Um deles o de Reagan em 1981: "Na atual crise, o Estado não é a solução para nosso problema; o Estado é o problema". Estes eram tempos da Dama de Ferro, monetarismo, fim dos programas socias, da Guerra nas Estrelas, da onda New Wave e de muitas outras coisas esquisitas.
Ainda nessa linha poderiamos citar o discurso de posse deste que sai – o qual me recuso pronunciar o nome. Em sua segunda posse, em 2005 disse:
"A política dos Estados Unidos é apoiar a expansão dos movimentos e instituições democráticas em todos os países e culturas, com o objetivo último de pôr fim à tirania em nosso mundo[...]"
“[...] pois enquanto regiões inteiras do planeta fervilharem em ressentimento e tirania inclinadas a ideologias que alimentam o ódio e perdoam o assassinato, a violência gerará e multiplicará seu poder destrutivo, cruzará as mais defendidas fronteiras e representará sempre uma ameaça mortal. Existe apenas uma força na história capaz de pôr fim ao reino do ódio e do ressentimento, de expor as pretensões dos tiranos e recompensar as esperanças das pessoas decentes e tolerantes, e é a força da liberdade humana[…]”.
Estes foram tempos de torturas de Abu Ghraib televisionadas, relatórios falsos na Assembléia Geral da ONU televisionados, enforcamento de tiranos televisionados, e uma grande apatia por parte dos telespectadores. Um Logos sem Ethos. Um Pathos com o Logos de manipular as emoções da audiência.
Em poucas horas Obama fará seu discurso de posse. Vai dar tudo certo. Eu também hope .
Quarta-feira, Janeiro 14, 2009
Ansiedade da Influência
A revista Granta 104, vem com este número todo dedicado ao tema da paternidade. Num dos artigos, um fantástico e emocionante de Siri Hustvedt, falando das complexidades das relações familiares e da fragilidade de crescer como mulher mesmo sendo oriunda de uma família liberal de Minnesota. Fala abertamente dos paradoxos sobre a educação de sua filha com Paul Auster - o que nos faz parecer um pouco como o Daniel Quinn - , sem panfletismo tampouco proselitismos feministas. Ela escreve tão bem, que deixa-nos uma sensação de placidez sem perder a força feminina.Eventualmente tentarei traduzir alguns trechos. Por agora, um video do Auster lendo seu último livro, onde a culpa sobre a qualidade da imagem e do audio é toda minha.
Segunda-feira, Janeiro 12, 2009
The Visitor

Em The Visitor, filme de Tom McCarthy, Richard Jenkins é Walter Vale, um homem de 62 anos, um professor de economia em Connecticut, viúvo e sem paciência para seus alunos e amigos da universidade. Num certo dia é praticamente obrigado pelo chefe de departamento de sua faculdade a apresentar uma conferência em NYC sobre um paper em que ele é co-autor – caso típico, mas dexapralá. Chegando a seu apartamento, que visita raramente, descobre, Tarek e Zainab. Tarek, percursionista, é Sírio, e Zainab, artesã, é senegalesa. Ambos vivem por alí há mais de dois meses sem serem incomodados. Após esse breve desentendimento, ambos decidem partir na mesma noite. O professor acaba propondo abrigo temporário para eles em seu apartamento e, aos poucos, vai se envolvendo com problemas que jamais imaginaria. Um deles é a quase imperceptível xenofobia pós-11/9... e outro são os delicados procedimentos dos departamentos de imigração americanos....
Nesse universo urbano e multiculturalmente idílico, Walter aos poucos vai se envolvendo com o universo de Tarek. Aprende percussão, larga definitivamente o piano e adia mais e mais a volta a Connecticut. Das aulas nasce uma espécie de amizade – pois é difícil dizer já que Walter é um homem contrito, eloquentemente sucinto, meio depressivo e quase monossilábico. Da amizade, diga-se de passagem um tanto rápida demais, nasce uma espécie de hipnose pela vida livre de Tarek.
Até o dia em que Tarek é preso no metrô, por um engano, na frente de Walter. Por não ter documentos é transferido a uma casa de detenção no Queens. Zainab, muito mais reservada que Tarek, decide partir. Sem notícias há vários dias, a mãe de Tarek, Mouna Khalil, interpretada pela belíssima atriz palestina Hiam Abbass, chega de Michigan para procurar o filho e fazer a vida de Walter mais complicada e interessante. Ambos se unem para tentar, em vão, soltar o rapaz. Como seria natural entre duas pessoas maduras, envoltas em experiências similares, ambos se sentem atraídos. Mouna confessa a vontade de assitir ao Fantasma da Ópera, que Walter galantemente convida-a para assistir. Enfim...
Não. Mouna e Walter, ambos viúvos, não começam um romance, mas Tom McCarthy roda uma cena daquilo que Nelson Rodrigues definiria, à sua maneira, como amor. O anjo pornográfico dissera que “[...] qualquer mulher nasceu para um só homem, qualquer homem nasceu para uma só mulher. Quando, por sua desventura, o homem e a mulher separaram o sexo do amor, começou o martírio de ambos.”
Não houve sexo na última noite em que Mouna passa no apartamento de Walter, antes de retornar a Síria, para esperar por seu filho, definitivamente deportado dos EUA. Mouna, no meio da noite vai ao quarto de Walter, deita-se em sua cama, pede para que ele a abrace e começa a chorar lamentando-se pelo destino do filho. Walter e Mouna dormem abraçados numa cena mais tocante que a da despedida de ambos no Aeroporto de JFK. Posso estar ficando velho e piegas, mas acho que isso também é uma forma de amor. Mas isso também pode ser ilusão.
http://www.thevisitorfilm.com/
Sábado, Janeiro 10, 2009
O Atraso de Mefistófeles
Já se disse que o estilo é parecido ao de Coetzee. É bem verdade, a história é narrada em discurso indireto livre, em terceira pessoa do singular, bem ao estilo do sulafricano. O narrador é distanciado e racional em demasia, não sugerindo em momento algum empatia ao leitor. Diga-se de passagem, afirmo que o Tezza é escritor dos bons, pois sustentar o ambiente de desilusão de um personagem ressentido com o mundo e consigo é algo que imagino requeira um esforço descomunal, pois até agora só lera em escritores como Roth e Coetzee tal ausência de compaixão com seus protagonistas, suas criaturas. Tezza ousa. O seu personagem inominado quase chega perto da complexidade resignada de Seymour Levov ou da frieza contrita de David Lurie. Quase.
A idéia da paternidade de um filho com Síndrome de Down cai-lhe como uma bomba ferindo o orgulho, frente aos parentes e amigos, com a idéia da paternidade fracassada. Por ela, e somente por essa razão, aquela espécie de jovem pequeno-burguês - com aventuras ilegais em Portugal e na Alemanha, que prolonga a adolescência de boemia até os 28 anos – com complexo de superioridade suficiente para iludir-se quanto ao pragmatismo da vida, esfacela-se. Transforma-se numa pessoa mal resolvida. A paternidade em tais termos, condena o protagonista a ter contato com um mundo de hospitais públicos, gente pobre – à qual despreza - e médicos insensíveis ao seu problema que concebe como lotérico. Talvez por isso, chegue a pensar, nem tanto como nos devaneios de Cronos que devora os filhos, que seria bom se o filho morresse cedo - talvez de acidente, ou por um acaso lotérico tal como aquele que o fez cair nos braços daquele pai. Pensar se pensar isso é moral ou não, deixo para que outros decidam. Só sei que, ainda que de forma bastante episódica no livro, nosso pequeno Mefistófeles, baseado nessa esperança, tenta escrever um grande poema sobre suposta morte trágica do filho, e tenta publicá-lo. Arrepende-se logo em seguida. Enfim, há algo de culpa cristã no personagem. Tezza, dessa forma, cria um protagonista de frieza analítica, aliada a empáfia niilista, que revela, em sua arrogância intelectual, o que quer ver de errático na natureza dos fatos, tal como um David Lurie.
É um livro de saltos grandes no enredo. Dos exercícios motores da infância, aos primeiros anos na escola, passando pelas aulas de fonoaudiologia, pelas tentativas de alfabetização, pela certeza de que aos 8 anos Felipe não poderia frequentar a escola até nascimento da segunda filha – esta sem Síndrome – há elipses no enredo. A filha nunca aparece. A mãe das criancas, por sinal, aparece para parir, sustentar a casa e desaparecer novamente. Todos os personagens secundários, incluindo o filho eterno, me passaram a impressão, apesar de serem peças chave na narrativa, de frequentar a estória apenas para tornar a luta por projeção do pai, escritor mediocre e acadêmico inexpressivo, numa luta épica pela recuperação da idéia de paternidade.
Pouco menos de um quarto para final do livro, a estória esgota certas possibilidades de distanciamento e dá uma certa virada para recortes cotidianos mais sentimentais que mostram um pai mais maduro, adaptativo e sociável. Certo dia Felipe desaparece. O pai se desespera e enquanto procura pelo filho é tomado por uma sensação de vazio. Felipe já com quase 20 anos ainda não lê nem escreve, mas consegue ter noções de tempo pelos prazos dos jogos do Campeonato Brasileiro, usa internet, cria e nomeia pastas no computador. Este episódio da perda do filho poderia incorrer num aspecto redentor do pai. Mas Tezza toma extremo cuidado com essa armadilha que poderia transformar o livro numa bomba, pois seria muito fácil transformar este enredo numa série de fatos sentimentais encadeados em torno à culpa, à compassividade, ou à redenção do pai - temas que Tezza, como grande escritor, evita cuidadosamente.
Sexta-feira, Janeiro 09, 2009
Samba e Alteridade
fato ou estado de ser um outro (por oposição a identidade);
qualidade do que é outro ou de uma coisa diferir de outra.
Quarta-feira, Janeiro 07, 2009
De Chinese muur
Aagt (Celia Nufaar) é uma mulher madura e solitária. Maltratada pela vida, perdera o amor de sua vida por influência dos pais, teve um único filho que voltou-se contra ela, por influência da nora, e seu marido morreu numa cadeira de rodas ao seu lado. Num dos almoços em seu habitual restaurante chinês, sentada à sua habitual mesa, pedindo seu habitual prato com uma porção extra de frango, a conhecemos e conhecemos boa parte de sua vida através de seus pensamentos e julgamentos precipitados refletidos nos outros comensais, ao vislumbrar nestes sinais particulares de episódios chaves em sua vida.
Três mesas estavam ocupadas. Numa mesa – que chamo de mesa 1 - vemos um grupo de cinco jovens, num aparente almoço de escritório, onde alguns se sentiam desconfortáveis com ascensão de um deles sobre os demais, mas uma das jovens olhava-o atentamente com admiração, dando, numa prosaica maneira de dizer, o maior mole pro cidadão ( dali vieram-lhe os pensamentos da juventude, do amor perdido por Aagt). Na mesa do canto – a mesa 2 - , uma família, pai, mãe e um filho adolescente, aborrecido e constrangido com a presença dos pais que o tratam com um relativa condescendência e pudor (desta, a lamentação por ter perdido o filho). Na terceira mesa – mesa 3 - , à sua frente, Aagt tem um casal. Uma mulher apática, sendo servida pelo opressivo marido, que com certa autoridade e arrogância pedira a comida e o segundo copo de cerveja, de forma arbitrária, pré-julgando seu gosto pela comida ( desta, o alívio por não ter mais um marido). Mas o porquê de tais diálogos internos, naquele dia específico: aquele era o dia de seu aniversário que solitariamente queria manter em segredo.
Já no fim de seu almoço, tendo deixado boa parte da comida, Aagt é indagada pela dona do restaurante se não gostara da comida. Ela então, inadvertidamente, revela a importância pessoal da data. Inesperadamente arma-se um carnaval - nem tanto no estilo do surreal e antológico “Salvador Janta no Lamas” de Victor Giudice. A gerente aparece com um bolo. Aagt entra em pânico - um pavor interno a bem da verdade - ao ver-se analisada pormenorizadamente por todos. Ser o centro das atenções naquele dia solitário e meio amargo não estava em seus planos. Quando Aagt oferece parte do bolo aos demais comensais, a gente decide juntar as mesas do pequeno restaurante. Frustração, alegria e esperança se encontram. A mãe do adolescente (Mesa 2), então, empurra feliz a cadeira de rodas do rapaz para junto da grande mesa; o grupo de jovens (Mesa 1) da aula semanal de patinação no gelo é alegre e é o primeiro a tomar a atitude de juntar as mesas; e a até então infeliz mulher(Mesa 3) anima-se e manda seu irmão indiferente e ansioso em terminar o almoço com a irmã, juntar também a mesa dos dois à dos outros. Simples. Emocionante. Surpreendente.








